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Mercado

Taurus: ‘As questões jurídicas [contra nós] enchem o saco’

Presidente da fabricante de armas fala sobre crítica de acusação de lobby e cenário do Brasil e do mundo para a companhia

Taurus: ‘As questões jurídicas [contra nós] enchem o saco’
(Foto: Fabrício de Oliveira Medeiros/Divulgação)
  • O presidente da companhia, Salésio Nuhs, falou ao E-Investidor sobre o momento de recuperação da empresa, que, apesar de boas cifras em 2020, ainda sofre com uma dívida bruta de R$ 1,038 bilhão
  • Na avaliação de Nuhs, ainda que o crescimento tenha ficado abaixo da expectativa, a venda de armas nos Estados Unidos está aquecida
  • Nesta entrevista, o presidente também avalia o cenário do Brasil para a empresa as acusações de envolvimento da Taurus em lobby do setor. Nuhs defende que a Taurus restabeleceu seu relacionamento com o mercado consumidor brasileiro e internacional

A Taurus Armas (TASA3; TASA4) comemora um bom momento, que é atribuído à mudança de rumo implementada pela nova gestão nos últimos anos. Em 2020, a companhia passa longe da realidade amarga de muitos setores da economia mundial, afetados pela pandemia de covid-19. Com bons indicadores de produção e venda, conforme balanço divulgado na quinta-feira (13), a fabricante brasileira de armas tenta se desvencilhar da antiga gestão – a ela é atribuído o ônus de problemas, como má relação com o mercado e a qualidade de alguns produtos.

O presidente da companhia, Salésio Nuhs, falou com exclusividade ao E-Investidor sobre o momento de recuperação da empresa. Apesar das boas cifras em 2020, a Taurus ainda sofre com uma dívida bruta de R$ 1,038 bilhão, montante 15,2% superior à posição do encerramento do exercício de 2019. Quase 90% desse débito é cobrado em dólar, uma vez que a empresa tem forte atuação nos Estados Unidos, principal mercado mundial de armas, e onde detém uma fábrica no estado da Geórgia.

Na avaliação de Nuhs, ainda que o crescimento tenha ficado abaixo da expectativa, a produção e a venda de armas nos Estados Unidos estão aquecidas devido a fatores sócio-políticos, como a possibilidade de um governo mais proibicionista – caso Joe Biden vença Donald Trump nas urnas – e os protestos antirracismo desencadeados pelo assassinato de George Floyd, um homem negro, pela polícia norte-americana.

“As vendas nos Estados Unidos estão muito aquecidas. Historicamente, a ameaça de troca de governo, por conta de maior restrição a arma de fogo, tem uma correria muito grande para compra desses produtos”, analisa o presidente da Taurus.

Entre os dilemas estão acusações de falhas em armamentos, o que levou a empresa a ser impedida pela Polícia Militar de São Paulo de concorrer a licitações. A companhia recorreu desse e de outros processos, que remontam aos tempos da antiga gestão, e defende que quando há perícia as falhas são contestadas.

“As questões jurídicas ‘enchem o saco’, mas isso fica com o meu departamento jurídico. Mas é muito importante que todas as vezes que são feitas perícias técnicas, de acordo com as normas internacionais, ou mesmo nacionais, a verdade dos fatos é restabelecida”, afirma Nuhs.

De todo modo, o mercado financeiro considera que esse tipo de imbróglio prejudica a credibilidade da companhia junto ao mercado financeiro e traz volatilidade aos papéis da companhia, negociados na B3.

Em 2020, a ação TASA4 abriu o primeiro pregão do ano cotadas a R$ 6,24. Em 23 de março, início da pandemia, a cotação despencou para R$ 2,31. Três meses depois, em 23 de junho, já havia subido para R$ 7,44. Desde então, veio oscilando até os R$ 6,05 do pregão da sexta-feira (14), demonstrando uma boa recuperação desde o começo da crise.

Sobre a Bolsa, Nuhs lembra que a companhia possui três séries de bônus de subscrição em aberto, com potencial em valor a ser convertido (aproximado) de R$ 97 milhões, R$ 60 milhões e R$ 63 milhões.

