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Negócios

Adeus aos bancos? Veja os efeitos da crise no setor financeiro dos EUA

O governo dos EUA tem se esforçado para garantir aos depositantes que as contas bancárias estão seguras

Por Abha Bhattarai, WP BLOOMBERG

29/03/2023 | 18:04 Atualização: 29/03/2023 | 18:04

Uma porta trancada para o Silicon Valley Bank (SVB) na Sand Hill Road é vista em Menlo Park, Califórnia, EUA, em 10 de março de 2023. Foto: REUTERS/Jeffrey Dastin
Uma porta trancada para o Silicon Valley Bank (SVB) na Sand Hill Road é vista em Menlo Park, Califórnia, EUA, em 10 de março de 2023. Foto: REUTERS/Jeffrey Dastin

Dan Ushman ainda não tem certeza sobre onde vai acabar guardando o dinheiro de sua empresa. Mas tem pensado muito sobre isso nos últimos dias.

Leia mais:
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O fundador de startup recentemente transferiu suas economias do Silicon Valley Bank – cuja falência espetacular este mês provocou estremecimentos em todo o setor financeiro – para contas no Bank of America e no Chase enquanto avalia os próximos passos – contas em corretoras, talvez, ou fundos do mercado monetário, fundos garantidos pelo Tesouro ou certificados de depósito bancário.

Segundo ele, o objetivo é simples: reduzir o risco e, ao mesmo tempo, maximizar os juros.

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“A falência tão rápida do SVB nos fez parar e refletir bastante”, disse Ushman, 38 anos, fundador de uma empresa de software em Chicago. “Estamos pensando muito em como distribuir nosso dinheiro. Queremos rendimentos maiores e segurança. No entanto, a questão das poupanças empresariais é que elas são poupanças até que você precise delas, então não queremos aplicar em nada a longo prazo.”

Por todo o país, milhões de americanos estão fazendo cálculos semelhantes, tentando descobrir qual a melhor forma de alocar seu dinheiro após a implosão de dois bancos dos Estados Unidos e a aquisição de emergência do gigante bancário europeu Credit Suisse há alguns dias, o que desencadeou temores de uma crise financeira global.

Até agora, a crise não parece ter chegado, e o governo tem se esforçado bastante para garantir aos depositantes que as contas bancárias estão seguras. Mas isso não impediu as pessoas de transferirem seu dinheiro para outros lugares. Os americanos estão transferindo centenas de bilhões de dólares dos bancos – principalmente dos bancos menores e regionais – para instituições maiores, assim como para fundos do mercado monetário, títulos do governo, contas de poupança on-line de alto rendimento, investindo até mesmo em criptomoedas e ouro.

Nas duas semanas seguintes à derrocada dramática do SVB, os investimentos em fundos do mercado monetário, um tipo de fundo mútuo focado em títulos de baixo risco, aumentaram em aproximadamente US$ 240 bilhões, de acordo com o Investment Company Institute.

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Os rendimentos dos títulos do Tesouro com vencimento de dois anos caíram 24% como consequência do aumento da demanda. Os fundos do mercado monetário não são assegurados pelo governo da mesma forma que as contas bancárias com até US$ 250 mil são. Porém, mesmo os investimentos mais arriscados também estão prosperando: os preços do Bitcoin aumentaram 40% e o ouro subiu cerca de 10%.

No geral, cerca de US$ 550 bilhões em depósitos foram transferidos de bancos menores e regionais para bancos maiores e fundos do mercado monetário nas últimas duas semanas, de acordo com uma análise do JPMorgan.

“A agitação nos mercados sempre faz o dinheiro ser movimentado”, disse Danielle Lucht, consultora financeira em Cape Coral, na Flórida, que está recebendo o dobro de telefonemas de clientes em comparação há algumas semanas. “A maior preocupação neste momento é: meu dinheiro está seguro? Como posso deixá-lo ainda mais protegido? As pessoas que têm dinheiro em contas de poupança simples estão vendo esse momento como uma oportunidade para movimentar seu dinheiro.”

Cerca de 12% dos americanos dizem ter sacado seu dinheiro do banco “por causa da falência do Silicon Valley Bank”, e 18% afirmam estar considerando fazer isso, de acordo com uma pesquisa YouGov/Yahoo News divulgada terça-feira. (Entretanto, também vale a pena observar que a maioria das pessoas (55%) disse estar convencida de que o sistema bancário é seguro.)

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A mudança recente tem como base uma tendência iniciada há um ano, quando o Federal Reserve começou a elevar as taxas de juros depois de passar anos mantendo-a perto de zero. De repente, as contas bancárias convencionais – que pagam muito pouco, quando pagam, algum juro – se tornaram bem menos interessantes que outros investimentos oferecendo retornos maiores.

Esse movimento constante de transferência das contas bancárias ganhou vida própria este mês, depois que os temores de falências bancárias levaram os clientes do SVB e do Signature Bank de Nova York a sacar bilhões de dólares em dinheiro em poucas horas. O resultado foi uma corrida aos bancos que desencadeou a falência de ambas as instituições.

O Federal Reserve e outros reguladores foram rápidos ao intervir com medidas de emergência destinadas a deter corridas semelhantes a outros bancos. Mas o pânico persiste: nesta semana, as ações do PacWest Bancorp, uma instituição regional da Califórnia, despencaram 17% depois de o banco dizer que perdeu 20% de seus depósitos este ano. Economistas dizem que a falta de confiança nas ações da empresa pode acabar se tornando autovalidada se levar os clientes a sacar seu dinheiro, deixando o banco numa situação ainda pior.

