E a plateia está mais ansiosa do que nunca. Depois de ver o Bitcoin cravar um topo histórico acima de US$ 125 mil no começo de outubro de 2025, a narrativa virou do avesso: o mercado saiu do modo euforia e o preço devolveu boa parte do movimento. Hoje, no fim de fevereiro de 2026, ele oscila entre US$ 60 mil e US$ 70 mil. Aquele tipo de queda que traz de volta a pergunta que todo mundo tenta evitar: “Isso é realmente tese ou é crença?”
Mas voltando à cena, a queixa do nosso analisado vem com uma frase que ressoa como um mantra: “Bitcoin é o ouro digital”. Para muita gente, isso é elogio. Para outros, é uma tentativa de domesticação. Para alguns, é apenas uma analogia didática. Para o mercado, é um atalho. Para o regulador, é uma categoria confortável. Para o investidor tradicional, é um tradutor simultâneo: “Ok, entendi, é algo escasso que protege patrimônio”.
Só que, como todo atalho, ele cobra pedágio. Se você insiste em reduzir o Bitcoin a ouro, você ganha compreensão rápida, mas perde a essência. E quando a essência some, os problemas surgem. Ouro tem milhares de anos de história. Ouro não depende de rede, energia, chave privada. Ouro não cai 70% em um ano e volta a subir depois, meteoricamente. O jogo vira um tribunal permanente em que o Bitcoin precisa provar, de novo e de novo, que merece estar na sala.
Aqui entra a psicanálise como lente. O que nos interessa não é diagnosticar o Bitcoin. É diagnosticar a nossa relação com ele.
O sintoma: “ouro digital” como ponte e como fantasia
Vamos tratar “ouro digital” como sintoma, no sentido prático: um sinal repetitivo que revela uma tensão.
Existe uma leitura saudável dessa frase. Ela é uma ponte cognitiva legítima. O ouro sempre foi a metáfora do “ativo fora do sistema”, escasso, sem risco de crédito, com função de reserva. Quando o investidor tradicional ouve “ouro digital”, ele entende rapidamente a posição no portfólio: algo que tende a se comportar como reserva escassa, potencialmente útil como hedge de longo prazo contra desarranjos monetários.
Nesse sentido, “ouro digital” soa como alfabetização. Ajuda a começar a conversa.
Mas existe a leitura neurótica, e ela é a que gera angústia de aprovação. “Ouro digital” vira fantasia de legitimidade. Como se o Bitcoin precisasse vestir a roupa do ativo mais respeitado do mundo para não ser expulso da mesa. É o adolescente que chega no jantar da família e diz: “eu sou como meu irmão mais velho bem-sucedido”. Ele não está só explicando. Está pedindo licença para existir.
Quando a analogia vira pedido de aceitação, ela aprisiona. Porque você passa a medir o Bitcoin por uma régua que não foi feita para ele. E todo mundo sabe como termina a vida de quem só tenta ser aceito. Ela vira reativa. Vive para responder ao olhar do outro.
A infância do Bitcoin: órfão, sem pai, sem categoria
Se a gente for buscar a “infância” do Bitcoin para tentar entender o seu presente, ela começa em um trauma histórico: a crise financeira de 2008. O mundo viu a confiança quebrar. Viu resgates, risco moral, alavancagem exagerada, contágio para a economia real. Viu o custo social de uma arquitetura em que privatiza-se o ganho e socializa-se a perda. E, nesse cenário, surge um sistema que carrega no seu âmago uma provocação: “não confie, verifique”.
Agora repare: ele nasce órfão.
Satoshi some. Não há pai. Não há CEO. Não há porta-voz. Não há conselho. Não há uma autoridade que “garanta” o sentido. Isso é um detalhe técnico para quem confia no código, mas é um terremoto simbólico para a mente institucional. No mundo tradicional, legitimidade vem com assinatura, carimbo, nome, reputação. O Bitcoin oferece o oposto: legitimidade por regras em código-fonte e consenso distribuído.
O segundo traço da infância é igualmente violento: o Bitcoin nasce sem lugar na família. Ele não é moeda estatal, não é ação, não é commodity industrial, não é título de dívida. E o mercado odeia o que não cabe na tabela. Em qual aba da planilha “cotações.xlsx” ele deve estar? O impulso imediato é tentar enquadrar. Se não dá para enquadrar, ridicularize. Se não dá para ridicularizar, criminalize. Se não dá para criminalizar, tenta domesticar.
“Então tá, vamos chamar de ouro digital.”
O Outro do Bitcoin: Estado, mercado e cultura
Se a gente coloca o Bitcoin no divã, o analista lacaniano perguntaria: “Quem é o Outro para você?”. Aqui, o Outro aparece em três faces, e são elas que produzem a pressão de aceitação.
Primeiro, o Estado. O Estado não gosta de concorrência simbólica no terreno monetário. Mesmo quando tolera, ele quer ver controle, rastreabilidade, tributação, regras.
Ele não pergunta apenas “isso funciona?”, pergunta “quem é o responsável por isso aqui?”.
Segundo, o mercado financeiro. O mercado é um tribunal com linguagem própria. Ele quer produto, liquidez, governança, comitê. O mercado quer a versão do Bitcoin que caiba em suas próprias regras. E, quando ele se interessa, ele compra. Quando ele não entende, ele rejeita.
Terceiro, a cultura. A cultura é onde o Bitcoin vira tribo, meme, seita, religião. É onde ele é chamado de “moeda de bandido” em um círculo e de “futuro do dinheiro” no outro. O preço influencia a cultura e a cultura influencia o preço. A narrativa vive oscilando entre a glória e a vergonha.
Quando esses três Outros olham para o Bitcoin, a comunidade reage. É aí que nasce a angústia. Não no protocolo. No entorno.
O desejo: não ser melhor que o ouro, ser outra coisa
Aqui está a frase faria o analista encerrar a sessão no mesmo instante, se falada pelo analisando Bitcoin:
O “ouro digital” é uma metáfora. O verdadeiro desejo é ser um novo tipo de base monetária nativa da internet.
E isso muda tudo, porque o desejo não é disputar o trono do ouro no mesmo castelo. É construir outro castelo. O ouro é um objeto físico que virou reserva por história, cultura e escassez natural. O Bitcoin é uma escassez programada, verificável em tempo real, transportável sem fricção, liquidável sem intermediário, neutra por design.
Ele não quer ser “o melhor ouro”. Ele quer ser um ativo monetário de uma nova arquitetura: global, digital, interoperável, com política monetária própria e imune à vontade de um soberano específico.
Quando você entende isso, a comparação com o ouro deixa de ser prova de legitimidade e vira apenas didática. Pergunte a qualquer bitcoiner, daqueles que realmente compraram a tese, se foi isso que o seduziu, esse discurso de “novo ouro”. