Vale reporta trimestre com operação resiliente, mas pressão de custos e dívida maior após dividendos chamam atenção do mercado (Foto: Adobe Stock)
A Vale (VALE3) divulgou seus resultados do primeiro trimestre de 2026 (1T26) com números que dividiram as leituras do mercado financeiro entre a resiliência operacional e a pressão de custos. Embora o desempenho tenha vindo próximo das expectativas em receita e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda), os analistas chamaram atenção para o avanço dos custos do minério de ferro e para o aumento da dívida líquida após o pagamento de dividendos.
A empresa tem recomendação neutra pela XP Investimentos, com preço-alvo de R$ 85 por ação, levemente abaixo da cotação atual de R$ 85,50, o que implica um potencial de queda de 1%. A mineradora possui valor de mercado de R$ 379,5 bilhões, 4,439 bilhões de ações emitidas, free float (parcela dos papéis disponíveis para negociação na Bolsa de Valores) de 62% e volume médio diário negociado de R$ 1,58 bilhão.
A análise do Citi sobre os resultados da Vale no 1T26 adota uma visão mais otimista, mantendo a recomendação de compra para a companhia, com preço-alvo de US$ 18 para o American Depositary Receipt (ADR, recibos emitidos nos EUA que permitem a investidores de lá comprar ações de empresas estrangeiras) negociado na Bolsa de Nova York.
Já o Itaú BBA avaliou como ligeiramente negativo o resultado da companhia. O desempenho abaixo do esperado foi puxado pela divisão de metais básicos, refletindo impacto negativo na precificação provisória (PPA) e um desempenho de custos ligeiramente inferior.
O banco também registrou geração de fluxo de caixa livre de US$ 813 milhões no primeiro trimestre de 2026, abaixo de US$ 1,7 bilhão no quarto trimestre de 2025, atribuída principalmente a resultados operacionais mais fracos e maior necessidade de capital de giro. Apesar do fluxo de caixa livre positivo, desembolsos de US$ 2,8 bilhões com dividendos e recompras elevaram a dívida líquida para US$ 17,8 bilhões, ante US$ 15,6 bilhões no quarto trimestre de 2025, ainda dentro da faixa-alvo da companhia de US$ 10 bilhões a US$ 20 bilhões.
Metais básicos surpreendem e reforçam tese de diversificação
Para João Daronco, analista CNPI da Suno Research, o trimestre reforça a tese estrutural de diversificação da companhia. Segundo ele, a grande surpresa positiva veio da divisão de metais básicos, que “praticamente sobrou seu Ebitda e finalmente colhe os frutos das iniciativas de otimização de ativos iniciadas nos últimos anos”.
A mineradora registrou receita líquida de US$ 9,3 bilhões no trimestre, alta de 14% na comparação anual, enquanto o Ebitda proforma somou US$ 3,9 bilhões, avanço de 21% em um ano, com margem de 42%. O lucro líquido proforma chegou a US$ 1,9 bilhão, crescimento de 29%, e a geração de caixa livre recorrente alcançou US$ 813 milhões, salto de 61%, impulsionada pela melhora operacional e por menores impostos pagos.
Veja aqui os números completos do balanço da Vale no primeiro trimestre.
Na avaliação da XP, os resultados vieram “marginalmente mais fracos do que esperado”, com Ebitda ajustado 3% abaixo do consenso do mercado financeiro. A casa destacou que, após a divulgação prévia dos dados operacionais, o principal foco do mercado se voltou para os custos.
“A pressão de custos superou os ganhos com preços e estratégia comercial”, resumiram os analistas da XP ao afirmar que os ventos contrários nos custos acabaram ofuscando os efeitos positivos dos preços mais elevados das commodities e da estratégia comercial da companhia.
Cobre brilha e subprodutos impulsionam rentabilidade
Ainda assim, a XP ressaltou pontos positivos relevantes, especialmente na operação de metais para transição energética. O Ebitda da divisão de metais básicos alcançou US$ 1,2 bilhão, alta de 116% na comparação anual. O cobre foi um dos destaques do trimestre.
