Tensões no Irã reacendem o risco geopolítico no mercado de petróleo e elevam a volatilidade global, com efeitos diretos sobre commodities e ativos brasileiros. (Foto: Adobe Stock)
No cenário atual, a crise no Irã de 2025–26 deixou de ser apenas um capítulo distante de política externa para virar um verdadeiro teste de estresse em tempo real para o mercado de petróleo, para o prêmio de risco geopolítico e, por tabela, para o Brasil e qualquer investidor com alguma exposição relevante a commodities.
O Irã voltou a funcionar como aquele “swing factor” (fator de oscilação) incômodo: não é o maior produtor nem o player mais eficiente, mas é exatamente o país cuja instabilidade mexe com a psicologia do mercado, reprecifica o barril em questão de horas e reacende, de tempos em tempos, o velho fantasma de um gargalo no Estreito de Ormuz.
A essa altura, a combinação de colapso econômico, desvalorização cambial, protestos em massa e repressão violenta abriu um tipo de crise que o próprio regime, profundamente autocrático e impermeável a qualquer prestação de contas, enxerga como existencial, e isso muda o tom de tudo: torna mais provável uma escalada de sanções, eleva a chance de respostas assimétricas do Irã na região e transforma qualquer manchete em gatilho de volatilidade em telas de trading (compra e venda de ativos) mundo afora.
Brent e WTI: o preço conta menos que o prêmio de risco embutido
Ao mesmo tempo, a disposição de parte da sociedade iraniana de ir para as ruas e desafiar um aparato repressivo brutal mostra que existe, sim, um conflito claro entre um Estado que se sustenta na coerção e uma população que tenta, como pode, recuperar algum grau de dignidade e de escolha sobre o próprio futuro – a simpatia, aqui, está com esse cidadão comum, não com o regime que o reprime.
Do ponto de vista de mercado, o que importa menos é o discurso de “mudança de regime” e mais a mecânica de curto prazo: quanta produção está de fato sob risco, quanta capacidade ociosa existe em outros membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+), quão rápido os fluxos podem ser redirecionados e, sobretudo, quão elevado fica o prêmio de risco necessário para compensar quem financia, transporta, assegura e intermedeia petróleo e derivados na região do Golfo.
Hoje, o preço do Brent rondando a casa dos US$ 63, US$ 64, com o WTI perto de US$ 59, US$ 60, diz menos sobre uma escassez física de barris e mais sobre a reprecificação do risco de cauda: não é que o mercado “acredite” que Ormuz será fechado, mas precisa ser pago para carregar a possibilidade de, numa madrugada qualquer, um incidente militar, um ataque a navios civis ou um movimento mais agressivo da Guarda Revolucionária transformarem um problema doméstico iraniano num choque global de oferta.
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É por isso que a volatilidade implícita nas opções de petróleo sobe mais rápido que o preço à vista; é por isso que os spreads(diferenças de taxas) entre contratos curtos e longos respiram conforme cada notícia e é por isso que quem opera derivativos em energia volta a olhar para o Irã quase como olhava para o Golfo nos anos 80: um risco que se “paga” em prêmio, não uma mera nota de rodapé geopolítica.
Ormuz: gargalo logístico e psicológico do petróleo
Nesse quadro, o Estreito de Ormuz volta à condição de gargalo psicológico e logístico. Algo como um terço do petróleo transportado por mar no mundo passa por ali e esse número, repetido à exaustão em relatórios e apresentações, não é importante pela estatística em si, mas porque condensa uma vulnerabilidade estrutural: uma via estreita, em zona de tensão, por onde passam milhões de barris diários e boa parte do gás natural liquefeito que abastece economias avançadas e emergentes.
Quando armadores, seguradoras e tradings começam a recalcular prêmios de risco, rever rotas, reescrever cláusulas de força maior e renegociar contratos de frete, o efeito vai muito além da curva de petróleo: ele contamina cadeias inteiras ligadas a shipping (envios), petroquímica, fertilizantes, grãos e qualquer outro produto que dependa de embarques na região.