No First Republic Bank, nem mesmo um pacote de resgate de US$ 30 bilhões dos maiores bancos do país foi suficiente para impedir que as pessoas retirassem seu dinheiro. Ao todo, os clientes sacaram cerca de US$ 70 bilhões nas últimas semanas, ou aproximadamente 40% dos depósitos do banco, segundo o informado pelo Wall Street Journal esta semana.

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“As pessoas estão olhando em volta e dizendo: ‘Realmente não quero ficar sem seguro’”, disse Itamar Drechsler, professor de finanças da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia. “Elas estão comprando títulos do governo e indo para bancos maiores em detrimento dos bancos regionais.”

O governo federal assegura os depósitos de até US$ 250 mil em qualquer conta bancária, embora estejam surgindo dúvidas quanto a se ele deveria aumentar o teto ou ampliar a proteção para todos os depósitos como fez com o SVB e o Signature Bank de Nova York este mês. A secretária do Tesouro, Janet L. Yellen, se esforçou para lidar com as consequências das observações de quarta-feira sobre até que ponto o governo federal poderia assegurar depósitos acima do limite em outros bancos se eles falissem; os mercados caíram depois que ela falou, e mais tarde Janet mudou seu posicionamento para enfatizar que o governo tem “ferramentas que poderíamos usar novamente” e estaria “preparado para tomar medidas adicionais, se fosse necessário”.

De qualquer modo, o pânico recente foi suficiente para assustar aqueles com grandes somas guardadas em contas bancárias tradicionais. Brenton Wickam, 53 anos, investidor imobiliário comercial no Vale do Silício, não pensou duas vezes antes de manter suas economias pessoais em uma única conta bancária – até bem pouco tempo.

Quando o SVB faliu, Wickam começou a receber uma enxurrada de mensagens de texto, todas dizendo a mesma coisa: “O First Republic é o próximo”. Aquilo era preocupante de um modo particular para Wickam, pois ele tinha conta naquele banco há anos.

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Na semana passada, ele foi até uma agência para começar a transferir suas economias para contas novas, em parcelas de US$ 250 mil para que fossem asseguradas pelo governo. O dinheiro restante ele levou para o Wells Fargo, embora planeje investi-lo no mercado financeiro ou em títulos do Tesouro.

“Eu me senti como o cara mais idiota do mundo, mantendo todo o meu dinheiro em uma única conta bancária”, disse Wickam. “Acompanho o mercado há algum tempo, vi o que aconteceu em 2000, 2008 e sei como é uma crise financeira – mas eu estava simplesmente sendo preguiçoso.”

O êxodo dos depósitos, sobretudo dos bancos menores, é preocupante principalmente porque poderia ter um efeito inibidor sobre o quanto essas instituições são capazes de emprestar. Quase 70% dos empréstimos para imóveis comerciais, por exemplo, vêm de bancos de pequeno e médio porte, de acordo com os dados do Fed.

“São inúmeras as consequências disso”, afirmou Torsten Slok, economista-chefe da Apollo Global Management. “A verdade é que os bancos se financiam por meio dos depósitos.”

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Segundo ele, uma queda nos depósitos significaria que os bancos têm menos dinheiro disponível para conceder empréstimos. Se alguém fosse atrás de um empréstimo de US$ 40 mil para comprar um carro, por exemplo, e um banco não tivesse o suficiente em depósitos, a instituição precisaria pegar emprestado no mercado atacadista, onde as taxas de juros subiram rapidamente no ano passado. Como consequência, os mutuários poderiam enfrentar taxas de juros maiores e regras mais rígidas, disse Slok.

“Se os bancos de todo o país de repente dissessem: ‘Vamos endurecer as regras para empréstimos para quem gostaria de comprar um carro, ou uma casa, ou conseguir um empréstimo corporativo’ – se eles pararem de emprestar dinheiro, você poderia ter uma parada repentina na economia”, afirmou. “Isso começa a aumentar o risco de uma recessão.”

O presidente do Fed, Jerome H. Powell, rejeitou esse temor esta semana, dizendo que o sistema bancário é “sólido e resiliente”.

“Adotamos ações poderosas com o Tesouro e a FDIC, que demonstram que todas as economias dos depositantes estão protegidas e que o sistema bancário é seguro”, disse Powell em uma coletiva de imprensa recente. “Os fluxos de depósitos no sistema bancário estabilizaram ao longo da última semana.”

Garantias verbais à parte, as intervenções dos reguladores suscitaram mais perguntas do que respostas para muitos americanos. Elas também levaram muitas pessoas a parar e analisar seus hábitos de investimento, já que as taxas de juros estão no nível mais alto em 16 anos.

“O lado positivo desse desastre é que ele fez as pessoas pararem e se perguntar: ‘Meu dinheiro está protegido no banco?’”, disse Rick Salmeron, consultor financeiro em Dallas, que tem visto um aumento de interesse pelas contas de poupança on-line de alto rendimento. “Elas estão percebendo: ‘Uau, tenho todo esse dinheiro rendendo insignificantes 0,01% em juros no banco quando eu poderia estar ganhando 3,5%’.”

Steve Miller, 51 anos, dono de casa, de Orange County, na Califórnia, recentemente transferiu as economias de sua família de um grande banco para uma conta do fundo de investimento Vanguard. Segundo ele, nem foi tanto o pânico com as recentes falências bancárias que motivou a fazer a mudança, mas, sim, a percepção de que poderia estar ganhando com juros muito maiores sobre seu dinheiro. Agora ele está ganhando 4,65% de juros.

“Sempre guardamos nossa reserva financeira parada no banco, mas isso foi um bom gatilho”, afirmou. “Fez com que eu me desse conta de que poderíamos estar ganhando muito mais investindo em títulos do Tesouro.”

– – –

Jeff Stein, do Washington Post, contribuiu com esta reportagem.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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