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Colunista

O triunfo de Claudia Sheinbaum: nova postura internacional do México?

Com a primeira presidente de sua história, país pode mudar a forma de se posicionar frente ao comércio global

Por Thiago de Aragão

05/06/2024 | 7:13 Atualização: 05/06/2024 | 7:13

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Bandeira do México. Foto: Envato Elements
Bandeira do México. Foto: Envato Elements

A esmagadora vitória de Claudia Sheinbaum nas eleições presidenciais mexicanas inaugura uma fase de profundas transformações para o país, tanto no âmbito da governança interna quanto das relações internacionais. Sendo a primeira mulher a assumir a presidência do México, o triunfo de Sheinbaum não apenas carrega um significado histórico, mas também sinaliza uma mudança de paradigma na forma como o país se posiciona frente ao comércio global e à diplomacia.

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A magnitude do sucesso eleitoral de Sheinbaum é notória, superando inclusive a de seu antecessor, Andrés Manuel López Obrador (AMLO). Esse amplo apoio do eleitorado evidencia sua capacidade de aliar a continuidade das populares políticas de AMLO com seu próprio enfoque singular em temas prementes, como mudança climática e energias renováveis. Apesar de ter certeza de que será o grande formador de opinião deste governo, AMLO encontrará resistência crescente de Claudia em escutá-lo.

As ideias de transição energética via Petróleos Mexicanos/Pemex (repetidas várias vezes durante a campanha) soam bem como discurso, mas na prática são muito difíceis de se concretizar. A Pemex é um mamute inchado, mal gerido, sem dinheiro em caixa, tomado por sindicatos e com capacidade de produção estagnada, assim como capacidade de inovação em queda livre.

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Usar a Pemex como veículo para uma transição energética de sucesso é muito bom de se dizer, mas muito difícil de se fazer. É mais fácil a Pemex seguir puxando caixa do Tesouro mexicano ao invés de se posicionar como um catalisador de mudança e modernização energética. Essa realidade impõe um enorme desafio para os planos ambiciosos de Sheinbaum de transformar a matriz energética do país.

Com um resultado além do esperado no campo legislativo, Sheinbaum terá uma maioria absoluta no Congresso que a ajudará a aprovar suas iniciativas, inclusive para realizar uma reforma constitucional que traz aspectos controversos, como as eleições diretas para juízes. Com um poder doméstico tão sólido, a política externa passará a ganhar mais atenção de Claudia. Esse controle robusto sobre o Legislativo permitirá que ela avance sua agenda de forma mais assertiva, potencialmente redefinindo a direção do país nos próximos anos.

Uma das esferas mais cruciais onde a liderança de Sheinbaum será atentamente acompanhada é o comércio. O México recentemente despontou como o principal fornecedor de bens para os Estados Unidos, beneficiando-se da tendência de nearshoring, que tem levado empresas a se instalarem mais próximas do mercado americano. O governo Sheinbaum pretende tirar proveito estratégico desse cenário, investindo em cadeias produtivas locais e seguindo a abordagem chinesa de impulsionar a educação e a indústria nacional para evoluir de mera montagem para manufatura integral.

A revisão do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA) em 2026 representa um desafio considerável para a gestão Sheinbaum. Embora o acordo tenha sido benéfico para o México, especialmente no contexto da disputa comercial EUA-China, um eventual retorno de Donald Trump à Casa Branca pode trazer novos obstáculos (como imigração e ameaças soltas). Sheinbaum terá que equilibrar com destreza a manutenção de condições comerciais favoráveis com os EUA e o fortalecimento dos laços crescentes do México com a China.

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A China tem expressado firme apoio a Sheinbaum, sublinhando o aprofundamento das relações políticas e econômicas entre os dois países. A parceria bilateral tem experimentado um crescimento robusto em diversos setores, como ferrovias, automotivo e energia. Além disso, ambas as nações têm colaborado no enfrentamento ao uso ilícito de fentanil, uma questão premente para os EUA.

A política externa de Sheinbaum terá como pilar a preservação de uma sólida relação com os Estados Unidos, maior parceiro comercial do México. A revisão do USMCA em 2026 será um momento crítico, potencialmente complexificado pela possibilidade de Trump reassumir o poder. A abordagem ponderada e científica de Sheinbaum será fundamental para navegar esses desafios, resguardando a estabilidade econômica do México ao mesmo tempo em que responde às preocupações americanas quanto a imigração e narcotráfico. O êxito dos programas de bem-estar social prometidos por Sheinbaum, em continuidade, mesmo que irregular, à linha de AMLO, depende fortemente de uma economia pujante, intimamente atrelada às relações comerciais México-EUA.

Paralelamente, a administração Sheinbaum está bem-posicionada para estreitar os vínculos com a China, agora o segundo maior parceiro comercial mexicano. A China tem manifestado grande interesse em ampliar a cooperação em diversos campos, incluindo energia, manufatura e tecnologia. A colaboração pragmática exemplificada pelo acordo bilateral de combate ao tráfico de fentanil realça a crescente parceria entre as duas nações. A ênfase de Sheinbaum em ciência e meio ambiente alinha-se com os investimentos chineses em energias renováveis e infraestrutura, potencialmente abrindo caminhos para inovadoras colaborações de benefício mútuo. Entretanto, lograr um delicado equilíbrio entre esse florescente relacionamento com a China e a parceria comercial predominante com os EUA demandará hábil articulação diplomática.

Mesmo assumindo um cargo que lhe garante plenos poderes de decisão, a postura política de Claudia Sheinbaum em política externa será fortemente influenciada por Diana Alarcón, sua ex-assessora internacional durante a prefeitura da Cidade do México.

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O nearshoring tem sido um catalisador significativo para a economia mexicana nos últimos anos. Empresas como Sony, Panasonic, Intel e IBM têm utilizado o México como plataforma para produção de eletrônicos, beneficiando-se de sua robusta cadeia de suprimentos, mão de obra qualificada e acordos comerciais favoráveis. A fronteira estratégica com os EUA e os competitivos custos trabalhistas tornaram o país um polo atrativo para a manufatura aeroespacial e automotiva, com empresas como General Motors e BMW expandindo suas operações no território.

O nearshoring tem potencial para impulsionar ainda mais o crescimento das exportações manufatureiras do México para os EUA, com projeções de aumento de US$ 455 bilhões para US$ 609 bilhões nos próximos anos. Esse fenômeno cresce pela busca por cadeias de suprimento mais próximas e econômicas, especialmente em um contexto de tarifas comerciais e disputas geopolíticas. Para capitalizar essa tendência, o México precisará investir em infraestrutura de transporte e segurança rodoviária, além de solucionar problemas comerciais pendentes com os EUA.

Sem dúvida, a presidência de Claudia Sheinbaum marca um ponto de inflexão para o México. Seu governo terá que manejar habilmente a complexa interação entre políticas domésticas e relações internacionais, alavancando o papel central do México no comércio global ao mesmo tempo em que lida com os potenciais desafios impostos pela dinâmica política dos EUA.

Na medida em que Sheinbaum assuma esse papel transformador, a comunidade internacional estará atenta para ver como ela conduzirá o México por entre esses desafios. Domesticamente, a nova presidente terá passe livre no Congresso, o que muitas vezes leva um presidente a errar a dose na política externa.

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