Risco geopolítico, nesse caso, vira custo operacional, que vira problema de margem, que vira revisão de guidance (projeção). O investidor que olhar apenas o ticker do Brent e ignorar essa segunda e terceira derivada está, no limite, operando com um mapa incompleto.
A política norte-americana adiciona uma camada extra de ruído. A administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reeleita com discurso duro em relação ao Irã, voltou a usar sanções e tarifas como instrumentos híbridos de política externa e política industrial.
Ao ameaçar tarifas de até 25% sobre países que continuem “fazendo negócios com o Irã”, Trump amplia o raio de alcance da crise: deixa de ser um problema só entre Washington e Teerã para atingir, por tabela, parceiros comerciais importantes como Índia, China, Emirados, Turquia e, sim, o Brasil.
Brasil na linha de tiro: agro, fertilizantes e canais financeiros
Trator faz pulverização em plantação; agronegócio sofre com queda dos preços das commodities e alta dos custos dos insumos. (Imagem: Dusan Kostic em Adobe Stock)
Mais do que o efeito direto de qualquer tarifa específica, o que pesa é a incerteza regulatória: empresas, bancos e seguradoras passam a se perguntar o que ainda é permitido, o que pode gerar sanção secundária, quais operações correm o risco de ser bloqueadas e como precificar esse tipo de incerteza jurídica e reputacional. Em linguagem de mercado, isso não é apenas “risco geopolítico”; é risco de compliance(conjunto de disciplinas que mantêm o empreendimento em conformidade com leis, normas e regras), de crédito e de liquidez.
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É aqui que o Brasil entra na linha de frente de forma menos óbvia do que o senso comum supõe. De um lado, o país manteve em 2024–25 um fluxo de exportações para o Irã na casa de quase US$ 3 bilhões, com superávit expressivo e pauta concentrada em milho, soja, açúcar e farelo. Para traders e produtores brasileiros, o Irã é um cliente relevante, especialmente em milho, que responde por parcela significativa da demanda externa.
Do lado das importações, o Brasil compra pouco: o destaque são fertilizantes, em volume ainda modesto em comparação com outros fornecedores, mas politicamente sensíveis num país cuja produtividade agrícola depende fortemente desses insumos.
Em condições normais, isso seria apenas uma relação comercial pragmática: o Brasil vende alimentos, o Irã compra porque precisa alimentar sua população e manter alguma estabilidade social, e aqui, de novo, a empatia tende a ser com o lado que tenta sobreviver sob um regime sufocante, não com a cúpula que o mantém no poder.
Só que, com o novo clima em Washington, essa normalidade entrou em xeque. O país que continua vendendo alimentos ao Irã não é mais apenas um parceiro comercial, mas um potencial “alvo tarifário” na narrativa da Casa Branca.
De repente, uma tradingbrasileira que exporta milho e soja para o Golfo tem de considerar não só o risco de crédito do comprador iraniano, mas a chance de que, por causa dessa exposição, acabe enfrentando dificuldades em acessar mercado financeiro americano, sofrer restrições de bancos correspondentes ou entrar na linha de tiro de tarifas setoriais disfarçadas de “sanções”.
Para o investidor estrangeiro que olha para o Brasil como plataforma de agronegócio, esse detalhe importa: ele afeta o custo de capital, a flexibilidade de financiamento e até a percepção de risco-país em alguns nichos mais regulados.
Petrobras: upside do petróleo caro vs risco de intervenção
Ao mesmo tempo, a crise iraniana reforça o papel do Brasil como fornecedor relevante de energia e commodities num mundo em que o barril volta a carregar prêmio geopolítico. Se o petróleo passa a negociar estruturalmente acima da faixa de conforto dos 60 dólares, o caixa de empresas como Petrobras (PETR3; PETR4) e produtores independentes melhora, os projetos de exploração se tornam mais atraentes e a tese de Brasil como “hedge parcial” (proteção contra volatilidade) para choques de oferta no Oriente Médio ganha força.
