

O presidente americano, Donald Trump, deve anunciar nesta quarta-feira (2) o pacote tarifário batizado por ele de “Dia da Libertação”, com os mercados globais oscilando num sentimento de cautela, mas também de alívio. Especialistas veem volatilidade à frente, mas apostam que parte dos riscos já está precificada. O temor maior está em possíveis “surpresas”. Caso o tarifaço venha mais duro do que o previsto, o efeito sobre a inflação poderia redesenhar cadeias e azedar o humor global.
Após abrir em estabilidade, o Ibovespa intensificou queda e perdeu os 131 mil pontos visto no início da sessão desta quarta-feira (2). Às 11h22, o índice recuava 0,49%, aos 130.505 pontos. O dólar hoje iniciou a sessão com queda de 0,10%, a R$ 5,6770. Horas antes do anúncio, às 17h (Brasília), as bolsas globais operavam em baixa, a exemplo dos mercados da Europa. As bolsas asiáticas fecharam sem direção única e com variações modestas.
“Ter maior clareza sobre quais tarifas serão anunciadas e poder calcular os verdadeiros efeitos para a economia pode trazer um certo alívio, especialmente para setores e segmentos menos afetados”, argumenta a gerente de Research da Nomad, Paula Zogbi. Para ela, caso as tarifas anunciadas sejam mais agressivas que o antecipado, é possível um fortalecimento do dólar ligado à expectativa de juros altos por mais tempo. Mais tarifas significam mais inflação.
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Caique Stein Laguna, sócio e especialista de investimentos offshore na Blue3 Investimentos, lembra que aumento de custos afeta o consumidor. Isso, por sua vez, pode reduzir a demanda e pressionar margens e o lucro das empresas. “Se as tarifas afetarem setores relevantes, ações de empresas exportadoras podem sofrer, puxando os índices para baixo”, afirma.
Um cenário mais pesado, no entanto, não vem sendo trabalhado como base por parte dos analistas. “A antecipação do mercado está gigante em relação a esse período. Ou seja, basicamente o ‘Dia da Libertação’ já estaria no preço”, afirma André Franco, CEO da Boost Research.
Em termos gerais, o mercado antecipou até agora a continuidade das tarifas de 25% sobre aço e alumínio de países como Brasil e Canadá, e 10% adicionais sobre bens chineses. Setores como o automotivo esperam tarifas de 25% sobre carros importados, como os da Toyota fabricados no México. “A proposta de Trump busca equilibrar déficits comerciais e proteger a indústria americana e agricultura, afetando grandes parceiros comerciais, incluindo China, União Europeia, México, Canadá e Brasil”, lembra Ian Toro, especialista de renda variável da Melver.
Reações engatilhadas
Na visão de André Franco, da Boost Research, a turbulência aconteceria somente se houvesse um anúncio de outras medidas ainda não reveladas, que podem gerar retaliação de outros países. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, por exemplo, afirmou que a União Europeia está pronta para responder a uma eventual guerra comercial.
No Brasil, embora a reação não tenha a mesma intensidade, o governo também vem se articulando para mitigar os impactos de possíveis retaliações tarifárias. “A magnitude do pacote que será anunciado funcionará como um termômetro. Pode confirmar os temores do mercado, agravando o pessimismo, ou trazer algum alívio, caso venha mais brando do que o esperado. Tudo dependerá do tom e do alcance das medidas”, observa Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.
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Para o time da Suno, no entanto, a expectativa é de um pacote mais duro, diante das sinalizações sobre tarifas recíprocas e do tom adotado por Trump ao chamar a data de “Dia da Libertação”. “Caso isso se confirme, o impacto sobre as bolsas tende a ser negativo”, reforça Sung.
O fato é que as tarifas de Trump elevam a incerteza sobre a economia dos EUA, já marcada por volatilidade e queda na confiança do consumidor, observa Christopher Galvão, analista da Nord Investimentos. O encarecimento de insumos pode pressionar a inflação e afetar a produção no curto prazo. “Não à toa, o mercado está discutindo, nesse momento, uma possível recessão na economia americana, que eu não vejo acontecendo, pelo menos com as informações que a gente tem até o momento”, diz.
Reflexos para os ativos brasileiros
As reações já acontecem, lembra o analista da Nord. Países como a China, Japão e Coreia passaram a articular acordos regionais, “e o Brasil pode se inserir nessas negociações”, diz Galvão. Paula Zogbi, da Nomad, também acredita na possibilidade de que esses laços comerciais sejam estreitados com as novas restrições dos EUA.
“É possível esperar algum efeito para os segmentos em que nossas relações comerciais com os EUA são mais fortes, como petróleo, aço e commodities agrícolas, a exemplo de soja e café”, diz a especialista da Nomad. Ela lembra que é preciso observar como serão as negociações entre EUA e outros países com laços comerciais com o Brasil, como a China.
Caique Stein Laguna, da Blue3, reforça que, no Brasil, o setor mais exposto é o de ferro e aço, que destina cerca de 48% das exportações aos EUA. “Como maior fornecedor de aço semiacabado para o mercado americano, o Brasil pode ser fortemente impactado”, comenta. “Essa sacudida que o Trump está dando vai mexer com supply chain (cadeia de fornecimento) do mercado inteiro”, opina André Franco, da Boost Research.
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As mudanças também podem alterar os preços dos ativos brasileiros, aponta o analista da Nord, Christopher Galvão, lembrando que diante da volatilidade nos EUA e dos múltiplos ainda caros por lá, o momento é favorável para maior exposição à Bolsa brasileira. Com fundamentos sólidos e baixa alocação de fundos locais, o Brasil poderia se beneficiar de uma rotação global para ativos mais baratos como das ações brasileiras.