Para entender o problema, vale olhar primeiro para a prática. A operação de basis, na essência, é uma arbitragem entre o contrato futuro de título do Tesouro americano e o título à vista equivalente. Fundos multimercado e outros veículos alavancados compram o papel no mercado à vista, vendem o futuro e financiam a posição por meio de operações compromissadas, os acordos de recompra. Na teoria, é uma estratégia de baixa margem e baixo risco, que explora pequenas distorções de preço entre os dois instrumentos. Na prática, com múltiplas vezes o capital em alavancagem, essas pequenas distorções viram um motor de rendimento de carrego em escala trilionária.
Com o tempo, esse tipo de arbitragem deixou de ser um nicho de fundos sofisticados para se tornar parte da infraestrutura funcional do mercado de títulos do Tesouro dos EUA. Quando um investidor institucional prefere operar contratos futuros em vez de comprar o título físico, é muitas vezes esse ecossistema de operações de basis que faz a ponte, transformando demanda por derivativos em liquidez para papéis menos líquidos, fora das últimas emissões. O resultado é um mercado aparentemente mais profundo, com spreads de compra e venda menores e formação de preços mais fluida ao longo da curva americana.
O ponto subestimado é o quanto essa liquidez é condicional. Ela depende de três pilares que, em situações de estresse, podem balançar ao mesmo tempo: alavancagem barata, financiamento de curto prazo via operações compromissadas e pleno funcionamento das engrenagens de compensação e de chamadas de margem. Quando tudo está calmo, a operação de basis funciona como um lubrificante. Quando há choque de tarifas, surpresa inflacionária ou reprecificação abrupta do prêmio de prazo nos títulos do Tesouro, o que era lubrificante vira combustível de incêndio. Posições concentradas são chamadas a aportar mais margem, o financiamento aperta, a alavancagem precisa ser reduzida à força. O desmonte simultâneo dessas posições amplifica a volatilidade justamente no ativo que o mundo trata como porto seguro.
Esse efeito não fica confinado às mesas de renda fixa em Nova York. Os juros dos títulos do Tesouro americano são a âncora dos fluxos de desconto globais. Quando esse mercado soberano entra em modo de disfuncionalidade, o choque reverbera rapidamente em curvas de swap, spreads de crédito, financiamento em dólar fora dos Estados Unidos, dívidas locais em mercados emergentes e ativos de risco em geral. Em outras palavras, o que parece um tema de microestrutura passa a ser um fator macro global em questão de dias.
As autoridades regulatórias não estão indiferentes a isso. Depois de episódios recentes de estresse, ganhou força a ideia de que o mercado de títulos do Tesouro, pela sua centralidade sistêmica, não pode depender tanto de alavancagem escondida em carteiras de fundos e em estruturas de financiamento pouco transparentes. A resposta vem na forma de um empurrão regulatório rumo à centralização. Entre 2026 e 2027, novas regras devem levar uma parcela bem maior das operações à vista e das operações compromissadas com títulos do Tesouro para plataformas com compensação centralizada, com exigências de margem e gestão de risco mais rígidas.
À primeira vista, isso parece apenas um reforço prudencial. Mas o impacto potencial é mais profundo. Ao mudar quem precisa depositar margem, como são calculados os descontos (haircuts), quem consegue usar o próprio balanço para intermediar essas operações, a economia da operação de basis se altera. Parte das estratégias que hoje fazem sentido pode deixar de ser economicamente viável. Intermediários menores podem ser empurrados para fora. O perfil de quem fornece liquidez marginal em momentos de estresse pode mudar de forma estrutural.
Tudo isso acontece ao mesmo tempo em que o governo americano convive com déficits elevados e um estoque de dívida crescente, emitido a taxas mais altas do que na década passada. A conta de juros sobe, o Tesouro precisa rolar volumes maiores num ambiente em que o círculo virtuoso de liquidez pode estar se tornando menos estável. Se a arbitragem entre título e futuro perde tração, se a liquidez marginal fica mais cara ou mais seletiva, a consequência óbvia é um prêmio de prazo potencialmente mais alto exigido pelos investidores para carregar títulos longos do Tesouro.
Para quem olha o mundo pela lente macro tradicional, é tentador reduzir o debate sobre a curva americana à combinação de política monetária, trajetória fiscal e apetite estrangeiro por títulos do Tesouro. Esses fatores continuam centrais, mas já não bastam. A forma como o mercado é estruturado, quem segura a liquidez na ponta, quanta alavancagem está embutida nas operações de arbitragem e como as regras de compensação vão evoluir são peças do mesmo quebra-cabeça. Ignorar isso é um luxo em um sistema em que a microestrutura pode virar gatilho de crise.
Do ponto de vista do investidor global, o tema abre dois campos de reflexão. O primeiro é defensivo: entender como choques de liquidez em títulos do Tesouro americano se propagam para ativos que, em tese, parecem mais distantes, como dívidas locais em emergentes, bolsas de países periféricos ou instrumentos de crédito corporativo de maior risco. O segundo é ofensivo: mapear quem ganha e quem perde em um cenário de maior transparência, maior custo de alavancagem e menor tolerância ao risco escondido na intermediação financeira paralela ligada ao mercado soberano americano.
O paradoxo é que, apesar desse potencial transformador, o assunto ainda vive num semi-subsolo do debate público. Relatórios de bancos centrais, artigos acadêmicos e cartas mais técnicas de gestores começam a tratar do tema, mas a conversa predominante continua presa a narrativas mais simples sobre o Federal Reserve, inflação e eleições. Para quem trabalha com macro, finanças internacionais ou política econômica, há aí uma oportunidade de ir além do óbvio.
Em um mundo que continua ancorado no dólar e nos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, a maneira como esse mercado é construído e regulado é parte essencial da história, não rodapé. A interação entre dívida pública crescente, custos de juros mais altos e uma arquitetura de mercado em mutação deve acompanhar o investidor atento pelos próximos anos. Não é exagero dizer que, em 2026, entender a operação de basis e a microestrutura dos títulos do Tesouro americano é quase tão importante quanto entender o próprio Federal Reserve. E, curiosamente, ainda é um dos temas mais subestimados da agenda global.