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Uma aposta geopolítica: como a reaproximação entre EUA e Rússia fortalece a China e enfraquece a UE

Iniciativa do governo Trump para se aproximar da Rússia sinaliza uma tentativa de recalibrar as alianças globais

Por Thiago de Aragão

26/02/2025 | 15:53 Atualização: 26/02/2025 | 15:53

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Bandeira da China, Estados Unidos, União Europeia e Rússia (Foto: Adobe Stock)
Bandeira da China, Estados Unidos, União Europeia e Rússia (Foto: Adobe Stock)

A recente iniciativa do governo Trump para se aproximar da Rússia sinaliza uma tentativa de recalibrar as alianças globais. Em teoria, fortalecer os laços com Moscou poderia ser uma jogada estratégica para criar uma divisão entre a Rússia e a China. No entanto, a realidade é bem mais complexa. Em vez de enfraquecer os laços sino-russos, essa mudança poderia consolidar ainda mais essa parceria, beneficiando tanto a Rússia quanto a China e, ao mesmo tempo, prejudicando o maior ativo geopolítico dos Estados Unidos: a União Europeia.

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Para a China, manter e fortalecer a parceria com a Rússia é uma peça-chave de sua estratégia de longo prazo. A interdependência econômica entre os dois países está em seu ponto mais alto, impulsionada por sanções ocidentais que forçaram Moscou a depender ainda mais de Pequim. Em 2024, o comércio entre China e Rússia atingiu um recorde de US$ 244,8 bilhões, com a China fornecendo bens essenciais à Rússia enquanto garante uma fonte estável de energia e matérias-primas.

Um dos setores mais estratégicos dessa cooperação é o de energia. O gasoduto Poder da Sibéria, que fornece à China 38 bilhões de metros cúbicos de gás natural russo anualmente, demonstra como a dependência econômica de Moscou em relação a Pequim está se aprofundando. Com empresas ocidentais se afastando dos projetos energéticos russos, as empresas chinesas assumiram esse espaço, garantindo contratos de longo prazo e preços preferenciais. Como resultado, qualquer tentativa dos EUA de afastar a Rússia da China provavelmente enfrentará barreiras econômicas que favorecem Pequim.

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Além da economia, a cooperação em defesa entre os dois países também se intensificou. A Rússia tem sido historicamente o principal fornecedor de armas da China, representando 77% das importações chinesas de armamentos nas últimas três décadas. Com a aquisição de sistemas avançados como o S-400 e os caças Su 35, a China reforçou suas capacidades militares com tecnologia russa. Além disso, ambos os países expandiram sua cooperação militar com exercícios conjuntos frequentes e o ecodesenvolvimento de novas tecnologias de defesa, reforçando sua aliança estratégica contra a influência ocidental.

Em vez de afastar a Rússia da China, uma reaproximação entre EUA e Rússia poderia dar a Moscou mais flexibilidade diplomática, mantendo seus laços profundos com Pequim. A China se beneficia desse cenário ao continuar recebendo recursos russos com desconto, tecnologia militar avançada e apoio diplomático russo em organizações internacionais.

Do ponto de vista russo, um degelo nas relações com Washington representa uma oportunidade para aliviar parte da pressão econômica e geopolítica sem necessariamente abandonar sua aliança com Pequim. Se os EUA sinalizarem disposição para reduzir sanções ou normalizar as relações diplomáticas, a Rússia poderia usar essa mudança para obter concessões tanto de Washington quanto de Pequim.

No entanto, Moscou tem poucos incentivos para realmente se afastar da China. Desde a invasão da Ucrania em 2022, as sanções europeias e americanas cortaram o acesso da Rússia aos mercados ocidentais, forçando-a a redirecionar seu comércio para a China, Índia e outras economias não ocidentais. A economia russa agora depende estruturalmente de Pequim para importações de alta tecnologia, transações financeiras (já que bancos ocidentais isolaram os bancos russos) e exportações de energia.

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Além disso, o papel da Rússia como principal fornecedor de energia para a China fortalece ainda mais a relação entre os dois países. Mesmo que as relações entre EUA e Rússia melhorem, Moscou não pode se dar ao luxo de romper seu vínculo econômico com Pequim. Pelo contrário, o Kremlin provavelmente usaria essa mudança para negociar melhores termos comerciais com a China, consolidando ainda mais a parceria em vez de enfraquecê-la.

Enquanto China e Rússia se beneficiariam de uma reaproximação entre EUA e Rússia, a União Europeia enfrentaria riscos significativos. Por décadas, a UE tem sido o aliado mais valioso dos Estados Unidos, unidos por valores democráticos, fortes laços comerciais e cooperação militar por intermédio da OTAN. No entanto, um realinhamento estratégico de Washington em favor de Moscou poderia prejudicar a segurança e a estabilidade econômica europeias.

A UE continua profundamente preocupada com a agressão russa, especialmente após a invasão da Ucrania. Se os EUA demonstrarem disposição para restaurar as relações diplomáticas com Moscou, os líderes europeus temerão que Washington esteja priorizando a Rússia em detrimento da segurança do Leste Europeu. Isso poderia enfraquecer a posição dissuasória da OTAN, fortalecer a influência russa sobre os países do antigo bloco soviético e semear divisões dentro da aliança transatlântica.

A UE tem liderado as sanções contra a Rússia, reduzindo sua dependência energética de Moscou e alinhando sua economia mais estreitamente com os Estados Unidos. Se Washington mudar sua abordagem e suavizar sua posição em relação à Rússia, isso poderia gerar grandes divisões dentro da UE, especialmente entre países que defendem uma abordagem mais rígida (como Polônia e os Estados Bálticos) e aqueles mais abertos a um engajamento pragmático com Moscou (como Hungria e parte da elite empresarial alemã).

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Além disso, um eixo Rússia-China mais forte ameaça os interesses econômicos de longo prazo da UE. Se a Rússia continuar priorizando sua relação econômica com Pequim em vez de escolher a Europa, poderá redirecionar cadeias de suprimentos e rotas energéticas para a Ásia, tornando o acesso europeu a recursos estratégicos mais caro e instável.

A suposição de que os EUA podem criar uma divisão entre Rússia e China beneficiando as relações com Moscou é equivocada. Em vez de dividir as duas potências, essa política poderia fortalecê-las ainda mais. A China continuaria expandindo seus laços econômicos e militares com a Rússia, enquanto Moscou ganharia maior influência diplomática sem mudar verdadeiramente sua lealdade.

Além disso, alienar a União Europeia no processo poderia ser um dos maiores erros estratégicos dos EUA. A UE continua sendo o parceiro mais confiável de Washington em termos de comércio, cooperação militar e governança global. Um desvio de foco para engajar a Rússia à custa da unidade europeia poderia levar a um Ocidente fragmentado, laços transatlânticos enfraquecidos e um eixo sino-russo fortalecido, o que seria muito mais prejudicial para a influência global dos EUA a longo prazo.

Em vez de tentar “afastar a Rússia da China”, os EUA deveriam se concentrar em reforçar suas parcerias com a Europa e com outros aliados democráticos, mantendo a pressão estratégica sobre Moscou. Qualquer tentativa de realinhar alianças globais sem compreender a profundidade dos laços sino-russos corre o risco de ser um erro geopolítico—um erro que beneficiaria Pequim e Moscou as custas de Washington e de seus aliados mais próximos.

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