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UBS: por que o futuro do banco é incerto após compra do Credit Suisse

Aquisição “imposta” pelas autoridades suíças gera dúvidas entre especialistas de mercado

UBS: por que o futuro do banco é incerto após compra do Credit Suisse
Banco UBS (Foto: Reuters/Henry Nicholls)
  • No domingo (19), o maior banco da Suíça, o UBS (UBSG, UBSG34), acertou a compra do Credit Suisse (CSGN, C1SU34) por US$ 3,2 bilhões
  • Contudo, ainda há dúvidas sobre os efeitos da transação para o UBS
  • Entre os riscos apontados pelos especialistas, está a possibilidade de os acionistas do UBS entrarem com processos na justiça para barrar a aquisição

No domingo (19), o maior banco da Suíça, o UBS (UBSG, UBSG34), acertou a compra do Credit Suisse (CSGN, C1SU34) por US$ 3,2 bilhões. A transação inclui uma proteção de US$ 27 bilhões contra perdas derivadas da operação e uma assistência de liquidez de US$ 108 bilhões, garantida pelo banco central suíço. A movimentação não está sujeita à aprovação dos acionistas do UBS, cujo direito a voto foi suprimido. Conheça a história do UBS e do Credit Suisse.

Isto porque a aquisição foi arquitetada pela autoridade monetária suíça em uma tentativa de realizar um resgate de emergência ao Credit Suisse. O banco de investimentos de mais de 160 anos chegou ao ponto final após reconhecer “fragilidades materiais” nos relatórios financeiros dos últimos dois anos. A informação foi divulgada na última quarta (14).

Na quinta (15), o principal acionista do Credit Suisse, o Saudi National Bank, afirmou à Reuters que não aportaria mais capital na instituição financeira por questões regulatórias. De lá para cá (15 a 20 de março), as ações do Credit Suisse (CSGN) desabaram 63,39%, enquanto os BDRs (C1SU34) caíram 41,9%.

Casamento arranjado

A união para evitar que a quebra do banco causasse uma crise financeira sistêmica no país foi feita às pressas, mas cria um negócio superior a US$ 5 trilhões em ativos totais investidos, consolidando o UBS como principal banco da Suíça. Contudo, ainda há dúvidas sobre os efeitos da transação para o UBS.

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“O governo forçou a compra e isso ficou muito claro. É socorro financeiro disfarçado de aquisição”, afirma Marcelo Cabral, CEO da Stratton Capital. “Os acionistas não tiveram direito de se manifestar, então o direito deles foi ignorado. Há também uma série de dúvidas a respeito da possibilidade de o UBS fazer uma integração efetiva de cultura empresarial e negócios. Provavelmente, há uma duplicação grande na base de clientes e não há visão sobre sinergias.”

Entre os riscos apontados pelos especialistas, está a possibilidade de os acionistas do UBS entrarem com processos na justiça para barrar a aquisição.

Essas incertezas ficaram claras na dinâmica de mercado. Após o anúncio da aquisição, os papéis do UBS no exterior (UBSG) chegaram a cair 16% na abertura do pregão de segunda (20), mas as ações inverteram o sinal e terminaram o dia em alta de 1,2%.

Para Cabral, a explicação para a reviravolta do papel está nas garantias das autoridades suíças, como o capital disponível para compensar possíveis perdas. Ainda assim, no curto prazo, o UBS não deve conseguir analisar tudo o que consta no balanço do Credit Suisse, que vinha em uma espiral negativa há alguns anos.

No ano passado, o Credit reportou prejuízo de US$ 7,8 bilhões (7,3 bilhões de francos suíços), com saques que chegaram aos US$ 132,64 (110,5 bilhões de francos suíços). Em 2021, o resultado negativo foi de US$ 1,7 bilhão (1,6 bilhão de francos suíços), com aportes líquidos de US$ 33,2 bilhões (30,9 bilhões de francos suíços).

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“Na área de divisão de gestão de recursos, o banco registrou perdas muito importantes. Também teve dificuldades na área de banco de investimentos, com prejuízos e custos excessivos”, afirma Cabral. “Eles estavam perdendo recursos, sofrendo saques, e anunciaram que iriam demitir 9 mil funcionários no mundo. O negócio do banco estava se deteriorando.”

A demissão de 9 mil funcionários até 2025 estava no plano de reestruturação do Credit Suisse, o que deve continuar a ser seguido mesmo após a fusão. Por estas sinalizações, tidas como negativas, Cabral não vê as ações ou BDRs do UBS como oportunidade, uma vez que o gigante financeiro pode não conseguir estancar a sangria da instituição incorporada.

William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities, acredita que a aquisição quase imposta ao UBS foi um mal necessário para manter a confiabilidade do sistema financeiro suíço e evitar uma contaminação global. “Vai levar um tempo para o UBS digerir, porque é uma aquisição relevante de uma operação em larga escala. O Credit Suisse tinha atuação no mundo inteiro, então não será do dia para noite que ela será assimilada”, afirma Alves. “Com certeza veremos demissões por conta de sobreposição de cargos.”

Fora as questões técnicas, recompor a credibilidade do Credit Suisse será um dos principais desafios para o UBS. Alves reforça que o investidor que decidir comprar a ação agora estará apostando que o banco suíço conseguirá recuperar o Credit e não haverá surpresas no caminho.

“Será difícil analisar o UBS sob métricas tradicionais, como rentabilidade sobre o patrimônio, por exemplo. O banco cresce demais com essa aquisição e vai virar um outro ‘bicho’. Agora, a preocupação deles será não perder mais ativos, como estava ocorrendo com o Credit Suisse nos últimos anos”, diz Alves.

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Na outra ponta, Flávio Conde, analista da Levante Ideias de Investimentos, vê a movimentação como positiva para o UBS – principalmente em função das garantias dadas pelo banco central suíço. Entre os principais pontos em favor da operação, está o ganho de capilaridade. O Credit Suisse tinha unidades em mais de 50 países, que agora serão do UBS.

Vale lembrar que antes mesmo dessa aquisição, o UBS já era a maior instituição financeira da Suíça. O banco que atua nos segmentos de gestão de patrimônio, serviços bancários para pessoas físicas e jurídicas, gestão de ativos e banco de investimentos, lucrou US$ 7,6 bilhões no ano passado.  Também ocupa a posição 101 entre as maiores empresas do mundo no último ranking Forbes 2000.

“O UBS sai fortalecido, mas vai ter que fazer um trabalho rápido de integração das áreas e evitar que os saques nas áreas de gestão do Credit Suisse continuem acontecendo”, afirma. “Com a fusão, o UBS ganhará uma escala que hoje não tem.”

Procurados, UBS e Credit Suisse optaram por não comentar a aquisição.

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