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Colunista

Guerra Israel-Irã: o impacto devastador que o conflito pode causar nos mercados globais

Embora o conflito pareça geograficamente distante, seus efeitos já estão presentes do preço da gasolina à oscilação das bolsas

Por Thiago de Aragão

18/06/2025 | 15:20 Atualização: 18/06/2025 | 16:58

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Conflito Irã x Israel (Foto: Adobe Stock)
Conflito Irã x Israel (Foto: Adobe Stock)

Durante mais de 40 anos, Irã e Israel viveram um estado de hostilidade crônica, com confrontos indiretos. A Revolução Islâmica de 1979 transformou antigos aliados em inimigos irreconciliáveis. Desde então, Teerã passou a financiar e armar grupos como o Hezbollah no Líbano e milícias xiitas no Iraque e na Síria, enquanto Israel conduzia centenas de bombardeios em solo sírio para conter a expansão iraniana, sem atingir diretamente o território do Irã. A guerra nas sombras seguiu com assassinatos de cientistas nucleares iranianos atribuídos ao Mossad, ataques cibernéticos como o vírus Stuxnet, e sabotagens industriais. A regra não-escrita era clara: ataques sim, mas longe dos centros de poder. Isso terminou agora.

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Em 13 de junho de 2025, Israel lançou o que rapidamente se transformou no maior confronto direto entre os dois países. Aviões israelenses atacaram mais de 100 alvos em território iraniano, incluindo instalações nucleares em Natanz e Isfahan, locais de lançamento de mísseis e até prédios em Teerã. Entre os mortos estavam altos comandantes militares iranianos, como o general Mohammad Bagheri e o comandante da Guarda Revolucionária Hossein Salami, além de pelo menos seis cientistas nucleares. A operação, batizada de Leão em Ascensão, teria como objetivo impedir o que Israel alegava ser a iminente aquisição de uma bomba atômica por Teerã — uma acusação que o Irã nega, mas que foi reforçada por advertências recentes da Agência Internacional de Energia Atômica.

O Irã reagiu com uma fúria inédita. Em poucas horas, mísseis balísticos e drones armados foram lançados contra cidades israelenses como Tel Aviv, Haifa e Jerusalém. Civis foram mortos, bairros inteiros atingidos e a população israelense se viu diante de algo inédito: bombardeios diretos vindos do Irã. O arsenal iraniano demonstrou poder: mísseis como o novo Haj Qassem conseguiram driblar as defesas do Domo de Ferro e atingir alvos com precisão assustadora. Pela primeira vez, tanto Tel Aviv quanto Teerã estão sob ataque direto — um marco sinistro na história da rivalidade entre os dois países.

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Militarmente, o conflito expôs a supremacia aérea de Israel, mas também revelou a profundidade do poder balístico do Irã. Os caças F-35 e F-15 israelenses dominaram rapidamente os céus iranianos, destruindo defesas aéreas e atacando alvos de alto valor com precisão cirúrgica.

Netanyahu chegou a dizer que Israel controla os céus iranianos. Mas mesmo essa capacidade não foi suficiente para destruir instalações subterrâneas como Fordow, localizada sob uma montanha — o que reforça a limitação de Israel sem o apoio direto dos EUA.

O Irã, por sua vez, aposta em sua enorme capacidade de mísseis, a maior do Oriente Médio. Mesmo com perdas significativas, continua lançando projéteis diariamente, desafiando os sistemas de defesa israelenses e impondo uma sensação constante de insegurança na população civil. A guerra, que antes era periférica, hoje acontece no coração de ambos os países, afetando diretamente a vida de milhões.

Enquanto o fogo cruzado domina os noticiários, uma guerra invisível segue em paralelo: a batalha entre espiões e hackers. Israel parece ter se antecipado com uma rede impressionante de informantes dentro do Irã, o que explicaria a eficácia dos ataques iniciais. Comandos do Mossad teriam atuado dentro de Teerã, destruindo sistemas de defesa e eliminando alvos específicos.

No tabuleiro diplomático, conflito Irã-Israel expõe fragilidades e realinhamentos

No mundo digital, o Irã também reage. Seus hackers têm um histórico de ataques contra a infraestrutura civil israelense e devem intensificar ações cibernéticas nos próximos dias. Em resposta, as autoridades iranianas ordenaram que membros do alto escalão do governo abandonassem celulares e dispositivos inteligentes, temendo que estejam sendo rastreados. O medo é real: em guerras modernas, um smartphone pode ser tão letal quanto uma granada.

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No tabuleiro diplomático, o conflito expõe fragilidades e realinhamentos. Os EUA, embora aliados históricos de Israel, até agora se mantiveram fora do confronto direto. Trump já declarou apoio total a Israel, mas evita enviar tropas numa tentativa de evitar um novo atoleiro no Oriente Médio. Ainda assim, há relatos de envio de bombas bunker-buster e apoio logístico.

Já países como Rússia e China observam com cautela. A Rússia tem interesses estratégicos na região e laços com Teerã, mas evita se comprometer militarmente. A China, que depende do petróleo iraniano e investe pesado em Israel, também adota um discurso genérico de “moderação”. Enquanto isso, potências árabes como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Bahrein hoje mais próximos de Israel do que do Irã mantêm silêncio calculado. A nova aliança informal entre Israel e Estados sunitas contra o Irã xiita está mais clara do que nunca.

Economias fragilizadas

O aspecto menos discutido e talvez o mais perigoso é o impacto econômico global do conflito. No segundo dia da guerra, Israel atacou instalações vitais de petróleo e gás no Irã, incluindo o maior campo de gás natural do mundo, o South Pars. Refino de petróleo, depósitos de combustível e terminais de exportação foram alvos. Pela primeira vez, Israel mirou diretamente a espinha dorsal da economia iraniana. Teerã respondeu com ameaças de fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa um terço do petróleo transportado por navios no mundo. Se isso acontecer, o impacto nos mercados será devastador.

O preço do barril de petróleo Brent já subiu cerca de 7% em poucos dias, e analistas não descartam uma escalada para US$ 100 por barril se o conflito continuar. A inflação global pode acelerar, complicando as políticas monetárias dos bancos centrais. Linhas aéreas alteram rotas, cadeias logísticas se reorganizam, bolsas oscilam e moedas de países emergentes sofrem. A economia iraniana, já fragilizada por sanções, entra em colapso acelerado. A de Israel também sente: quedas na bolsa de Tel Aviv, fuga de capitais de risco e pressão sobre os gastos militares podem deixar cicatrizes duradouras.

O que vemos hoje não é apenas uma guerra entre dois inimigos antigos. É uma guerra do século XXI, em todas as frentes: militar, cibernética, econômica, diplomática e psicológica. Embora o conflito pareça geograficamente distante, seus efeitos já estão presentes em nossas vidas: no preço da gasolina, na oscilação das bolsas, na insegurança de líderes globais. O conflito Israel-Irã é também um espelho de nossas vulnerabilidades: um míssil em Teerã pode custar mais caro para um motorista em São Paulo do que se imagina.

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