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Investimentos

BB (BBAS3) projeta ano de transição e indica ROE de até 13%, distante dos concorrentes: “Impossível mais que isso”

Presidente Tarciana Medeiros admite 1T26 “mais apertado” com impacto do agro, mas prevê melhora no ano; banco projeta lucro até R$ 26 bi e payout de 30%

Por Isabela Ortiz

12/02/2026 | 14:23 Atualização: 12/02/2026 | 16:24

BB projeta 2026 ainda pressionado pelo crédito rural e descarta dividendos extraordinários no curto prazo. (Foto: Adobe Stock)
BB projeta 2026 ainda pressionado pelo crédito rural e descarta dividendos extraordinários no curto prazo. (Foto: Adobe Stock)

Mesmo com lucro 36% acima do consenso no quarto trimestre (4T25), o Banco do Brasil (BBAS3) deixou claro que 2026 começa sob pressão. Nesta quinta-feira (12), durante coletiva com a diretoria da empresa, a presidente Tarciana Medeiros admitiu que o primeiro trimestre será “mais apertado”, porque ainda concentra operações do ciclo anterior do agro, contratadas antes da implementação dos novos modelos de mitigação de risco. Ela explicou que a inadimplência rural ainda terá impacto no início do ano e que a inflexão mais consistente deve ocorrer apenas ao longo do segundo semestre. O banco projeta retorno sobre o patrimônio (ROE) entre 10% e 13%, distante dos mais de 20% entregues por pares privados, e reconhece que não é possível, neste momento, entregar ROE acima desse valor.

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Tarciana Medeiros, presidente do Banco do Brasil (BBAS3), durante coletiva fechada para a imprensa. (Foto: Nilton Fukuda)
Tarciana Medeiros, presidente do Banco do Brasil (BBAS3), durante coletiva fechada para a imprensa. (Foto: Nilton Fukuda)

Ao mesmo tempo, descarta dividendos extraordinários no curto prazo e mantém payout (porcentagem de lucro líquido distribuído aos acionistas) de 30%, priorizando a “sustentabilidade dos resultados”, como explicou a diretoria.

Na frente comercial, aposta no crescimento do consignado, quer alcançar 20% de participação no consignado, inclusive 20% no consignado privado em 2026, e reforça a estratégia de avançar em segmentos de alto valor.

O Banco do Brasil encerrou o quarto trimestre de 2025 com lucro líquido ajustado de R$ 5,7 bilhões, número que superou com folga as estimativas do mercado, mas que não foi suficiente para dissipar dúvidas sobre a qualidade do resultado e os desafios para 2026. Na comparação anual, o lucro caiu 40,1%, enquanto frente ao terceiro trimestre houve avanço de 51,7%.

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O desempenho do BB no 4T25 ficou entre 36% e 40% acima do consenso, impulsionado principalmente por uma alíquota efetiva positiva de imposto, fator que ajudou a compensar um resultado operacional mais fraco.

O lucro antes dos impostos somou R$ 4,77 bilhões, com queda expressiva em relação ao mesmo período do ano anterior e abaixo das estimativas de analistas. Esse dado reforçou a percepção de que o resultado final foi fortemente beneficiado por efeitos fiscais e não por melhora estrutural do negócio.

A própria administração reconheceu que o ambiente segue desafiador, especialmente no crédito rural, e reforçou que 2025 foi um ano atípico para o agronegócio. Segundo a presidente, a inadimplência do agro cresceu cerca de 500% em relação à média histórica observada pelo banco.

A inadimplência acima de 90 dias atingiu 5,17% no consolidado e 6,09% na carteira de agronegócio, com piora relevante no trimestre. As provisões para créditos de liquidação duvidosa somaram R$ 19 bilhões no período, alta de 87% na comparação anual.

Crédito pressionado e agro ainda no centro da preocupação

O vice-presidente de Agronegócios, Gilson Bittencourt, explicou que parte da deterioração ainda está ligada a operações da safra anterior, contratadas sob metodologia antiga de concessão. Segundo ele, a maior parte das operações de custeio tem ciclo de 7 a 11 meses e o banco alterou a metodologia apenas a partir do início do Plano Safra 2025/2026.

