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Direto da Faria Lima

A estratégia da Organon para selecionar ações e entregar 135% de retorno sem crescer demais

A gestora tem um único fundo, que rendeu 135% em três anos com uma carteira pequena e focada no que sabe fazer de melhor; CIO vê longo prazo com bons olhos

Por Luíza Lanza
Editado por Valéria Bretas

16/07/2025 | 3:00 Atualização: 16/07/2025 | 10:31

Esta reportagem inaugura a nova seção do E-Investidor, dedicada a quem acompanha de perto as movimentações que moldam o mercado, com entrevistas exclusivas que vão destrinchar estratégias de investimento e alocação de portfólio. Você pode ler o que já publicamos aqui: Direto da Faria Lima. 

Leia mais:
  • O que faria uma gestora que rendeu 153% com big techs incluir ações brasileiras na carteira
  • 140 mil e contando? Maiores gestores de ações do País divergem sobre a alta da Bolsa
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O momento ruim para a indústria de fundos de renda variável – com resgates bilionários em ações e multimercados – fez algumas gestoras se movimentarem para ampliar a prateleira de produtos. Uma forma de driblar a saída de investidores e conseguir equilibrar o negócio de pé a partir de estratégias cuja captação estão indo melhor neste ciclo. Mas o fundo de investimento em ações (FIA) com um dos resultados mais rentáveis dos últimos anos vai na contramão dessa lógica.

O Organon Master FIA nasceu como um clube de investimento até a fundação da Organon Capital em 2020, uma gestora independente com cerca de R$ 750 milhões em ativos sob gestão. A proposta é ser uma asset monoativo, com capacity pouco acima de R$ 1 bilhão, para ter o conforto de garantir a eficiência da estratégia da casa mesmo com a valorização do fundo ao longo dos anos.

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O argumento é que o foco é muito importante para o sucesso do negócio. Por isso, não dá para crescer a qualquer preço, nem atrair qualquer tipo de investidor – o objetivo hoje é aumentar a parcela de institucionais, um passivo de maior qualidade que também visa o longo prazo. Mantendo uma equipe enxuta, que já trabalha junto há algum tempo.

Raphael Maia, fundador e CIO da asset, faz uma metáfora com o futebol: muitas vezes, o entrosamento entre os jogadores e o tempo de trabalho conjunto conta mais do que a escalação perfeita. Da mesma forma, um time que joga muitos campeonatos ao mesmo tempo tem mais chances de ficar pelo caminho do que aquele que está dedicado a uma única competição.

Não dá para dizer que não está dando certo. O Organon Master rendeu 135,51% em 36 meses, contra 40,91% do Ibovespa e 42,20% do CDI. Desde o início, a alta acumulada é de 1.843%, contra 145% do IBOV.

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A mesma lógica também norteia a construção da carteira do fundo, que se propõe a investir em no máximo 20 ações, um número considerado baixo para um FIA, com concentração máxima em um ativo limitada a 25%. Hoje, a Organon investe em 17 papéis e as posições consideradas relevantes variam de 10% a 15%.

Para não trazer um risco adicional ao investidor, a Organon divide o portfólio em três tipos de teses: domésticas, dolarizadas e mistas. Assim, quando os juros altos penalizam um papel mais ligado à economia local, uma ação com receitas dolarizadas consegue entregar um desempenho melhor e equilibrar a conta. Na hora de selecionar os ativos, o micro pesa muito mais do que o macro, numa análise “bottom up” – aquilo que está sendo mal precificado pelo mercado, apesar dos bons resultados.

Um filtro que reduz a quantidade de opções para investir. “As oportunidades de investimento são escassas, não consigo ter muitas boas ideias microeconômicas. Por outro lado, é preciso ter certa diversificação para equilibrar os ventos macroeconômicos. E essa construção de portfólio é a melhor forma que encontramos de otimizar isso”, explica Maia.

Fama (e retornos) por small caps

Com a tese de “bottom up”, os bons resultados dos últimos anos vieram sobretudo de nomes fora do radar do mercado. A Organon alcançou o posto de especialista em small caps, ainda que esse não fosse o objetivo inicial e que o fundo tenha na carteira algumas blue chips (ações de maior relevância no mercado), como Suzano (SUZB3).