Mas a empresa vem entregando bons números para se restabelecer. Conforme o balanço, no segundo trimestre de 2020, foram produzidas 103 mil unidades na fábrica nos EUA, ante 45 mil no primeiro trimestre, um aumento de quase 130%.

Já o número de vendas nos EUA em todo o primeiro semestre de 2020 foi 692 mil unidades, volume que supera as 659 mil armas vendidas pela companhia no primeiro semestre do ano passado, considerando as vendas nos Estados Unidos, no Brasil e as exportação para outros países.

No Brasil, a Taurus vendeu 102 mil unidades no primeiro semestre de 2020, mais que o dobro das 50 mil unidades vendidas em todo o primeiro semestre de 2019. Já a produção brasileira, entre abril e junho deste ano, foi de 289 mil unidades.

Nesta entrevista, além dos recentes resultados, o presidente avalia o atual cenário do Brasil para a empresa e tacha de “folclore” as acusações de envolvimento da Taurus em lobby do setor. Com o que chama de “ruptura” definitiva com o antigo modelo de gestão da companhia, a qual preside desde janeiro de 2018, Nuhs defende que a Taurus restabeleceu seu relacionamento com o mercado consumidor brasileiro e internacional.

E-Investidor: Em que medida a pandemia impactou os negócios da Taurus no Brasil?

Salésio Nuhs: Em um primeiro momento, a gente formou um comitê para avaliar os efeitos da pandemia e o que a gente podia fazer para manter a operação de pé, porque nós somos uma atividade essencial, como uma empresa estratégica, nomeada pelo Ministério da Defesa. Além de não prejudicar a operação, nós conseguimos um ramp-up [aumento] de produção neste período. Até porque o mercado está muito aquecido. Então, não tivemos nenhuma perda de produção. Pelo contrário.

E-Investidor: Como foi a operação nos Estados Unidos, importante mercado para a empresa e principal país afetado pela covid-19?

Salésio Nuhs: Nós inauguramos a fábrica [transferida da Flórida para Geórgia] em dezembro [de 2019], e começamos a operar em janeiro [de 2020]. O primeiro trimestre foi dentro das nossas perspectivas. Mas a pandemia nos Estados Unidos realmente afetou a produção da fábrica. A gente não conseguiu 100% do ramp-up, apesar de que nós tivemos um crescimento de produção. Ou seja, não é que teve perda de produção, só não teve o crescimento esperado.

E-Investidor: Sobre as eleições nos EUA, Trump é mais armamentista e Biden assume outro viés. Como vê essa diferença, considerando que Biden está na frente?

Salésio Nuhs: Historicamente, a ameaça de troca de governo gera uma correria muito grande para compra de armas de fogo. Minha expectativa é que se tiver uma mudança, vai vender mais ainda, porque as pessoas ficam inseguras com relação a uma possível mudança no comércio de armas. A segunda emenda é uma coisa sagrada para os norte-americanos e se eles virem alguma possibilidade de esse direito ser ameaçado, eles vão usá-lo preventivamente.

E-Investidor: Isso que justifica o aumento na procura por armas nos EUA?

Salésio Nuhs: Também. Como teve aquelas manifestações de rua, por conta da morte de um homem negro por um policial, isso também proporcionou um aumento maior na necessidade da legítima defesa, por conta daqueles possíveis ataques às residências e ao comércio.

E-Investidor: A Taurus passou por anos conturbados, de prejuízos, e vem se recuperando. Quanto a antiga gestão ainda pesa no desempenho da empresa?

Salésio Nuhs: Na questão organizacional, nenhuma. Zero. Nós fizemos uma ruptura, reorganizamos toda a parte operacional da companhia. Foram mudanças estruturais em todos os nossos processos de gestão, sejam eles administrativos ou operacionais.

E-Investidor: Então não há mais “fantasmas” do passado interferindo na operação da Taurus?

