Falar sobre listagens com os agentes de mercado é trazer à tona temas espinhosos como a pouca proteção ao investidor minoritário, insegurança jurídica e ambiente hostil aos negócios. Todos motivos que incentivam a migração para o mercado americano e estimulam fechamento de capital na Bolsa brasileira. A última companhia a abrir capital na B3 foi a Vittia (VITT3), em setembro de 2021.
Eleições travam decisões em 2026
Para muitos, 2026 vai ser mais um ano sem IPOs por aqui. Os mais confiantes, no entanto, enxergam algumas chances, sendo a mais evidente delas a Aegea Saneamento, que vem se preparando ativamente para isso. A BRK Ambiental também vem se movimentando.
Possíveis aberturas de capital têm prazo. Se não ocorrerem no primeiro semestre, dificilmente acontecerão em 2026, pois as eleições devem tirar o foco de qualquer outro assunto na segunda metade do ano.
“O que deve ajudar em 2026 é o nível da Bolsa”, diz Flávio Conde, analista da Levante Investimentos. Ele observa que o Ibovespa subiu do patamar de 120 mil pontos do início do ano passado para cá. “Agora, a 160 mil pontos, você consegue emitir ações com nível de preço mais alto. O dono da empresa, os controladores, não querem abrir capital num preço que eles acham baixo”, justifica.
Exceção do saneamento e possível IPO da Aegea
Além do preço, Conde avalia que o IPO da Aegea também pode acontecer pelo bom momento que atravessa o setor de saneamento, com forte valorização das companhias abertas como Sabesp (SBSP3), Sanepar (SAPR11) e Copasa (CSMG3). Essa última dobrou de valor nos últimos 12 meses.
Caso o IPO da Aegea seja bem-sucedido, gerando valorização de seus papéis negociados na Bolsa, é possível que novas empresas se animem nos setores mais diversos. De companhias ligadas à inteligência artificial, à Web3 e cibersegurança, passando por saúde e bem-estar, serviços financeiros e logística, que estão sendo beneficiadas pelo e-commerce.
A B3 informou, em dezembro de 2025, que há 54 companhias com documentação organizada para abertura de capital. Para o CEO Gilson Finkelsztain, a janela de IPOs no Brasil dependerá de demanda. “Se tiver fluxo, a janela de IPOs pode ser acessada por essas 54 empresas, começando com IPOs grandes, de setores mais estáveis: utilities, saneamento, energia, infraestrutura, com perspectiva de crescimento e investimento mais claras”, disse o executivo durante o Investor Day da B3 (B3SA3).
O trauma dos IPOs de 2019 a 2021 ainda pesa
O mercado brasileiro vem de um trauma após um boom de IPOs entre 2019 e 2021. Boa parte das empresas que abriram capital naquela época não performaram bem e suas ações viraram “mico” na mão dos investidores, com preços bem abaixo da oferta pública inicial.
A Raizen (RAIZ4) é o caso clássico. Em agosto de 2021 chegou ao mercado ao preço de R$ 7,10, atingiu o pico de R$ 7,37 após algumas semanas e, depois disso, só desvalorizou. Hoje seus papéis são negociados em torno de R$ 0,80 cada um, uma baixa de quase 90%.
Há também episódios traumáticos para o investidor minoritário, frequentemente apontados como a principal explicação para a prolongada seca de IPOs no Brasil. Empresas como Smiles, Kora Saúde, Santos Brasil e Carrefour passaram alguns anos listadas, mas depois fecharam capital.
“O investidor minoritário, que é a esmagadora maioria na Bolsa Brasileira, não tem escolha. Na Assembleia Geral Extraordinária é aprovado o fechamento de capital, uma OPA (oferta pública de aquisição), com voto do pessoal de cima, e o minoritário é diluído ou comprado compulsoriamente, sem poder reclamar que pagou R$ 20 num ação para ficar com R$ 6, R$ 7″, diz Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing.
Para ele, o mercado deveria estar discutindo regras mais rígidas para que as empresas não se utilizem de práticas assim. Abrir capital em momentos favoráveis para, em seguida, fechar na baixa. “Abre-se capital, levanta-se R$ 1 bilhão e depois a empresa fecha por R$ 200 milhões.”
