Queda do dólar reflete combinação de fatores globais e domésticos, com fluxo externo, commodities e juros favorecendo o real em 2026. (Foto: Adobe Stock)
A trajetória recente do câmbio no Brasil ajuda a responder o que move o dólar, que bateu mínima recordes aos R$ 4,97. Entre a “tempestade perfeita” de 2024 e a força do real em 2026, o câmbio reflete uma combinação de fatores globais, domésticos e, sobretudo, uma mudança relevante da dinâmica internacional.
De acordo com a XP Investimentos, o ponto de partida para entender o dólar começa na relação de oferta e demanda. “Quanto mais gente querendo comprar real e vender dólar, mais o real se valoriza e o contrário também é verdadeiro”, explica o relatório. Vale ressaltar que a equação é influenciada por uma série de variáveis que vão do comércio exterior ao risco político.
Como grande exportador de commodities, o Brasil se beneficia diretamente da alta de preços de produtos como petróleo, soja e minério de ferro. Quando esses itens sobem no mercado global, há maior entrada de dólares no País, fortalecendo o real. Esse mecanismo ajuda a explicar por que, em momentos de valorização das commodities, a moeda brasileira tende a ganhar força.
Além disso, o juros também é um diferencial. Taxas mais elevadas no Brasil em comparação a outras economias, aumentam a atratividade dos ativos locais. Esse movimento atrai capital estrangeiro e contribui a para a valorização cambial. Ainda assim, a XP ressalta que juros, isoladamente, não contam toda a história.
“Elementos como estabilidade institucional, previsibilidade jurídica e risco fiscal também são determinantes na decisão de alocação de capital”, ressalta a casa.
Cenário político e fiscal sensibilizam o câmbio
Como qualquer ativo financeiro, a moeda incorpora risco. Incertezas sobre dívida pública, regras fiscais ou o ambiente político tendem a pressionar o dólar para cima, ao exigir maior retorno dos investidores. Não por acaso, a deterioração fiscal foi, segundo a XP, a “cereja do bolo” para a forte desvalorização do real em 2024.
Naquele ano, o câmbio viveu uma tempestade perfeita. O real se depreciou cerca de 25%, saindo de R$ 4,90 para amis de R$ 6,20 por dólar. A alta foi impulsionada por juros elevados nos Estados Unidos, frustração com cortes pelo Federal Reserve (o BC dos EUA), mudanças no Japão que desmontaram operações de carry trade(pegar dinheiro emprestado a baixas taxas de juros para investi-lo em ativos de alta rentabilidade, lucrando com o diferencial) e, no Brasil, aumento da percepção de risco fiscal. A combinação desses fatores colocou a moeda brasileira entre as piores performances entre emergentes.
2025 foi a virada de chave para que 2026 alavancasse
Em vez de fatores domésticos, foram os ventos globais que passaram a ditar o ritmo naquele ano. A políticaeconômica errática dos EUA levou a um questionamento do papel do dólar como porto seguro. O Brasil emergiu como um “beneficiário coletivo”, atraindo fluxo estrangeiro e fortalecendo sua moeda.
Em 2026, essa dinâmica se intensificou. Mesmo com tensões geopolíticas, como os conflitos no Oriente Médio, o real ganhou força e chegou ao R$ 4,97, o menor nível desde 2024. A XP destaca que o País tem sido visto como “vencedor líquido” do choque do petróleo – barril rondando os US$ 100 e acumulando alta superior a 60% em 2026 – já que o aumento das exportações energéticas melhora os termos de troca e reforça o fluxo cambial positivo.
XP projeta dólar acima de R$ 5,00 até o fim do ano
Apesar do cenário favorável, o futuro do dólar ainda carrega incerteza. A própria XP projeta a moeda em torno de R$ 5,30 no fim do ano, com viés de baixa, mas alerta que fatores domésticos devem ganhar protagonismo, especialmente com a aproximação do calendário eleitoral.
Essa cautela também aparece na análise de Alexandre Espírito Santo professor de administração na ESPM e sócio da Way Investimentos, que vê efeitos positivos imediatos da queda do dólar, mas questiona sua sustentabilidade. “A desvalorização da moeda americana ajuda a aliviar a inflação, ao baratear commodities, especialmente alimentos”, afirma. Segundo ele, consumidores e empresas também se beneficiam com viagens mais baratas e menor custo dedívidas atreladas ao dólar.
Publicidade
Por outro lado, o economista pondera que esse movimento não reflete necessariamente uma melhora estrutural da economia brasileira. Na avaliação dele, a valorização do real está mais ligada à fraqueza global do dólar (evidenciada pela queda do índice DXY) do que a fundamentos domésticos sólidos.
Espirito Santo também chama atenção para o risco político à frente.
“Em ano eleitoral, a taxa de câmbio tende a apresentar maior volatilidade, especialmente em contextos de polarização”, diz.
Esse ambiente pode influenciar o fluxo de capital e reverter parte da apreciação recente do real frente ao dólar.