Títulos atrelados à inflação ganham força com juros reais elevados e cenário global mais incerto, atraindo investidores ao Tesouro Direto. (Foto: Adobe Stock)
Os títulos do Tesouro Direto estão pressionados, sobretudo os papéis mais longos atrelados à inflação, em meio a um cenário que combina incertezas externas e cautela no mercado doméstico. As taxas dos títulos indexados ao IPCA estão próximas de 7% de juro real ao ano, refletindo um ambiente de percepção de risco mais elevada e expectativas ainda deterioradas para a inflação.
Segundo Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, o movimento recente da curva de juros mostra que o mercado exige prêmios elevados para carregar títulos públicos de longo prazo.
Na avaliação do especialista, a piora das projeções inflacionárias captadas pelo Boletim Focus (expectativa da inflação subiu a 4,86% para o fim de 2026, acima da meta de 4,5% do Banco Central) tem contribuído para manter os juros futuros elevados. Além disso, fatores externos também entram na conta dos investidores, especialmente o avanço do petróleo em meio às tensões geopolíticas envolvendo o Estreito de Ormuz, uma região estratégica para o fluxo global da commodity.
Porque os títulos de prazos longos continuam voláteis?
Quando o mercado passa a projetar inflação mais resistente e juros elevados por mais tempo, os papéis prefixados e os indexados ao IPCA tendem a oscilar mais intensamente na marcação a mercado.
Murad destaca que a precificação atual indica uma visão ainda conservadora em relação à política monetária brasileira.
“Esse movimento indica que o mercado não vê espaço, no curto prazo, para um ciclo mais agressivo de queda de juros”, diz.
Na prática, isso significa que, embora os títulos ofereçam retornos considerados atrativos em termos de juros reais, o investidor ainda precisa lidar com oscilações relevantes no valor dos papéis antes do vencimento. Isso ocorre porque a marcação a mercado acompanha justamente as mudanças nas expectativas para inflação, Selic e risco fiscal.
Leilões de títulos públicos hoje
Em meio a esse cenário, o Tesouro Nacional realiza nesta terça-feira (28) novos leilões de venda de títulos públicos. No caso das Letras Financeiras do Tesouro (LFT), serão ofertados papéis com vencimento em 1º de junho de 2032. Já entre as Notas do Tesouro Nacional Série B (NTN-B), estarão disponíveis títulos com vencimentos em 15 de maio de 2031, 15 de maio de 2037 e 15 de agosto de 2060.
As quantidades ofertadas serão divulgadas pelo Tesouro nesta quinta-feira (30). O acolhimento das propostas ocorrerá entre 11h e 11h30, com divulgação dos resultados a partir das 11h45 por meio do Banco Central. A liquidação financeira está prevista para quarta-feira (29).
Tesouro Selic
No caso do Tesouro Selic, a taxa adicional permanece bastante baixa, em torno de 0,0453% ao ano no papel com vencimento em 2028, o que indica pouca volatilidade e manutenção do perfil conservador desse título. O preço unitário gira próximo de R$ 18,2 mil, com aplicação mínima na casa de R$ 182,89, mantendo-se como principal alternativa para reserva de liquidez e proteção contra oscilações de mercado.
Veja um exemplo:
Tesouro IPCA+
Já os títulos Tesouro IPCA+ (sem juros semestrais) seguem oferecendo prêmios relevantes. O papel com vencimento em 2029 paga cerca de IPCA + 7,63%, enquanto os mais longos, como 2040 e 2050, oferecem taxas de 7,02% e 6,88%, respectivamente.
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A inclinação da curva, com taxas mais altas nos prazos intermediários, sugere um prêmio maior concentrado no médio prazo, refletindo expectativas de inflação e juros ainda elevados no horizonte mais próximo, com alguma acomodação no longo prazo.
No segmento de IPCA+ com juros semestrais, o título com vencimento em 2035 apresenta taxa de IPCA + 7,48%, também em patamar elevado. Esse tipo de papel continua sendo mais indicado para investidores que buscam fluxo de renda periódica, embora com maior sensibilidade à marcação a mercado.
Tesouro Renda+
Os produtos voltados a objetivos específicos, como o Tesouro Renda+ (aposentadoria), mostram uma curva longa relativamente estável, com taxas que partem de IPCA + 7,13% em 2049 e vão caindo gradualmente até cerca de 6,92% nos vencimentos mais longos, como 2084. Esse comportamento indica uma ancoragem das expectativas de inflaçãono longo prazo, ainda que em níveis elevados de juros reais.
Tesouro Educa+
Da mesma forma, o Tesouro Educa+ apresenta taxas reais bastante atrativas, principalmente nos vencimentos mais curtos, como 2030 (IPCA + 7,95%) e 2031 (IPCA + 7,75%). Ao longo da curva, há uma leve queda nas taxas até cerca de IPCA + 6,95% em 2046, reforçando o mesmo padrão observado nos demais títulos: prêmios mais altos no curto e médio prazo.
O quadro atual do Tesouro Direto mostra juros reais ainda elevados, curva levemente inclinada e oportunidades mais interessantes nos prazos intermediários, enquanto o Tesouro Selic segue como instrumento de estabilidade.