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“No caso do agro, as operações de custeio têm prazo de 7 a 11 meses. Ainda temos operações feitas na safra anterior com a tecnologia antiga. No primeiro trimestre, ainda haverá impacto”, explica Bittencourt.

Ele afirmou que a inadimplência do BB ainda ficará pressionada no começo do ano, começará a ceder no segundo trimestre e deve apresentar queda mais expressiva no segundo semestre.

“Com a nova tecnologia e a nova métrica de concessão, veremos inadimplência elevada no primeiro trimestre. A partir do segundo trimestre começará a cair, mas somente no segundo semestre a queda será mais agressiva”, afirma.

Medeiros reforçou que os modelos de mitigação de risco não estavam plenamente implementados quando parte da carteira problemática foi formada.

“Ainda não tínhamos implementado as políticas de mitigação de risco, por isso neste primeiro trimestre teremos um índice mais apertado”, confirmou a presidente.

Ela afirmou que, com a nova matriz de resiliência, o banco espera acomodação da curva a partir do segundo trimestre e início de inflexão ao longo do ano.

Benefício fiscal e renegociações relevantes no crédito rural

Parte do alívio no trimestre veio da utilização de créditos tributários e dos efeitos da Medida Provisória 1.314, que permitiu renegociações relevantes no crédito rural.

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O vice-presidente de Controles Internos e Gestão de Riscos, Felipe Prince, detalhou a mecânica.

“Para cada real desembolsado, é permitido utilizar a nossa base de crédito tributário de diferenças temporárias, oriundas de provisões de crédito”, esclarece.

Ele explicou que o limitador não é legal, mas sim o tamanho da base de créditos tributários disponível.

“Não há saldo de crédito tributário nesse montante, estamos falando de algo em torno de R$ 25 bilhões”, acrescenta Prince. Esse mecanismo ajudou a sustentar os índices de capital no trimestre.

BB, FGC e os R$ 5 bi antecipados

Outro tema comentado na entrevista foi a recapitalização do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O vice-presidente financeiro, Geovanne Tobias, informou que o Banco do Brasil antecipará cinco anos de contribuição, o que representa cerca de R$ 5 bilhões, além de pagar uma contribuição extraordinária adicional equivalente a aproximadamente R$ 450 milhões a R$ 500 milhões por ano.

“Sendo um percentual sobre o volume de depósitos cobertos, haverá aumento de cerca de R$ 450 milhões por ano nas despesas financeiras”, comentou Tobias.

Ele explicou que a antecipação tem efeito patrimonial imediato, com saída de caixa da tesouraria para o FGC, enquanto a contribuição extraordinária aumenta a despesa financeira recorrente.

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Mais do que um impacto pontual no resultado, a medida reflete o momento vivido pelo sistema financeiro. Nesse contexto, Tobias afirmou que “2025 não deixa de ser o ‘episódio do Master‘”, em referência às discussões recentes envolvendo o FGC e o caso Master.

A presidente comparou o fundo a um condomínio e reforçou que ele “não é argumento de venda [de ativos]“. Segundo ela, todos os bancos precisam contribuir para manter o sistema sólido e o FGC não deve ser usado como instrumento comercial.

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Ela ressaltou que todos os bancos precisam contribuir para manter o sistema sólido e que o fundo não deve ser usado como instrumento comercial.

Tarciana Medeiros, presidente do BB, comenta sobre o FGC ser um "condomínio fechado" durante coletiva (Foto: Nilton Fukuda)
Tarciana Medeiros, presidente do BB, comenta sobre o FGC ser um “condomínio fechado” durante coletiva (Foto: Nilton Fukuda)

Guidance 2026: crescimento gradual e ROE ainda distante do passado

Para 2026, o guidance (projeção) prevê lucro líquido ajustado entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões, crescimento de 6% a 26% sobre 2025. No ponto médio, o retorno sobre o patrimônio ficaria próximo de 12%.

Tarciana Medeiros, presidente, afirmou que o intervalo apresentado é responsável e compatível com a trajetória de transparência adotada pelo banco.

