Na prática, o balanço da Telefônica Brasil agradou porque mostrou uma Vivo que transforma crescimento em dinheiro no caixa. A companhia avançou no móvel, com o pós-pago liderando as vendas, manteve margens elevadas e ainda apertou os gastos com investimentos e arrendamentos. O resultado da Vivo no 4T25 foi um fluxo de caixa operacional mais de 30% maior em um ano. Ao mesmo tempo, fibra e serviços digitais seguem ganhando espaço no negócio. No pregão, a leitura positiva se refletiu nos preços. As ações da companhia subiram cerca de 3% no Ibovespa, após a divulgação dos números.
“O olhar do mercado melhora. No geral, já era positivo, mas melhora mais um pouco. O grande destaque é a fase atual como o melhor momento operacional da história da empresa. A gestão está focada em eficiências estruturais para sustentar margens, incluindo redução de custos de call center e aumento do uso de IA”, avalia Enrico Cozzolino, CEO da Zermatt Partners.
A operadora fechou o 4T25 com lucro líquido de R$ 1,88 bilhão, crescimento de 6,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado operacional medido pelo lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) somou R$ 6,70 bilhões, avanço de 8,1%. O mercado esperava lucro de R$ 1,73 bilhão e Ebitda de R$ 6,35 bilhões, segundo a média de estimativas da LSEG.
A receita líquida chegou a R$ 15,61 bilhões, alta de 7,1% na comparação anual. A empresa atribui o crescimento ao desempenho dos serviços pós-pagos, da fibra e dos serviços corporativos de dados, tecnologia da informação (TI) e digitais. Dentro desse conjunto, a receita de serviços móveis avançou 7%, para R$ 9,84 bilhões, enquanto a de serviços de rede fixa cresceu 5,4%, para R$ 4,43 bilhões.
Telefônica: Safra vê força no negócio; Citi e BBA adotam tom mais cauteloso
Para o Banco Safra, o trimestre da Telefônica Brasil confirma um momento operacional favorável. Os analistas da instituição financeira chamam atenção para a aceleração da receita de serviços de telecomunicações, que cresceu 7% em um ano, e para o Ebitda 8% maior, sustentado tanto pela expansão da receita quanto pelo controle de custos. Em relatório, o Safra diz que a queda de 3,9% na receita de pré-pago está ligada à migração dos clientes para planos de controle, ainda que em ritmo mais lento do que nos trimestres anteriores, apoiado por maior frequência de recargas.
Com o balanço financeiro em mãos, os estrategistas também veem resultados na estratégia de convergência da companhia. O pacote Vivo Total, que reúne serviços fixos e móveis, avançou 40,9% em base anual. No segmento corporativo, as receitas de dados, TI e serviços digitais cresceram 10,2%, reforçando o movimento de diversificação da empresa para além da conectividade tradicional. No resultado financeiro, a menor alíquota efetiva de impostos ajudou a compensar parcialmente o aumento das despesas financeiras, que quase dobraram e atingiram R$ 664 milhões.
No Citi, a leitura foi mais equilibrada. Os analistas afirmam que o Ebitda ficou em linha com as projeções, enquanto o fluxo de caixa livre destinado aos acionistas veio abaixo do esperado. Do lado operacional, o Citi avalia de forma positiva o crescimento de 9% da receita do pós-pago, com adição de 930 mil clientes e aumento da receita média por usuário. Assim como o Safra, o Citi também ficou de olho no avanço do Vivo Total e na adição de 197 mil clientes de fibra no trimestre. A ressalva fica para a pressão sobre a receita média da banda larga, que recuou 2% em um ano.
Para o BTG Pactual, os números vieram exatamente dentro do que o mercado esperava. A leitura do banco é de que o avanço do trimestre veio, principalmente, dos serviços móveis, enquanto a área de telefonia fixa teve um desempenho mais fraco e acabou segurando parte desse crescimento. Já o Itaú BBA classificou o balanço como neutro e dentro do que já estava no radar. Os analistas projetam que, a partir de agora, o mercado tende a olhar de perto para a capacidade de a empresa de gerar caixa e para o quanto ela ainda pode ampliar a distribuição de recursos aos acionistas em 2026.
Entre os pontos que decepcionaram, a telefonia fixa ficou abaixo do esperado, avalia Carol Sanchez, analista da Levante Inside Corp. A base de clientes de fibra, diz ela, continua crescendo, mas a receita média por usuário (Arpu) segue em queda, sinal de que a concorrência ainda pressiona os preços no segmento. “O desafio continua sendo monetizar melhor essa expansão da fibra e manter o equilíbrio entre crescimento de base e rentabilidade”, diz.
“A telefonia fixa segue sendo o calcanhar de Aquiles silencioso. O crescimento da receita foi impulsionado pela MSR [Mobile Service Revenue, ou receita de serviços móveis], mas parcialmente compensado por um desempenho mais fraco em telefonia fixa, uma linha que não para de encolher e que exige cada vez mais compensação via fibra e B2B [business to business, serviços voltados a empresas], completa Alexandre Abu-Jamra, CEO da Klooks.
O que esperar do 1T26 e a recomendação dos analistas
Para Abu-Jamra, o primeiro trimestre deste ano (1T26 da Telefônica Brasil) tende a ser naturalmente mais fraco por causa da sazonalidade. Ele afirma que a questão não é se a Vivo vai desacelerar – isso é esperado – mas se a base de clientes convergentes já está grande e madura o suficiente para reduzir o impacto dessa queda.
“Os dois sinais que mais importam: primeiro, o guidance de capex para 2026, porque a queda de 4% no capex deste trimestre pode significar maturidade da infraestrutura ou postergação de investimento, e essa distinção importa muito. Segundo, qualquer comentário sobre M&A [fusões e aquisições] em fibra. A Vivo desistiu da Desktop no 3T25, mas reafirmou apetite por aquisições complementares. Se uma nova operação aparecer, muda toda a dinâmica de alocação de capital”, explica.
Um destaque que chamou atenção entre os analistas foi o novo programa de recompra de ações da Telefônica, de até R$ 1 bilhão e válido até fevereiro de 2027. O Citi vê a recompra como um sinal positivo natural, enquanto o Safra avalia que reforça o compromisso da companhia com o retorno ao investidor.
O Safra mantém recomendação de compra para as ações da Telefônica, com preço-alvo de R$ 42 para os próximos 12 meses, um potencial de alta de 3,19% em relação ao fechamento anterior, apoiado na posição competitiva da empresa, na geração de caixa e nos dividendos atrativos. A recomendação do Citi segue neutra, com preço-alvo de R$ 34. O Itaú BBA, por sua vez, tem recomendação market peform, ou seja, projeta que a ação deve ter um desempenho em linha com o mercado. O preço-alvo do BBA é R$ 35,50.
“Quem compra hoje está pagando um prêmio em cima de um papel que subiu 24% no ano. O dividend yield projetado cai para a faixa de 6,4%, não mais os 8% que eram a tese original há seis meses. O papel ainda é bom, mas está deixando de ser ‘barato com dividendo gordo’ para se tornar ‘justo com dividendo decente’. São investimentos diferentes, para perfis de risco diferentes”, analisa Abu-Jamra.
“De modo geral, seguimos construtivos com a tese, visto que a Telefônica Vivo continua mostrando previsibilidade, geração de caixa forte e um perfil mais defensivo dentro da bolsa, com boa distribuição de dividendos. É uma empresa que segue bem posicionada no setor e com fundamentos sólidos”, pontua Sanchez.