Embora as notícias sejam mais negativas do que positivas, não há uma crise sistêmica no mercado de capitais, afirma gestor da Absolute. (Imagem: Adobe Stock)
Os investidores estão resgatando seus investimentos em crédito privado a qualquer preço como se a “quebradeira fosse geral”. “Observamos investidores resgatando como se ‘tudo fosse quebrar’. Mas é preciso olhar o que de fato está acontecendo no crédito privado brasileiro”, afirmou Paulo Bokel, gestor de crédito da Absolute Investimentos, em entrevista à Broadcast.
O “pânico”, como Bokel classifica os resgates líquidos dos fundos de crédito que totalizam R$ 11 bilhões nos 12 meses encerrados em março, tem como pano de fundo dois grandes dados. Um é o recorde histórico de pedidos de recuperação judicial. Outro é a grandeza das empresas que entraram em apuros e a sequência de notícias sobre esses eventos na imprensa.
Desde 2024, surgiram problemas com os títulos de dívida de Lojas Americanas, a maior fraude contábil da história recente, Light, GPA. Somente em meados do segundo semestre de 2025, Ambipar, Braskem, Oncoclínicas, Emae, Banco Master tiveram problemas. Em seguida, apareceram Will Bank e Banco Pleno. Em fevereiro, Raízen.
Bokel pontua que, embora, as notícias sejam mais negativas do que positivas, é preciso olhar com uma lupa e entender que não há uma crise sistêmica. Ele apresenta alguns argumentos. Um deles é que os pedidos de recuperação judicial afetam, principalmente, pequenas e médias empresas que não estão no mercado de capitais. Além disso, ele destaca que parte dos pedidos ainda remete um efeito defasado da pandemia, quando muitas companhias foram socorridas por linhas de auxílio do governo.
“O mercado ficou mais transparente e maduro. O mercado secundário dobrou em dois anos. Janeiro e fevereiro de 2026 registraram os maiores volumes para esses meses na série histórica. Esse não é o perfil de um mercado em colapso. É o perfil de um mercado em acelerada maturação”, diz Bokel.
A forte volatilidade nos preços dos títulos de crédito privado – evidenciada pelo vaivém dos spreads (diferença entre o preço de compra e o preço de venda) nas taxas desses papéis – é justificada em algumas circunstâncias, segundo Bokel. Ele pontua que o mercado secundário de debêntures dobrou de tamanho e, com o maior número de negociações, a dinâmica da marcação a mercado dos títulos ficou ainda mais ágil, dando maior visibilidade aos movimentos de spread. “Não há necessariamente mais risco no sistema. Há mais transparência”, diz Bokel.
Em outubro do ano passado, diante da expectativa de uma regulação federal que propunha tributar as debêntures incentivadas, houve um salto na demanda e, consequentemente, uma queda nos spreads. Naquele momento, emissores pagando spreads negativos nos títulos isentos era comum. Antes de 2025 encerrar, os spreads voltaram ao normal, mas logo tiveram um revés.
O gestor da Absolute lembra que os fundos de infraestrutura, pressionados pela necessidade de enquadramento da carteira, que precisava ter 85% do PL aplicado em títulos do segmento, intensificaram as compras de debêntures incentivadas. “Isso voltou a comprimir spreads de forma acentuada logo no início do ano, a despeito do cenário externo mais volátil”, disse Bokel.
Com o evento da Raízen, uma das maiores emissoras do mercado de capitais, os spreads voltaram a subir. “Esse episódio gerou contágio e abertura relevante de spreads em toda a classe de debêntures, independentemente do setor ou da qualidade dos emissores”, afirmou Bokel. Ele acrescenta que, em março, a divulgação de resultados corporativos abaixo do esperado em alguns emissores relevantes amplificou o movimento e deixou o mercado sem referência clara de preço e com liquidez reduzida no primário.
Perspectivas
O gestor da Absolute não vê grandes emissões nos próximos meses. Ele argumenta que, por um lado, tem um problema de calendário com realização da Copa do Mundo de futebol masculino e, depois, eleições presidenciais no Brasil. Por outro lado, ele prevê uma demanda fraca, especialmente do investidor pessoa física.
“Não é que não vai haver emissão. Mas vejo que o mercado vai seguir fraco porque não há demanda por parte da pessoa física”, diz Bokel. E acrescenta: “Quando parar de ter notícia ruim, a captação deve começar a voltar.”