“Falar que só investimos em small caps reduz o grau de liberdade e, no fundo, o que queremos é ter o maior número de oportunidades possíveis. É muito mais fácil comprar e vender uma ação de empresa grande, mas não existem muitas subavaliadas com oportunidade de alocar com margem de segurança grande, que é o que gostamos”, explica o CIO.

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Desde 2022, as posições que deram os maiores retornos ao fundo foram Marcopolo (POMO4) e Valid (VLID3). As duas empresas saltaram mais de 100% em 2023, e eram as maiores posições do Organon Master. Cada uma delas chegou a ser quase 20% do patrimônio do fundo, perto no limite de alocação.

A Organon publica cartas semestrais de gestão em que destrincha alguma tese presente na carteira. O racional por trás do investimento em Marcopolo e Valid está lá, explicado aos cotistas em detalhes. Mas passa pelo mesmo ponto: duas teses microeconômicas de empresas que passaram a entregar resultados muito melhores do que o mercado imaginava e do que as ações estavam precificando. “A rentabilidade melhorou muito e a gente acreditava nisso antes de acontecer”, diz Maia.

A gestora realizou lucros e desinvestiu em POLO4, mas segue apostando na VLID3; hoje, uma das 5 maiores posições do fundo. Acima dela, estão Ocean Pact (OPCT3), Iguatemi (IGTI11), Iochpe-Maxion (MYPK3) e Ânima (ANIM3). Juntas, essas empresas representam metade da carteira do Organon Master, que subiu 24,61% nos seis primeiros meses de 2025. O desempenho é parecido com o do SMLL, índice de small caps da B3, que deu 26,43% no semestre.

Bolsa não está barata, mas tem espaço para mais

O melhor momento para comprar boas ações é quando os preços estão descontados. Entre os mais otimistas, tem quem diga que mesmo após um primeiro semestre de recorde no Ibovespa, os ativos seguem abaixo de seu valor justo em comparação à média histórica. Nos pessimistas, ainda faltam gatilhos para demonstrar que o momento mais positivo para o Brasil veio para ficar.

A Organon faz uma leitura de cenário no meio dos polos: as ações brasileiras não estão “baratíssimas”, mas ainda valem o investimento sob a ótica do longo prazo. “Já vivemos momentos piores no Brasil, mas com o custo de capital no mundo muito barato. Hoje não vivemos um momento tão ruim, mas o custo de capital no mundo é mais alto”, diz.

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O aumento recente do custo de capital tem a ver com os juros dos Estados Unidos, usados como termômetro para investidores no mundo todo. Com os títulos soberanos por lá pagando o maior nível de retorno em décadas, há menos motivos para se investir em outros países mais arriscados como o Brasil. Dado que isso não mudou este ano, o movimento de valorização expressiva das ações brasileiras no primeiro semestre tem a ver com outra história.

Na visão do gestor, trata-se de uma correção dos excessos vistos no mercado local nos meses finais de 2024, após a frustração do mercado com as medidas apresentadas pelo governo federal para conter gastos. Isso, somado a um dólar globalmente mais fraco que fez investidores globais olharem novamente para emergentes. O fluxo gringo voltou, permitindo que parte do gap que se abriu entre novembro e dezembro no valor dos ativos domésticos se fechasse. “As ações não estão muito diferentes do que estavam 12 meses atrás”, destaca Maia.

Projeções para a Bolsa no 2º semestre a Organon deixa para os especuladores, justamente porque não quer depender das surpresas do cenário macroeconômico – e correr o risco de errar. A preferência ainda é por ações que devolvam o dinheiro para o acionistas, seja via dividendos ou programas de recompras, principalmente aquelas cuja projeção de taxa interna de retorno seja atrativa, uma conta feita para projetar quanto determinada empresa trará de retorno e a que múltiplo seria negociada em três anos.

Para não depender do momento dos EUA, a discussão no Brasil passa inevitavelmente pelo ajuste de contas públicas que a União vai precisar fazer. A gestora entende que, independentemente do candidato que vencer as eleições presidenciais de 2026, quem assumir o País vai precisar encarar o problema fiscal.

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“Eu não tenho muita convicção se a Bolsa vai estar mais alta ou mais baixa no final do ano. Mas tenho de que se o custo de capital cair vamos ganhar muito dinheiro. E se ele não cair, ainda vamos ganhar dinheiro em empresas que geram lucros, distribuem dividendos e estão com múltiplos baixos. Não me parece um cenário ruim“, afirma.

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