Para a China, manter e fortalecer a parceria com a Rússia é uma peça-chave de sua estratégia de longo prazo. A interdependência econômica entre os dois países está em seu ponto mais alto, impulsionada por sanções ocidentais que forçaram Moscou a depender ainda mais de Pequim. Em 2024, o comércio entre China e Rússia atingiu um recorde de US$ 244,8 bilhões, com a China fornecendo bens essenciais à Rússia enquanto garante uma fonte estável de energia e matérias-primas.
Um dos setores mais estratégicos dessa cooperação é o de energia. O gasoduto Poder da Sibéria, que fornece à China 38 bilhões de metros cúbicos de gás natural russo anualmente, demonstra como a dependência econômica de Moscou em relação a Pequim está se aprofundando. Com empresas ocidentais se afastando dos projetos energéticos russos, as empresas chinesas assumiram esse espaço, garantindo contratos de longo prazo e preços preferenciais. Como resultado, qualquer tentativa dos EUA de afastar a Rússia da China provavelmente enfrentará barreiras econômicas que favorecem Pequim.
Além da economia, a cooperação em defesa entre os dois países também se intensificou. A Rússia tem sido historicamente o principal fornecedor de armas da China, representando 77% das importações chinesas de armamentos nas últimas três décadas. Com a aquisição de sistemas avançados como o S-400 e os caças Su 35, a China reforçou suas capacidades militares com tecnologia russa. Além disso, ambos os países expandiram sua cooperação militar com exercícios conjuntos frequentes e o ecodesenvolvimento de novas tecnologias de defesa, reforçando sua aliança estratégica contra a influência ocidental.
Em vez de afastar a Rússia da China, uma reaproximação entre EUA e Rússia poderia dar a Moscou mais flexibilidade diplomática, mantendo seus laços profundos com Pequim. A China se beneficia desse cenário ao continuar recebendo recursos russos com desconto, tecnologia militar avançada e apoio diplomático russo em organizações internacionais.
Do ponto de vista russo, um degelo nas relações com Washington representa uma oportunidade para aliviar parte da pressão econômica e geopolítica sem necessariamente abandonar sua aliança com Pequim. Se os EUA sinalizarem disposição para reduzir sanções ou normalizar as relações diplomáticas, a Rússia poderia usar essa mudança para obter concessões tanto de Washington quanto de Pequim.
No entanto, Moscou tem poucos incentivos para realmente se afastar da China. Desde a invasão da Ucrania em 2022, as sanções europeias e americanas cortaram o acesso da Rússia aos mercados ocidentais, forçando-a a redirecionar seu comércio para a China, Índia e outras economias não ocidentais. A economia russa agora depende estruturalmente de Pequim para importações de alta tecnologia, transações financeiras (já que bancos ocidentais isolaram os bancos russos) e exportações de energia.
Além disso, o papel da Rússia como principal fornecedor de energia para a China fortalece ainda mais a relação entre os dois países. Mesmo que as relações entre EUA e Rússia melhorem, Moscou não pode se dar ao luxo de romper seu vínculo econômico com Pequim. Pelo contrário, o Kremlin provavelmente usaria essa mudança para negociar melhores termos comerciais com a China, consolidando ainda mais a parceria em vez de enfraquecê-la.
Enquanto China e Rússia se beneficiariam de uma reaproximação entre EUA e Rússia, a União Europeia enfrentaria riscos significativos. Por décadas, a UE tem sido o aliado mais valioso dos Estados Unidos, unidos por valores democráticos, fortes laços comerciais e cooperação militar por intermédio da OTAN. No entanto, um realinhamento estratégico de Washington em favor de Moscou poderia prejudicar a segurança e a estabilidade econômica europeias.
A UE continua profundamente preocupada com a agressão russa, especialmente após a invasão da Ucrania. Se os EUA demonstrarem disposição para restaurar as relações diplomáticas com Moscou, os líderes europeus temerão que Washington esteja priorizando a Rússia em detrimento da segurança do Leste Europeu. Isso poderia enfraquecer a posição dissuasória da OTAN, fortalecer a influência russa sobre os países do antigo bloco soviético e semear divisões dentro da aliança transatlântica.
A UE tem liderado as sanções contra a Rússia, reduzindo sua dependência energética de Moscou e alinhando sua economia mais estreitamente com os Estados Unidos. Se Washington mudar sua abordagem e suavizar sua posição em relação à Rússia, isso poderia gerar grandes divisões dentro da UE, especialmente entre países que defendem uma abordagem mais rígida (como Polônia e os Estados Bálticos) e aqueles mais abertos a um engajamento pragmático com Moscou (como Hungria e parte da elite empresarial alemã).
Além disso, um eixo Rússia-China mais forte ameaça os interesses econômicos de longo prazo da UE. Se a Rússia continuar priorizando sua relação econômica com Pequim em vez de escolher a Europa, poderá redirecionar cadeias de suprimentos e rotas energéticas para a Ásia, tornando o acesso europeu a recursos estratégicos mais caro e instável.
A suposição de que os EUA podem criar uma divisão entre Rússia e China beneficiando as relações com Moscou é equivocada. Em vez de dividir as duas potências, essa política poderia fortalecê-las ainda mais. A China continuaria expandindo seus laços econômicos e militares com a Rússia, enquanto Moscou ganharia maior influência diplomática sem mudar verdadeiramente sua lealdade.
Além disso, alienar a União Europeia no processo poderia ser um dos maiores erros estratégicos dos EUA. A UE continua sendo o parceiro mais confiável de Washington em termos de comércio, cooperação militar e governança global. Um desvio de foco para engajar a Rússia à custa da unidade europeia poderia levar a um Ocidente fragmentado, laços transatlânticos enfraquecidos e um eixo sino-russo fortalecido, o que seria muito mais prejudicial para a influência global dos EUA a longo prazo.
Em vez de tentar “afastar a Rússia da China”, os EUA deveriam se concentrar em reforçar suas parcerias com a Europa e com outros aliados democráticos, mantendo a pressão estratégica sobre Moscou. Qualquer tentativa de realinhar alianças globais sem compreender a profundidade dos laços sino-russos corre o risco de ser um erro geopolítico—um erro que beneficiaria Pequim e Moscou as custas de Washington e de seus aliados mais próximos.