Operação Carbono Oculto investiga Reag Investimentos, na Faria Lima (Foto: Adobe Stock)
A Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (28) pela Polícia Federal (PF) e pela Receita Federal, com apoio do Ministério Público Federal (MPF), acendeu o alerta sobre a segurança do sistema financeiro brasileiro. Confira abaixo 7 perguntas e respostas que ajudam a entender os impactos e a dimensão dessa investigação histórica.
Os órgãos competentes desvendaram um esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio atribuído ao Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa de São Paulo. Segundo as investigações, o grupo teria movimentado cerca de R$ 30 bilhões por meio de fundos de investimento e fintechs, usando a estrutura formal do mercado financeiro para dar aparência de legalidade ao dinheiro do crime.
O PCC criava ou cooptava fundos de investimento – muitos deles Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e Fundos Imobiliários (FIIs). Esses fundos, em grande parte, tinham apenas um cotista, geralmente outro fundo, o que dificultava identificar o verdadeiro beneficiário. Com isso, o crime organizado injetava recursos ilícitos e os transformava em ativos financeiros registrados na B3, “limpando” o dinheiro.
Também houve uso de fintechs e bancos digitais para facilitar movimentações e abrir portas no sistema bancário formal.
1. A operação da PF e da Receita na Faria Lima afeta diretamente meu dinheiro investido?
Em princípio, não. De acordo com a Receita Federal, os fundos bloqueados até agora são fundos fechados, criados e controlados pela organização criminosa. A intenção é atingir o patrimônio ilícito, não o investidor comum.
No entanto, a Receita também admitiu que podem haver bloqueios temporários em fundos abertos, caso estes tenham recebido aportes do crime organizado. Isso pode causar atrasos no resgate ou até suspensão provisória de movimentações.
Portanto, existe um risco indireto, mas o foco das autoridades é confiscar o dinheiro do PCC e não penalizar poupadores legítimos.
2. Quais tipos de fundos estão sob investigação?
Foram identificados 42 fundos fraudulentos, avaliados em cerca de R$ 30 bilhões. Entre eles estão:
FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), que compram recebíveis como dívidas e faturas;
FIIs (Fundos Imobiliários), voltados a imóveis;
Fundos multimercado, que mesclam diferentes ativos.
Muitos tinham apenas um cotista (normalmente outro fundo), mecanismo usado para ocultar o verdadeiro beneficiário. As gestoras envolvidas incluem Reag, Altinvest, Banvox, Trustee, BFL e até fintechs como o BK Bank.
3. Posso perder meu dinheiro em função da operação?
O risco direto é pequeno, mas não pode ser descartado. O maior perigo está em fundos abertos que tenham recebido aportes do esquema.
Nesse caso, pode haver bloqueio temporário das cotas até que a Receita consiga separar o dinheiro lícito do ilícito. Para investidores comuns, as autoridades asseguram que atuam com cautela para não gerar pânico e nem punir inocentes.
Especialistas, como Wellinton Depaoli, da Machester Investimentos, e Danilo Coelho, economista e especialista em investimentos, reforçam alguns cuidados básicos:
Escolha instituições sólidas: dê preferência a bancos e gestoras reconhecidas, com histórico de fiscalização;
Desconfie de fundos pouco transparentes: aqueles que não informam claramente a estratégia ou a carteira devem acender um sinal de alerta;
Observe o histórico de captação: fundos que atingem bilhões em ativos em pouco tempo, sem trajetória consolidada, são arriscados;
Diversifique e mantenha liquidez: parte do patrimônio deve estar em aplicações simples e seguras, como Tesouro Direto e Certificados de Depósito Bancário (CDBs) de grandes bancos;
Verifique auditoria e administração: saiba quem faz a gestão do fundo, quem audita as contas e qual é o custodiante.
5. A crise pode gerar impacto no mercado como um todo?
Sim, e esse é o maior risco. Caso gestores de fundos envolvidos precisem vender ativos rapidamente para “limpar” carteiras contaminadas, pode haver pressão de baixa sobre títulos de crédito privado e até ações.
Além disso, há um efeito sistêmico de credibilidade: quando a confiança no sistema cai, todos os investidores ficam mais cautelosos, podendo reduzir liquidez no mercado. Como disse um especialista, “no mercado, confiança é tudo”.
6. Essa operação vai mudar as regras do jogo para fundos e fintechs?
Muito provavelmente. O governo já determinou quefintechs passem a ser tratadas como instituições financeiras, sujeitas às mesmas exigências de reporte que grandes bancos. Isso fortalece a fiscalização, mas também pode trazer custos extras para clientes, como tarifas maiores, e menor espaço para inovação.
No caso dos fundos, espera-se fiscalização mais rigorosa por parte da CVM, Banco Central e B3, exigindo compliance (o cumprimento das leis e normas por uma empresa) mais robusto, auditorias reforçadas e maior transparência.
Pequenas gestoras podem ter dificuldades para se adaptar, o que pode levar a um movimento de consolidação do setor.
7. O que o investidor deve fazer agora?
O pior erro é agir no pânico. A recomendação da psicóloga Ana Paula Hornos, especialista em finanças comportamentais, e de Wellinton Depaoli, da Manchester Investimentos, é manter disciplina e estratégia. Passos práticos:
Acompanhe comunicados oficiais de sua gestora, corretora e dos reguladores (CVM, BC, Receita);
Revise suas aplicações e confirme quem administra, audita e custodia seus fundos;
Priorize liquidez e diversificação, reduzindo exposição concentrada em estruturas complexas ou pouco conhecidas;
Tenha visão de longo prazo: operações como essa expõem falhas, mas também levam a mais regulação e transparência, o que tende a fortalecer o sistema no futuro.