O ponto-chave para entender essa aparente contradição é o comportamento da política monetária. O BTG é direto: os juros vão cair muito em 2026. A projeção do banco é de um “corte total de 300 pontos-base na Selic” no próximo ano, começando já em janeiro. Com isso, a taxa média passaria de 14,6% em 2025 para 13,1% em 2026, ainda alta, mas bem menos sufocante. Como grande parte das empresas carrega dívidas diretamente indexadas à Selic, essa queda funciona como um alívio imediato no resultado financeiro. O efeito, segundo o relatório, é tão intenso que passa a ser o principal motor de crescimento dos lucros corporativos.
O relatório também analisa quais setores mais se beneficiando esse movimento. A sensibilidade à Selic é marcante principalmente entre varejistas, locadoras de veículos, shopping centers, empresas de infraestrutura (como rodovias) e utilities.
Para cada 100 pontos-base de queda dos juros, varejo e locadoras, por exemplo, têm um salto estimado de 4% nos lucros. Esses setores compartilham características estruturais (balanços mais alavancados e dívidas de curto prazo atreladas aos juros básicos) que amplificam o impacto da política monetária.
Atenção ao mercado doméstico
Nesse contexto, um grupo específico de empresas deve experimentar uma recuperação expressiva: as companhias voltadas ao mercado doméstico. Depois de um crescimento tímido de 5% nos lucros em 2025, a expectativa é que o avanço chegue a 13% em 2026. O BTG lembra que essas empresas “foram muito prejudicadas pela Selic média altíssima de 2025“, e que o alívio monetário leva, por si só, a uma normalização dos resultados.
Entre os setores, os bancos devem ser a maior fonte absoluta de expansão dos lucros. A projeção é de um aumento de R$ 15,8 bilhões na rentabilidade do setor em 2026, com destaques para Banco do Brasil (BBAS3, +R$ 5,6 bi), Bradesco (BBDC4, +R$ 4,3 bi) e Itaú (ITUB3, +R$ 3,4 bi). Segundo o relatório, o desempenho fraco de 2025, especialmente no BB, pressionado por calotes no agro e pelos efeitos da Resolução 4.966, deve dar lugar a um ano de normalização da inadimplência rural e retomada gradual do crédito.
O setor financeiro, portanto, volta a ser um dos pilares do crescimento agregado.
Natura, Raia Drogasil e Assaí: empresas que carregam o varejo
Outro destaque é o varejo, cuja disparada esperada para 2026 chama atenção: +34% nos lucros, puxados principalmente pela Natura (NATU3, responsável por cerca de um terço do ganho total do setor) e também por Raia Drogasil (RADL3) e Assaí (ASAI3). O BTG reforça que essa melhora ocorre “mesmo sem considerar um PIB mais forte“, apenas a queda dos custos financeiros já proporciona um impulso relevante, dada a estrutura de dívidas indexadas à Selic.
Expectativas de lucro para 2026
O banco também avalia como as estimativas de lucro mudaram nos últimos meses. No geral, as projeções para 2026 recuaram apenas 1,7%, com quedas maiores entre empresas domésticas (-2,8%) e estabilidade nas companhias de commodities. Mas esses números escondem movimentos fortes dentro de setores. As maiores revisões negativas vieram dos bancos (-R$ 5,2 bi), do agronegócio (-R$ 5,1 bi) e do setor de papel e celulose, puxado pela Suzano (SUZB3), com -R$ 4,4 bi.
Entre as revisões positivas, brilham metais e mineração com alta de R$ 3 bi, e a própria Vale (VALE3), com melhora de 30% na estimativa de lucro graças a minério mais caro e maior volume. Em utilities, a Axia Energia (AXIA3) aparece como destaque após revisão de +R$ 3,4 bi motivada pelo preço mais alto de energia.
A conclusão do BTG é que, mesmo com a economia fraca e algumas revisões setoriais negativas, 2026 deve ser um ano forte para os lucros corporativos no Brasil.