Salésio Nuhs: Em hipótese alguma. Até o nome da companhia nós mudamos. Ela se chamava Forja Taurus e nós mudamos para Taurus Armas. Obviamente que ficaram resquícios com relação a produtos, mas nós descontinuamos todos aqueles polêmicos no passado e mantivemos aquilo que fazia parte da história boa da companhia, de 80 anos, a maior fabricante de revólveres do mundo.

E-Investidor: O mercado, inclusive, considera que as acusações de falhas em produtos, processos judiciais, afetam a credibilidade da empresa. Como tem tentado contornar esse problema?

Salésio Nuhs: O que na minha opinião mais pesou na antiga gestão da companhia foi o relacionamento com o mercado, que era muito ruim. A gente reformulou tudo isso. Hoje a gente tem pronto atendimento para tudo. Não interessa a idade da arma. Se a pessoa por algum motivo acha que ela está insegura, a gente faz pronto atendimento. O problema não era nem de qualidade, mas de relacionamento com o mercado. E essas mudanças não aconteceram nos últimos 30 anos, mas sim nos últimos dois anos e meio, de 2018 para cá.

E-Investidor: E como vê os processos judiciais sobre acusações de falhas?

Salésio Nuhs: As questões jurídicas ‘enchem o saco’, mas isso fica com o meu departamento jurídico. Mas o que é muito importante é que todas as vezes que são feitas perícias técnicas, de acordo com as normas internacionais, ou mesmo nacionais, a verdade dos fatos é restabelecida. A gente não tem nenhuma condenação nesses casos polêmicos que foram judicializados. Mas evidentemente que nós vamos tratá-los com responsabilidade.

E-Investidor: Qual a importância do mercado brasileiro para a Taurus?

Salésio Nuhs: O consumidor brasileiro é muito importante para nós. Porém, em termos de volume, ele não muda a história da companhia. O nosso nível de produção versus o consumo no Brasil é muito pequeno. E eu não tenho nenhum problema de consumo no Brasil. Pelo contrário, as vendas aqui foram as que mais cresceram neste semestre. Isso prova que eu não tenho problema de relacionamento. Mas eu não quero ser unânime. Todo mundo tem crítica. Mas eu as uso para melhorar a eficiência da companhia. E o fato é que o consumidor hoje confia na marca.

E-Investidor: À época das eleições de 2018, muito se falou que a empresa se valorizaria com a vitória de Jair Bolsonaro. Considera que isso aconteceu?

Salésio Nuhs: A venda de armas no Brasil nunca foi proibida. Os governos anteriores é que eram contra arma na mão de civil e dificultavam o processo. Este governo ampliou a quantidade de calibres que o brasileiro pode adquirir. Isso para nós era uma frustração, porque a Taurus tem um portfólio completo de produtos. Só que a gente não conseguia oferecer para o nosso cliente brasileiro. Com essas mudanças que aconteceram neste governo, permitiu-se ao brasileiro ter acesso a todo esse tipo de armamento, nesses calibres liberados. Isso aumentou as vendas.

E-Investidor: Então o governo está dentro das expectativas da empresa?

Salésio Nuhs: Quando nós assumimos a companhia, o cenário era outro e nós desenhamos um planejamento estratégico para reposicioná-la no mercado. Isso independentemente de governo aqui ou em qualquer lugar do mundo. E nós vamos continuar firmes neste propósito, buscando esse crescimento não só operacional, mas principalmente de resultados. Fatores externos criam cenários favoráveis ou desfavoráveis. O momento no Brasil hoje é favorável para o segmento.

E-Investidor: Como vê as acusações lobby?

Salésio Nuhs: Essa questão de lobby é um folclore, uma coisa maluca. Nós temos um funcionário em Brasília que leva e traz documentos do Itamaraty, do Ministério da Defesa, documentos burocráticos. Nós somos totalmente controlados. Aí a mídia diz que esse funcionário é um lobbista. Isso tem que ser desmistificado. Mas eu não vou me preocupar com isso.

E-Investidor: Mesmo com a comprovação de várias reuniões demoradas com o governo, o senhor vê isso como folclore?

