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Educação Financeira

Volta às aulas mais cara: como ensinar educação financeira às crianças e proteger o bolso da família

Estudo mostra que gastos com educação avançaram quase 40% em cinco anos, acima do IPCA, pressionando famílias logo no início do ano

Por Isabela Ortiz

31/01/2026 | 5:30 Atualização: 30/01/2026 | 15:58

Com reajustes concentrados no início do ano, gastos com material escolar, livros e mensalidades pressionam o orçamento das famílias acima da inflação oficial. (Foto: Adobe Stock)
Com reajustes concentrados no início do ano, gastos com material escolar, livros e mensalidades pressionam o orçamento das famílias acima da inflação oficial. (Foto: Adobe Stock)

A volta às aulas sempre foi sinônimo de aperto no orçamento mas, nos últimos anos, esse peso aumentou de forma silenciosa e persistente. Em 2025, enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 4,26%, a chamada cesta de volta às aulas subiu 5,32%, segundo um levantamento da Rico. No horizonte mais longo, o descompasso fica anda mais evidente, em cinco anos, os custos ligados à educação avançaram quase 40%, acima da inflação média do período.

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“A volta às aulas representa, historicamente, um dos momentos de maior pressão sobre o orçamento das famílias brasileiras”, afirma Harion Camargo, planejador financeiro CFP pela Planejar. Segundo ele, parte dessa pressão vem de características estruturais desses gastos, que vão além da inflação geral.

O estudo da Rico mostra que, de 2021 a 2025, a cesta de volta às aulas subiu 39,34%, contra 33,13% do IPCA. Em termos práticos, um conjunto de gastos que custava R$ 1.000,00 há cinco anos hoje sai por cerca de R$ 1.393,00. Segundo Maria Giulia Figueiredo, analista de research da Rico, o impacto é sentido logo no início do ano. “É hora de montar a lista, ajustar o orçamento e lidar com aquele dilema anual: tudo parece estar mais caro”, afirma.

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Essa diferença acontece porque os preços ligados à educação não sobem de forma homogênea. Parte relevante dos itens escolares depende de matérias-primas sensíveis a oscilações de mercado, como papel, plástico e tecidos, além de insumos importados. Já as mensalidades escolares concentram reajustes no começo do ano letivo, refletindo custos próprios do setor, como salários, tecnologia e infraestrutura.

Material, livros e uniforme: o impacto começa na mochila

Entre os gastos mais imediatos estão papelaria, livros e uniformes, normalmente comprados de forma concentrada em janeiro. Em 2025, a papelaria teve alta moderada, de 2,39%, abaixo do IPCA. Ainda assim, no acumulado de cinco anos, a inflação da categoria chega a quase 40%.

Nos livros, a diferença é ainda mais evidente. Enquanto os didáticos subiram 4,47% em 2025, os não didáticos avançaram 6,32% no ano e quase 52% em cinco anos. Na prática, isso significa que R$ 100 gastos com livros não didáticos em 2021 hoje equivalem a cerca de R$ 152.

O uniforme escolar segue a mesma lógica: embora pareça um gasto pontual, acumula alta próxima de 40% em cinco anos. Como a compra costuma acontecer de uma vez, o impacto no orçamento é imediato.

Porém, se o material escolar dói no curto prazo, as mensalidades são o principal fator de pressão contínua. Em 2025, os reajustes ficaram acima da inflação em praticamente todos os níveis de ensino, com destaque para o ensino fundamental, que acumula alta de 49,35% desde 2021. Uma mensalidade de R$ 1.000 há cinco anos hoje estaria próxima de R$ 1.493, apenas considerando os percentuais médios do estudo.

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Esse tipo de gasto, segundo especialistas, costuma ser subestimado no planejamento familiar. “Um dos erros mais comuns é tratar essas despesas como eventos pontuais, quando, na verdade, são previsíveis e recorrentes”, alerta Harion Camargo.

Como atravessar a volta às aulas sem endividamento

Diante desse cenário, planejamento deixa de ser discurso e vira necessidade prática. A educadora financeira Thaisa Durso, da Rico, destaca que o primeiro passo é entender exatamente para onde vai o dinheiro.

“Antes de traçar qualquer plano, é essencial ter clareza sobre a situação financeira real”, afirma. Isso inclui mapear receitas, despesas fixas, gastos variáveis e compromissos previsíveis do início do ano.