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Segundo Daronco, o segmento entregou US$ 949 milhões de Ebitda, avanço de 74%, beneficiado pelos preços mais altos do metal e também pelas fortes receitas com subprodutos, especialmente ouro. Os custos all-in – que somam o que é necessário para produzir e entregar os minerais – chegaram a menos US$ 642 por tonelada, o que, segundo o analista, significa que “a operação está praticamente sendo paga pelos subprodutos” – por isso o sinal negativo.
A XP também classificou como “forte” o desempenho da divisão de cobre, impulsionado pelos preços favoráveis do metal e do ouro. Apesar disso, ponderou que parte dos ganhos foi compensada por efeitos negativos de preços provisórios.
No níquel, a melhora operacional também chamou atenção. A Suno destacou um Ebitda de US$ 277 milhões, alta de 576% em um ano, com queda de 48% nos custos all-in, refletindo ganhos de eficiência em operações como Voisey’s Bay e Long Harbour.
XP afirmou que o desempenho do níquel ficou “substancialmente melhor” na comparação anual, apoiado justamente pelas melhorias de custo e maiores receitas com subprodutos. Já o Citi teve uma leitura mais cautelosa e avaliou que o segmento ficou “um pouco aquém” das projeções, sobretudo em vendas e receitas com subprodutos.
Minério de ferro mostra resiliência, apesar do câmbio
Pelotas de taconita de minério de ferro na mão de um trabalhador da mineração. (Imagem: ihorbondarenko em Adobe Stock)
No minério de ferro, principal negócio da companhia, os resultados foram vistos como resilientes, embora pressionados pelo câmbio. O Ebitda da divisão ficou em US$ 2,9 bilhões, praticamente estável em relação ao mesmo período do ano passado. A receita cresceu 8%, apoiada por melhores preços realizados e por uma estratégia de dar prioridade a produtos de maior margem.
Daronco destacou o crescimento expressivo das vendas de produtos premium, como Mid-Grade Carajás e PFC, enquanto os produtos de maior teor de sílica perderam espaço. Para ele, isso evidencia “execução estratégica clara do portfólio”.
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O principal ponto de atenção do trimestre ficou concentrado justamente nos custos da operação de minério. O custo caixa C1 (custo direto de produção por tonelada) subiu para US$ 23,6 por tonelada, alta de 12% em um ano, pressionado principalmente pela valorização do real frente ao dólar.
A própria Vale indicou que os custos devem caminhar para o teto superior do guidance (projeção) de 2026. A XP afirmou que os níveis atuais de câmbio e petróleo já sugerem uma premissa mais próxima do limite superior da faixa de US$ 20 a US$ 21,5 por tonelada.
O Citi também avaliou que os custos foram o principal fator por trás do desempenho abaixo das expectativas. Para o banco, o Ebitda ajustado de US$ 3,8 bilhões veio abaixo da estimativa de US$ 4,1 bilhões justamente devido à pressão de custos.
Dívida sobe, mas alavancagem ainda está ‘confortável’
Outro ponto monitorado pelo mercado foi a dívida líquida expandida, que subiu para US$ 17,8 bilhões ao fim de março, ante US$ 15,6 bilhões no encerramento de 2025. Tanto a Suno quanto XP e Citi atribuíram o movimento principalmente ao pagamento de dividendos e juros sobre capital próprio (JCP) no trimestre.
Segundo Daronco, a alavancagem permanece confortável, com relação dívida líquida/Ebitda de 0,8 vez e cobertura de juros de 15,8 vezes. Ainda assim, ele pondera que o teto de US$ 20 bilhões de dívida líquida expandida ganha relevância na discussão sobre dividendos extraordinários daqui para frente.
Consequências do balanço
Na visão da XP Investimentos, embora o valuation (valor do ativo) limite um potencial maior de valorização das ações no curto prazo, a empresa ainda parece relativamente mais atrativa que pares globais, sobretudo em momentos de fluxo estrangeiro para ações brasileiras.
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No after hours da bolsa de Nova York, ontem (28), os ADRs da Vale (VALE3) recuaram 1,55%, registrando a maior queda entre as empresas brasileiras negociadas no exterior. O movimento refletiu as primeiras impressões dos investidores estrangeiros sobre os resultados do 1T26. Agora, nesta quarta-feira (29), o ticker da companhia recua 2,32% no valor de R$ 82,50, às 10h20.