A crise de credibilidade
Luiz Fernando Araújo, gestor da Finacap, argumenta que o mercado de capitais brasileiro passa por uma crise de credibilidade, derivada de uma baixa atuação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). “Do ponto de vista dos minoritários, a CVM praticamente não tem mais atuação, pelo contrário, houve vários casos de decisões muito ruins para o mercado”, critica.
Entre os episódios mais emblemáticos está a absolvição dos executivos da JBS, Joesley e Wesley Batista, em 2023, da acusação de uso de informação privilegiada (insider trading) no evento que ficou conhecido como Joesley Day, que derrubou a Bolsa em 2017.
Numa passagem mais recente, em dezembro, o presidente interino da CVM, Otto Lobo, votou pela absolvição de dois ex-executivos da IRB (IRBR3) por divulgação falsa ao mercado. Esse processo é derivado de um episódio de 2020 em que a IRB divulgou ao mercado que a Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, estaria aumentando sua participação na empresa, uma informação que foi desmentida pela Berkshire posteriormente.
Procurada, a CVM defendeu que “no âmbito de seu mandato legal, zela pela orientação e proteção dos investidores, que podem, sempre que necessário, buscar a autarquia por meio dos canais de atendimento”. Disse ainda que não faz comentários sobre opiniões de terceiros e nem sobre casos específicos. A CVM aponta que os processos mencionados estão disponíveis nos links sobre a JBS e sobre a IRB.
Para Araújo, desde 2015, com a Operação Lava Jato trazendo à tona os casos de corrupção envolvendo a Petrobras (PETR4), a percepção do investidor em ações no Brasil se deteriorou, inclusive a dos investidores internacionais. Fatores macroeconômicos, juros altos e incerteza fiscal têm um peso no longo hiato de IPOs no Brasil, mas não seriam determinantes.
Novo Mercado: lições do passado e o vazio do presente
O cenário atual é parecido com o vivido no final dos anos 1990, relembra o gestor da Finacap. À época, os agentes de mercado, corretoras, Abamec (antiga Apimec) e os executivos da própria Bolsa de Valores, liderados pelo presidente Raymundo Magliano Filho, protocolaram vários projetos de reforma para melhorar o ambiente de negócios.
Esse movimento culminou na criação do Novo Mercado, ambiente da Bolsa que exige padrões de governança corporativa mais alta. A iniciativa também foi fortalecida com a melhoria regulatória e aperfeiçoamento da CVM nos anos 2000.
O caso emblemático de consolidação desse segmento foi o IPO da Natura (NATU3), em 2004, ao combinar governança elevada, alta liquidez e uma história de crescimento que ajudou a legitimar o Novo Mercado junto ao investidor pessoa física e institucional. “Depois disso, outras empresas também a abriram capital, porque foi um ciclo virtuoso gerado pela percepção de que melhorar os padrões de governança beneficiava todo mundo.”
Um novo fortalecimento da CVM poderia trazer melhorias, mas, por enquanto, a pressão de lobbies sobre as agências e congressistas dificultam uma tomada de decisão que impulsionou o mercado nos anos 2000. “Hoje não vejo nem mesmo uma mobilização dos agentes para atacar esses problemas”.
Nova onda de IPOs fora do Brasil?
Essa inércia coincide com a maior facilidade de se investir fora do Brasil. No pós-pandemia, empresas brasileiras iniciaram uma onda de abertura de capital nas Bolsas de Wall Street, em Nova York.
Grandes companhias nacionais, como a própria JBS (JBSS32) dos irmãos Batista (assim como o PicPay), o Nubank (ROXO34) ou o Banco Inter (INBR32) foram embora para os EUA, um mercado com muito mais liquidez e que também está próximo do investidor brasileiro através de BDRs (Brazilian Depositary Receipts) ou comprando diretamente os papéis em dólar, com a vantagem de proteger parte do patrimônio em moeda forte das incertezas brasileiras.
“Não vejo nenhuma vantagem em nós estarmos abrindo [capital] mais por aqui, comprando Bolsa brasileira neste cenário”, diz Sant’Anna. Para ele, o movimento de internacionalização tende a se intensificar, como começam a confirmar as últimas notícias. “O mercado americano é um oásis de liquidez, de novas possibilidades e ainda está muito barato tirar a empresa do Brasil.”