O real apresentou o segundo pior desempenho entre divisas emergentes e de países exportadores de commodities mais relevantes, atrás apenas do rand sul-africano, com perdas superiores a 2%. Analistas atribuem a fraca performance relativa da moeda brasileira ao aumento das apostas de corte da Selic já em agosto, na esteira da desaceleração mais forte que a esperada do IPCA-15 e de declarações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, à tarde.
A combinação de possibilidade de postura dura do BC americano com cortes da Selic reduz o diferencial de juros interno e externo – o que tende a diminuir a atratividade das operações ‘carry trade’. Operadores afirmam que fundos locais correram para reverter operações vendidas em dólar, na tentativa de limitar prejuízos, o que contribuiu para turbinar os ganhos da moeda americana por aqui.
Com máxima a R$ 5,0443 (+1,82%), justamente em meio à fala de Campos Neto, o dólar à vista encerrou a sessão desta quinta-feira, 25, em alta de 1,65%, cotado a R$ 5,0355 – maior valor de fechamento desde 2 de maio (R$ 5,0467). Após a arrancada de hoje, a divisa passou a acumular avanço de 0,79% na semana e de 0,96% no mês. No ano, a moeda ainda tem desvalorização de 4,63%. Principal termômetro do apetite por negócios, o dólar futuro para junho teve giro forte, acima de US$ 16 bilhões.
O IPCA-15 desacelerou de 0,57% em abril para 0,51% em maio, bem abaixo da mediana da pesquisa do Projeções Broadcast (+0,65%) e perto do piso das estimativas (0,48%). Economistas ressaltaram a desaceleração de núcleos e de serviços. À tarde, Campos Neto disse que o IPCA-15 foi de fato positivo, com “núcleos melhores” e comentou a possibilidade de que a queda da inflação de alimentos no atacado se espraie para o varejo “daqui a pouco”.
O presidente do BC, como de praxe, desconversou quando questionado a respeito de eventual início de corte da taxa Selic, ao dizer que é “um voto em 9”, em referência à composição do Comitê de Política Monetária (Copom). No mercado de juros futuros, as apostas em corte da taxa Selic em agosto se tornaram majoritárias.
“A leitura do mercado sobre o IPCA-15 é que abre a porta para que o Banco Central assuma um tom menos duro e possa iniciar o processo de queda dos juros em algum momento mais à frente. E isso pode diminuir o ‘carry da moeda”, afirma o gestor Bruno Martins, sócio da Armor Capital, ao comentar o desempenho ruim do real em relação a seus pares.
Segundo Martins, pode estar sendo desfeito hoje uma operação bastante “popular entre gestores de multimercados”, que combina venda de índice futuro de Ibovespa e de dólar futuro. Isso ajudaria a explicar o movimento simultâneo de alta expressiva da Bolsa e forte depreciação do real.
O gestor da Armor ressalta que a “posição técnica” do mercado “não era boa”, dado que os fundos locais haviam aumentado muito nas últimas semanas as posições “vendidas” em dólar, que atingiram US$ 6,6 bilhões ontem. “A performance ruim do real é por conta de uma soma de fatores, como inflação baixa e posição técnica ruim”, afirma Martins.
No exterior, o índice DXY – que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes – superou a linha dos 104 mil pontos, algo não visto desde meados de março. O euro foi pressionado pela queda de 0,3% do PIB da Alemanha no primeiro trimestre na margem, o que colocou a maior economia da Europa tecnicamente em recessão.
Nos EUA, o Departamento de Comércio informou pela manhã revisão do crescimento do PIB americano para 1,3% no primeiro trimestre (taxa anualizada). O resultado ficou acima da estimativa inicial, de 1,1%, embora tenha superado projeções de analistas (1,6%). O índice de preços de gastos de consumo (PCE) também foi revisado para cima. Monitoramento da CME mostra que as chances de uma alta de 25 pontos-base na reunião do Fed em junho passaram a ser majoritárias. Investidores já mostram menos convicção de que possa haver corte dos juros ainda neste ano.