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Dólar acima de R$ 5,70: Quem ganha e quem perde com disparada do câmbio?

Câmbio perdeu força após chegar a R$ 5,75 pela manhã e encerrou o pregão desta sexta-feira a R$ 5,7092, queda de 0,45%

Por Murilo Melo

02/08/2024 | 13:36 Atualização: 03/08/2024 | 7:53

Foto: Envato Elements
Foto: Envato Elements

A alta do dólar, que passou recentemente de R$ 5,40 para R$ 5,73, até esta sexta-feira (2), no maior patamar desde dezembro de 2021, é resultado de uma combinação de fatores internos e externos que têm gerado preocupações tanto no mercado local quanto no internacional, afirmam especialistas do setor financeiro. Nesta sexta-feira pela manhã, a moeda americana disparou frente ao real, esteve cotada a R$ 5,75 e, em sua máxima, foi comercializada a R$ 5,78. No fechamento, o câmbio perdeu força: o dólar encerrou o pregão cotado a R$ 5,7092 , queda de 0,45%, mas longe de estar abaixo dos valores registrados nas semanas anteriores.

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Segundo o superintendente da tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, um dos principais impulsionadores dessa valorização foi a divulgação de dados econômicos mais fracos nos Estados Unidos. O relatório de emprego (Payroll) veio bem abaixo das expectativas, indicando uma possível desaceleração econômica maior do que o esperado.

Os números apresentados pelo Departamento de Trabalho apontam que a economia adicionou 114 mil novos postos no mês passado e a taxa de desemprego aumentou para 4,3%, o maior nível desde outubro de 2021. Analistas esperavam abertura de 175 mil postos de trabalho e manutenção da taxa de desemprego em 4,1%. No mês anterior, 179 mil vagas foram abertas, em dado revisado para baixo. “Esse cenário aumentou a aversão ao risco, afetando também o real e outras moedas de países emergentes”, diz. Com isso, conforme ele, a valorização do dólar beneficia os exportadores locais, mas prejudica os importadores e pode gerar pressão inflacionária.

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O diretor de câmbio da Ourominas, Elson Gusmão, afirma que a alta do dólar à vista foi por aqui influenciada pela incerteza fiscal do Brasil, que, diz ele, é marcada pela falta de compromisso do governo com o corte de gastos e o cumprimento da meta de déficit zero, motivo que tem preocupado o mercado. “Além disso, a manutenção da taxa Selic em 10,5% ao ano sugere cautela na política monetária devido à situação fiscal. Não foram dados sinais sobre futuros ajustes na taxa”, analisa.

Externamente, a escalada do conflito no Oriente Médio, explica Gusmão, aumentou a aversão ao risco, beneficiando o dólar. A economia chinesa também contribuiu para o cenário de incerteza, com a queda do índice de gerentes de compras (PMI) industrial para abaixo de 50, indicando contração e preocupando os mercados globais. Nos Estados Unidos, além dos fracos dados de emprego mencionados por Weigt, outras informações econômicas, como os índices de gerentes de compras e os pedidos de seguro-desemprego, têm apontado sinais de fraqueza na economia.

Consequências do dólar alto: exportadoras são as mais beneficiadas; varejistas são as que mais sofrem

A recente alta do câmbio tem gerado impactos nas bolsas de valores e em diversos setores da economia brasileira. A analista de renda variável da Rico, Bruna Sene, aponta que as empresas exportadoras são as mais beneficiadas nesse cenário. Companhias como Klabin e Suzano, do setor de papel e celulose, se destacam devido à exposição ao mercado internacional e à cotação da celulose em dólar. Com a valorização da moeda norte-americana, essas empresas tendem a registrar um aumento nas receitas provenientes das exportações.

Outros setores que se beneficiam da alta do dólar incluem proteínas e mineração. Empresas como JBS, CSN Mineração, Gerdau e Vale, que têm uma parte significativa de suas receitas advindas de exportações, segundo ela, também veem vantagens. A Vale, uma das maiores exportadoras do Brasil, é especialmente favorecida, porque vende minério de ferro no mercado internacional enquanto seus custos são em reais, o que melhora sua margem de lucro com a valorização do dólar.

Por outro lado, companhias com dívidas em dólar e aquelas dependentes do consumo interno enfrentam desafios. “Isso inclui, por exemplo, companhias do setor aéreo, como a Gol (GOLL4) ou a Azul (AZUL4), cujos custos, especialmente os combustíveis, estão atrelados ao dólar. Além disso, outras empresas voltadas para o consumo doméstico, como as lojas Renner (LREN3), Magazine Luiza (MGLU3), Casas Bahia (BHIA3), as varejistas no geral, podem ser afetadas negativamente justamente devido à possível pressão inflacionária resultante da alta do dólar, o que diminuiria o poder de compra dos consumidores e também pode levar a um cenário de juros mais altos”, diz Sene.

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A analista também pontua que o aumento dos custos de insumos e a possível elevação dos juros, consequência da inflação, afetam negativamente o setor de construção civil, com empresas como Cyrela (CYRE3), MRV (MRVE3) e Eztec (EZTC3) sendo prejudicadas. Esse cenário inflacionário e de juros elevados é particularmente desfavorável para empresas cíclicas, que dependem da oscilação da economia e são mais sensíveis a mudanças nos juros e no poder de compra dos consumidores.

O que pode desvalorizar o dólar?

A manutenção da taxa de referência pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) na faixa de 5,25% a 5,5%, divulgado na quarta-feira (31), como esperado, foi acompanhada por uma linguagem mais suave no comunicado, afirmando que os preços estão agora apenas “um pouco elevados”, analisa o  mestre em economia pela Faculdade Getulio Vargas, Caio Dias.

Essa mudança, segundo ele, sugere que o banco central norte-americano pode se aproximar de um ciclo de cortes de juros. A expectativa é que, à medida que a inflação continue convergindo para a meta de 2% e outros dados indiquem uma desaceleração econômica, o primeiro corte de juros possa ocorrer na próxima reunião do Fed em setembro.

De acordo com a ferramenta CME Watch, 67,5% dos investidores preveem que os juros irão cair em 0,5 pontos percentuais, enquanto 32,5% esperam uma redução de 0,25 pontos percentuais. Uma taxa mais baixa nos Estados Unidos poderia desestimular investimentos em ativos de risco, favorecendo o real e outras moedas emergentes, além de beneficiar o mercado acionário.

Dias explica também que a redução das taxas de juros pelo Fed tende a desestimular investimentos em ativos de risco nos Estados Unidos, como os títulos do Tesouro, também conhecidos como Treasuries. Isso faz com que os investidores busquem alternativas mais lucrativas em mercados emergentes, fortalecendo moedas como o real e impulsionando os mercados acionários desses países.

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“Se o Fed optar por cortar os juros, veremos uma tendência de fortalecimento das moedas emergentes e um impacto positivo nos mercados acionários dessas regiões. É uma das maneiras do Brasil conseguir desbancar o real”, afirma o professor.

A agenda econômica desta sexta-feira, com a produção industrial de junho no Brasil e a receita tributária federal, juntamente com o relatório de empregos nos EUA, deve continuar a influenciar o mercado, explicam os analistas. O comportamento desses indicadores pode fornecer novas pistas sobre a direção futura do dólar e seus impactos na economia brasileira que, de acordo com eles, não mostra previsão de fraqueza frente ao real.

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