Outro ponto central é olhar além de janeiro. “O planejamento precisa ser contínuo. Planilhas, aplicativos ou registros simples ajudam a acompanhar entradas e saídas e evitam decisões por impulso”, diz Durso.

Pagar à vista ou parcelar?

Para Durso, o problema não está necessariamente em parcelar, mas em parcelar sem critério. “A decisão entre pagar à vista ou parcelar deve considerar planejamento financeiro, preservação de liquidez e custo de oportunidade”, explica.

Segundo ela, quando há desconto relevante e sobra de caixa, o pagamento à vista tende a ser mais eficiente. Já o parcelamento pode funcionar como ferramenta de organização, desde que não envolva juros elevados e caiba confortavelmente no orçamento.

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O perigo surge quando o crédito vira solução automática.

“O problema aparece quando o parcelamento é usado sem planejamento, especialmente em modalidades de crédito com juros altos, o que pode gerar um ciclo de endividamento”, alerta Harion Camargo.

Em muitos casos, a família compromete a renda de vários meses para pagar despesas que já ficaram mais caras na origem.

Uma forma de reduzir esse risco, segundo os especialistas, é diluir os custos ao longo do ano anterior.

Reservar mensalmente valores específicos para despesas previsíveis (como impostos e volta às aulas) em aplicações de alta liquidez ajuda a transformar um pico de gastos em um processo mais controlável. “Um planejamento financeiro mais eficiente dilui essas despesas ao longo dos meses, reduzindo a necessidade de endividamento e trazendo maior previsibilidade ao orçamento doméstico”, resume Camargo.

Ensinando os pequenos

Se a volta às aulas pressiona o orçamento no curto prazo, ela também pode ser o ponto de partida para formar uma relação mais saudável das crianças com o dinheiro. Dados do Inter mostram que o interesse por educação financeira na infância cresce de forma consistente: as contas Kids e jovens do banco avançam, em média, 31,8% ao ano e já somam mais de 3,2 milhões de clientes.

Entre crianças e adolescentes, os produtos mais utilizados são poupança, Certificado de Depósito Bancário (CDB) e Letra de Crédito Imobiliário (LCI), um indicativo de que muitas famílias estão aproveitando o momento para introduzir conceitos como poupar, planejar e investir desde cedo. Na prática, isso ajuda a transformar gastos inevitáveis, como material escolar e uniforme, em oportunidades de aprendizado sobre escolhas, prioridades e disciplina financeira.

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Essa lógica dialoga com uma tendência mais ampla observada no mercado global. Segundo o estudo Charting Disruption 2026, da Global X em parceria com a Bloomberg Media Studios, investidores institucionais entram em 2026 menos focados em previsões de curto prazo e mais atentos a estratégias estruturais, com horizonte de longo prazo e visibilidade de demanda.

O levantamento aponta uma migração de capital para temas como infraestrutura, energia e tecnologia estratégica, setores que exigem planejamento, constância e visão de futuro, os mesmos princípios ensinados na educação financeira desde a infância.

Para ilustrar o impacto do hábito de poupar, o Inter realizou simulações simples: aplicações mensais de R$ 25 em um CDB podem resultar em cerca de R$ 19 mil ao longo de 18 anos; com R$ 50, o valor sobe para aproximadamente R$ 38 mil; e, com R$ 100 por mês, o montante pode chegar a R$ 76 mil. Recursos que, no futuro, podem financiar estudos, intercâmbios, cursos ou os primeiros projetos de vida dos jovens.

“Quanto mais cedo as crianças e adolescentes começam a conhecer o universo financeiro, mais fácil é criar hábitos de poupar, planejar, investir e gerenciar o próprio dinheiro”, afirma Priscila Salles, diretora-executiva de Clientes do Inter.

Segundo ela, envolver os filhos no acompanhamento da conta, na definição de objetivos e no uso consciente do dinheiro ajuda a tornar a educação financeira mais concreta e presente no dia a dia.

O aprendizado precoce também ajuda a preparar os jovens para um ambiente econômico mais complexo. O estudo da Global X destaca que, em um cenário de juros elevados, inflação persistente e maior volatilidade política, decisões financeiras bem estruturadas e diversificação se tornam ainda mais importantes ao longo da vida.

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Ao participar das decisões, desde comparar preços do material escolar até entender por que poupar hoje pode significar mais opções no futuro, crianças e adolescentes passam a compreender que o dinheiro é um recurso limitado e estratégico. Esse aprendizado prático contribui para formar consumidores mais conscientes agora e investidores mais preparados ao longo da vida.

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