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Educação Financeira

Entenda o que foi o Joesley Day e seu impacto no mercado financeiro

Gravação de conversa entre Joesley Batista, da JBS, com o presidente Michel Temer desencadeou crise política e financeira

Por Janize Colaço

10/07/2024 | 15:03 Atualização: 10/07/2024 | 15:14

Joesley Batista. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Joesley Batista. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em 2017, o mercado financeiro vivenciou um dos episódios mais marcantes (e tumultuados) da sua história. A gravação de uma conversa entre o então presidente da República, Michel Temer, com o empresário da JBS (JBSS3), Joesley Batista, desencadeou uma crise política e econômica, que derrubou a Bolsa em mais de 10% e teve as suas negociações interrompidas. Não por acaso, aquela quarta-feira de 17 de maio ficou conhecida como o “Joesley Day“.

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Na ocasião, Temer estava à frente do Executivo havia menos de um ano . Depois do impeachment de Dilma Rousseff, em agosto de 2016, o presidente interino tentava avançar algumas pautas importantes dentro da sua agenda. Ele já havia conseguido aprovar no Congresso o teto de gastos, a reforma trabalhista e avançava com a reforma da previdência. No entanto, a gravação comprometedora de Joesley Batista mudou o foco político daquele ano.

Na conversa, divulgada pelo O Globo, o mandatário dava o seu aval para que Batista comprasse o silêncio do ex-presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha. O empresário da JBS havia se reunido com Temer no Palácio do Jaburu e gravou a conversa. Em dado momento da gravação, o empresário sinaliza que estava “de bem com o Eduardo [Cunha]”, ao que o presidente da República responde: “Tem que manter isso, viu?”.

A gravação e a crise política

Algumas semanas antes de as conversas irem à tona na noite de 17 de maio, Joesley e seu irmão Wesley Batista, junto a uma equipe da JBS, entregaram as gravações ao Supremo Tribunal Federal (STF), nas mãos do ministro Edson Fachin. Algumas semanas antes, a dupla já havia feito uma delação à Procuradoria-Geral da República (PGR) por livre e espontânea vontade.

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Nas gravações, o presidente Michel Temer teria indicado que o empresário precisava manter a “mesada” dada a Eduardo Campos e ao operador financeiro Lúcio Funaro para que continuassem calados nas investigações da Operação Lava Jato. Na delação, Joesley revelou que chegou a desembolsar R$ 5 milhões para Cunha após sua prisão.

Além do ex-presidente da Câmara dos Deputados, outros nomes políticos foram citados nas gravações. Temer também teria indicado a Batista o nome do deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) para resolver um assunto da J&F (holding que controla a JBS). Para completar o escândalo, Loures foi flagrado depois pela Polícia Federal recebendo uma mala com R$ 500 mil enviada por Joesley.

Outro nome exposto nas gravações foi o deputado Aécio Neves (PSDB-MG), na época senador e presidente do partido. Em uma conversa de aproximadamente 30 minutos, o político mineiro pediu R$ 2 milhões ao empresário com a justificativa de que o valor seria usado para a sua defesa na Lava Jato. A quantia foi levada pelo então diretor da JBS, Ricardo Saud, e entregue ao primo de Aécio, Frederico Pacheco de Medeiros, que já foi diretor da Companhia Energética de Minas Gerais, a Cemig (CMIG4).

Foi revelado também que Joesley mantinha conversas com Guido Mantega, ex-ministro e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nos governos Lula e Dilma. Seria Mantega o contato dos Batistas com o Partido dos Trabalhadores (PT) para a negociação de propinas, além de operar interesses da JBS no BNDES.

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Com as gravações, o ministro Edson Fachin deu abertura ao inquérito contra Temer. Os rumores davam conta de que ele poderia se tornar o terceiro presidente da República a passar pelo impeachment no Brasil. Os estragos políticos já tinham se espalhado e chegado a outros campos, como o econômico e, principalmente, o mercado financeiro.

Joesley Day e o circuit breaker

Na manhã da quinta-feira, 18 de maio, a reação do mercado financeiro foi imediata e intensa ao Joesley Day. A Bolsa de Valores abriu em queda acentuada, com o Ibovespa despencando 10,47%.

Por isso, foi acionado o “circuit breaker”, mecanismo que interrompe as negociações por 30 minutos para evitar maiores danos e permitir que os investidores reavaliem a situação. Foi a primeira vez, desde a crise financeira de 2008, que isso acontecia e demonstrava a gravidade da situação. Estatais como Petrobras (PETR4) e Banco do Brasil (BBAS3) viram suas ações caírem drasticamente.

Mas o impacto do Joesley Day não se limitou ao mercado de ações. Também naquele dia, o dólar disparou em relação ao real, chegando a ser negociado a R$ 3,40, uma alta de quase 8% em um único dia. E mais: os investidores estrangeiros começaram a fugir em debandada, aumentando ainda mais a pressão sobre o câmbio.

A volatilidade tomou conta do mercado, e a incerteza política transformou-se em econômica, com previsões de crescimento revisadas para baixo. O risco país, medido pelo Credit Default Swap (CDS), considerado um termômetro de confiança do mercado, disparou 29%.

O que veio depois do Joesley Day

Politicamente, o Joesley Day intensificou a pressão sobre Michel Temer, que já enfrentava desafios para continuar as suas reformas econômicas. Embora a crise tenha abalado a confiança no governo, Temer conseguiu escapar do impeachment. Porém, em 2019, ele chegou a ser preso durante a operação Lava Jato.

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Por outro lado, Joesley não teve tanta sorte. Ainda em 2017, em setembro, ele e seu irmão Wesley foram presos e ficaram detidos por alguns meses. Além de propina e corrupção, eles também foram acusados de manipulação de mercado e fraude financeira.

Segundo a PGR, sabendo do que ocorreria quando a delação fosse divulgada, os Batistas, por meio da JBS e da FB Participações, compraram dólares cujo montante foi de US$ 1 bilhão. E mais: um mês antes eles venderam R$ 327 milhões em ações da JBS. Isso tudo enquanto o acordo com as autoridades era negociado.

De volta à cena

Agora, sete anos depois de todo o escândalo do Joesley Day, os irmãos Batista estão de volta à cena. Como revela o Estadão, os executivos da Âmbar Energia, empresa do Grupo J&F, foram recebidos 17 vezes no Ministério de Minas e Energia fora da agenda oficial.

Esses encontros ocorreram antes da edição da medida provisória que beneficiou um negócio da companhia na área de energia elétrica — cujo custeio foi repassado aos consumidores. O ministério e a Âmbar afirmam que não trataram da medida provisória nas conversas, mas não informam o conteúdo dos encontros.

Vale mencionar que, no final de maio, Joesley Batista e seu irmão se reuniram oficialmente com o presidente Lula, em Brasília. Segundo eles, o assunto do encontro era referente a doações para vítimas do Rio Grande do Sul.

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