Salésio Nuhs: Nós somos uma empresa estratégica de defesa, que é uma empresa importante para a soberania nacional. Quem denomina isso é o Ministério da Defesa, que tem um olhar geral sobre o País. Não só a Taurus, várias outras empresas são estratégicas. E a questão da defesa no Brasil é discutida com a indústria estratégica de defesa. Isso é diferente de lobby. Não são longas conversas para lobby, isso é folclore. Isso é fake news. O que existe é um relacionamento de uma empresa estratégica de defesa com órgãos governamentais.

E-Investidor: O que se fala nessas reuniões?

Salésio Nuhs: Toda a exportação da Taurus depende de aprovação do Ministério da Defesa e do Itamaraty. Se não você não consegue exportar, é porque tem questões diplomáticas com os países, restrições comerciais internacionais. Quem diz isso não sou eu. Para qualquer país que eu quero iniciar uma negociação, eu tenho que pedir autorização para o Ministério da Defesa e para o Itamaraty. Isso é um relacionamento regulatório. Isso existe. Lobby não existe.

E-Investidor: Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, já criticou concentração de mercado da Taurus? Como o senhor vê essa fala?

E-Investidor: O mercado já está aberto e sempre esteve. Ele é restritivo para as indústrias brasileiras e as estrangeiras. Nós não temos nenhum problema com relação à concorrência. Nós concorremos com o mundo inteiro. Somos a quarta marca mais desejada nos Estados Unidos, que é o maior mercado e o mais competitivo no mundo. O que me preocupa é que as empresas quando exportam para o Brasil, elas não pagam os impostos que as indústrias brasileiras desse setor pagam. Ou seja, existem vantagens tributárias para exportações para o Brasil. Quem vai perder com isso não é a Taurus, é o Brasil, com relação a geração de impostos e empregos.

E-Investidor: Quais são essas vantagens?

Salésio Nuhs: Para eu lançar um produto, eu tenho que homologá-lo em um órgão do Brasil. Isso é um processo que demora dois anos se não há nenhum produto na fila. As empresas quando exportam para o Brasil não passam por nenhum órgão homologador. Ou seja, existem várias vantagens para as indústrias estrangeiras neste nosso segmento, e isso terá que ser regulamentado e muito rapidamente.

E-Investidor: Quais seriam esses impactos para o Brasil, sem uma regulamentação?

Salésio Nuhs: Isso vai implicar em geração de emprego, vai implicar em arrecadação de impostos. A Taurus mesmo agora já transferiu uma linha de produção para os Estados Unidos, e estamos transferindo a segunda linha. Não estamos diminuindo produção no Brasil. Pelo contrário. Só que ao invés de eu aumentar essas duas linhas de produção aqui, eu as construí e mandei para os Estados Unidos. Inclusive, com uma expectativa de exportar para o Brasil, para ter esses benefícios.

E-Investidor: Quais são os planos da Taurus no curto e médio prazo? Há intenção de abertura de novos mercados?

E-Investidor: Neste segundo trimestre, nós realizamos cinco recordes na companhia, em Ebitda, margem curta, volume de produção e de vendas e receita. Estou olhando para o futuro neste patamar. Nós estamos vivendo um mercado extremamente aquecido, tanto aqui no Brasil como nos Estados Unidos, onde estamos com um ramp-up de produção. Estamos em vistas de inaugurar uma fábrica na Índia, onde seremos a primeira fábrica privada a produzir produtos civis. Isso é muito importante para uma empresa brasileira.

E-Investidor: E quanto à concorrência, quem pode estar no pé de vocês?

Salésio Nuhs: Acho que quem tem que estar preocupado com a concorrência são os nossos concorrentes. Nós preparamos a empresa para este momento.

E-Investidor: A bolsa de valores está em um momento de liquidez alta, com muita procura de investidores. A Taurus pretende fazer nova oferta de ações?

Salésio Nuhs: Neste assunto, não tem nenhuma previsão, a não ser o plano de subscrição que está em plena operação. Já foram três lotes de ações, e nós temos dois lotes ainda pela frente para serem subscritos até o final do ano que vem.

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