Por volta das 11h (de Brasília), o Brent para junho avançava 2,79%, a US$ 108,23, enquanto o WTI para maio subia 2,78%, a US$ 102,40.
Os níveis consolidam a volta do petróleo à faixa de três dígitos e sinalizam um mercado que, mais do que reagir a fundamentos clássicos, passa a precificar cenários extremos com maior probabilidade.
Na B3, também às 11h, o movimento do “ouro negro” se traduz diretamente nos preços das ações. A Petrobras (PETR3; PETR4) avança, com alta de 2,98% nas ordinárias, a R$ 55,92, e de 2,13% nas preferenciais, a R$ 50,46.
O movimento é acompanhado por outras petroleiras. A PetroReconcavo (RECV3) sobe 4,05%, a R$ 14,13, enquanto a PRIO (PRIO3) avança 2,13%, a R$ 72,33. Já a Brava Energia (BRAV3) lidera os ganhos, com alta de 5,88%, a R$ 20,71.
Risco no Estreito de Ormuz
No Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde transita cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo, o fluxo opera sob restrições. O Irã passou a exigir autorizações militares para a travessia de embarcações e indicou que pode bloquear unidades consideradas hostis, o que eleva o risco de interrupções abruptas.
Há, no entanto, sinais pontuais de flexibilização, como a liberação de navios paquistaneses, mas o quadro geral permanece frágil. A leitura predominante no mercado é que o estreito está funcional, porém longe de normal.
Isso força exportadores a recorrerem a rotas alternativas, como o oleoduto leste-oeste da Arábia Saudita, que desvia o fluxo para o Mar Vermelho. Ainda assim, essas alternativas também entram no radar de vulnerabilidade, sobretudo após a entrada dos houthis — grupo rebelde do Iêmen alinhado ao Irã e conhecido por atacar rotas marítimas e instalações energéticas na região — no conflito, ampliando o risco de ataques a infraestruturas energéticas fora do eixo tradicional.
Escalada militar e retórica dos EUA
O vetor geopolítico ganha ainda mais intensidade com novas declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele afirmou, no último domingo (29), que alvos no Irã foram “eliminados e destruídos” e classificou a ofensiva como um “grande dia”, ao mesmo tempo em que voltou a mencionar a possibilidade de atingir a Ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo iraniano no Golfo Pérsico.
Trump indicou ainda que, caso não haja acordo, pode ampliar ataques a infraestruturas críticas, incluindo usinas de energia, poços de petróleo e até instalações de dessalinização. Em paralelo, afirmou que negociações com Teerã avançam “direta e indiretamente” e podem resultar em um acordo em breve.
Do outro lado, autoridades iranianas reforçam o tom duro, com ameaças a tropas norte-americanas em caso de invasão terrestre.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que Washington pretende retomar o controle do Estreito de Ormuz e destacou que já há aumento no número de embarcações cruzando a região, o que poderia aliviar, ainda que parcialmente, as restrições no fluxo global.
Segundo ele, o mercado enfrenta um déficit relevante, estimado entre 10 milhões e 12 milhões de barris por dia, o que mantém qualquer incremento de oferta como fator sensível para os preços.
Ao mesmo tempo, a Rússia reforça sua atuação como fornecedora global. O Kremlin confirmou o envio de derivados de petróleo à Cuba e reiterou que pretende seguir como um parceiro energético confiável para diferentes mercados, inclusive o europeu, em meio à reorganização das cadeias globais de energia.
O desencontro de narrativas mantém o mercado financeiro em estado de alerta. Entre a possibilidade de cessar-fogo e o risco de escalada mais ampla, o petróleo sobe em meio às declarações.
Impacto direto nos preços
A alta do petróleo reflete tanto o risco de interrupção da oferta quanto a incerteza sobre a duração do conflito. O Itaú (ITUB3; ITUB4) projeta o Brent em US$ 125 em abril, com posterior acomodação para US$ 75, ainda acima do patamar anterior.
O choque no petróleo reabre o debate sobre inflação global. Bancos centrais passaram a enfatizar o risco de desancoragem das expectativas, especialmente após a experiência recente com choques persistentes de energia. Nesse contexto, o Itaú revisou seu cenário e não vê mais espaço para cortes de juros nos Estados Unidos em 2026, com possibilidade até de alta caso o petróleo permaneça elevado por mais tempo.
O Boletim Focus passou a indicar um corte mais moderado da Selic em abril, de 0,25 ponto porcentual, levando a taxa de 14,75% para 14,50%. A revisão reflete o aumento das incertezas, com o Banco Central adotando postura mais cautelosa diante do impacto potencial da alta do petróleo sobre a inflação.
O presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, reforçou que o momento exige conservadorismo, destacando que o choque de energia ainda será melhor compreendido até a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).
Com informações da Broadcast