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Só que essa moeda tem duas faces: preços altos de petróleo e derivados, se não forem bem geridos, repercutem em inflação, pressão sobre combustíveis domésticos e tentação política de intervir em preços.
Para o acionista, isso significa que o upside (potencial de ganho) operacional traz embutido um risco de intervenção que o mercado brasileiro conhece bem. O investidor sofisticado precisa separar o que é benefício estrutural – melhor termos de troca, maior relevância na Opep+ ampliada, espaço para investimentos em exploração – do que é ruído político conjuntural que pode corroer parte desse valor via controles de preços, subsídios cruzados ou mudanças de governança.
No curto prazo, os efeitos da crise tendem a aparecer de forma mais visível em três frentes: bolsa de valores, câmbio/juros e crédito corporativo. Na bolsa, papéis ligados a óleo e gás, logística, agronegócio exportador, fertilizantes e shippingganham volatilidade extra: podem se beneficiar da alta de preços internacionais, mas carregam o risco de serem punidos se a retórica americana em relação ao Irã e aos seus parceiros subir de tom.
É o tipo de cenário em que não basta saber “quem ganha com o petróleo caro”; é preciso entender quem tem exposição direta ou indireta ao Golfo, a bancos internacionais mais avessos a sancionados e à própria teia de sanções secundárias.
Efeito da crise iraniana sobre juros e câmbio no Brasil
Na curva de juros e no câmbio, petróleo mais caro e prêmio de risco global elevado costumam pressionar expectativas de inflação, o que tende a se traduzir em juros futuros mais altos e em momentos de aversão a risco que enfraquecem moedas emergentes, inclusive o real.
Para quem faz gestão ativa, isso abre janelas de trade em Depósito Interbancário (DI), em inclinação de curva e em posições táticas em dólar; para quem carrega posição mais estrutural, exige pelo menos um teste de estresse: o que acontece com o portfólio se o barril tiver uma alta forte por causa de um incidente no Golfo?
No crédito corporativo, a conta chega em forma de custo de capital maior para empresas intensivas em transporte marítimo, em insumos importados da região ou em financiamento em dólares via bancos internacionais sensíveis a sanções. A revisão de risco pode bater antes no spread do bond (título) do que no fluxo de caixa corrente, justamente porque o mercado antecipa a possibilidade de travas regulatórias, seguradoras recuando, bancos apertando condições ou encurtando prazo.
Para o investidor brasileiro, isso significa olhar com mais cuidado para empresas que dependam de fertilizantes, de rotas marítimas que passem pelo entorno de Ormuz ou de bancos correspondentes que possam se tornar mais conservadores em relação a qualquer coisa com a palavra “Irã” no radar.
O que monitorar nas próximas semanas
No fim das contas, a crise iraniana de 2025–26 faz mais do que mexer na curva de petróleo; ela reintroduz na agenda algo que o mercado vinha tentando empurrar para o rodapé: o fato de que energia continua sendo o elo mais sensível entre geopolítica e preços de ativos.
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Para o Brasil, isso é ao mesmo tempo oportunidade e armadilha. Oportunidade porque o País tem ativos de energia, agro e mineração que se beneficiam de um mundo mais tenso e mais caro em commodities; armadilha porque a proximidade comercial com o Irã, a necessidade de fertilizantes e a exposição ao humor de Washington tornam o País vulnerável a choques que vão muito além do que a distância geográfica sugeriria.
Para o investidor, a mensagem é simples: a crise do Irã não é “um problema lá longe”, mas um componente novo do prêmio de risco que vai influenciar o preço da gasolina, o guidance das exportadoras, o spreaddos bonds corporativos e o humor do mercado em relação ao Brasil nos próximos meses.
Ignorar isso é operar como se o Estreito de Ormuz ficasse em outro planeta e como se a coragem de uma população exausta, disposta a enfrentar um regime autoritário para tentar redesenhar o próprio destino, não tivesse nenhuma consequência concreta na forma como o mercado precifica risco e oportunidade.