“Conheço poucas empresas no País que demonstram a robustez do balanço que entregamos em 2025. Viemos de dois anos de recordes históricos. 2025 foi desafiador, especialmente no agro”, defende.

Ela destacou que a distribuição do resultado ao longo do ano dependerá de múltiplos fatores macroeconômicos e do ritmo de recuperação da carteira.

Geovanne Tobias foi direto e explicou que “seria impossível entregar ROE acima de 20% aos acionistas neste momento; buscamos algo entre 10% e 13%”.

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Para 2026, a expectativa é de caminhar para próximo de “mid-teens” (algo entre 14% e 16%), dependendo da recuperação dos agricultores que alongaram dívidas, da eficiência na cobrança e da estabilização das recuperações judiciais no setor. “Esperar algo em torno de mid-teens parece o ideal”, explica.

O contraste com concorrentes privados é evidente: o Itaú entregou ROE de 24,4% no trimestre e BTG, de 27,6%.

Estratégia comercial: consignado, garantias e cliente de alto valor

Na frente comercial, o banco aposta na readequação do mix da carteira de pessoa física para recompor margem com menor risco. A diretoria afirma ter uma estratégia de readequação, reforçando uma capacidade histórica do BB de crescimento do crédito consignado.

A administração acredita que o aumento salarial dos servidores públicos amplia a margem disponível e favorece a renovação de operações já existentes. A meta é de alcançar 20% de participação nesse mercado em 2026, inclusive no consignado privado lançado em 2025.

No crédito não consignado, o foco será em clientes com relacionamento de longo prazo e histórico conhecido de adimplência, além da expansão de linhas com garantia, como imóveis, previdência privada e investimentos.

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“Há mais de R$ 500 bilhões em saldo em previdência, e queremos crescer nas concessões com garantia de previdência”, afirma Tobias.

No segmento de alta renda, a estratégia é de ampliar principalidade e relacionamento. A administração enfatizou que não se trata apenas de focar em renda elevada, mas em públicos de alto valor estratégico.

“O nome do jogo hoje é manter o cliente conosco e garantir uma experiência encantadora”, afirma Carla Nesi, vice-presidente de negócios de varejo.

Entre as iniciativas anunciadas em primeira mão à coletiva, estão a nova sala VIP no Terminal 3 de Guarulhos, com operação prevista a partir de maio, além de unidade em Brasília para clientes Cartão Estilo, expansão da estrutura de atendimento ao private, aumento do número de escritórios e reforço da assessoria de investimentos.

Dividendos: payout de 30% e cautela com extraordinários

O BB anunciou a distribuição de R$ 1.234.746.707,80 em juros sobre capital próprio referentes ao quarto trimestre de 2025. O pagamento será realizado em 5 de março, com base na posição acionária de 23 de fevereiro. As ações passam a ser negociadas “ex-direitos” a partir de 24 de fevereiro. O valor bruto por ação corresponde a R$ 0,21630429188.

Para 2026, o conselho já aprovou payout de 30%, a ser distribuído via JCP ou dividendos.

Apesar do lucro acima do esperado, a administração descartou dividendos extraordinários no curto prazo. No momento, a maior preocupação é assegurar a sustentabilidade dos resultados. O grupo afirma que ainda precisam olhar de maneira cautelosa os impactos do agronegócio

Segundo Tobias, embora o capital esteja confortável para os próximos três anos, é prematuro falar em proventos adicionais além do payout de 30%. Qualquer discussão sobre dividendos extraordinários dependerá da consolidação da recuperação da rentabilidade.

A coletiva deixa a sensação de que o quarto trimestre representou um ponto de estabilização, mas não ainda uma virada definitiva. O lucro veio acima do esperado, porém sustentado por efeitos fiscais e medidas pontuais.

A inadimplência do agro segue como principal risco de curto prazo, com melhora projetada apenas ao longo do segundo semestre. A rentabilidade permanece abaixo dos grandes bancos privados, e o guidance indica recuperação gradual. O mercado agora avaliará se a disciplina de execução e a estratégia apresentada serão suficientes para reconduzir o Banco do Brasil a patamares mais elevados de ROE nos próximos ciclos.

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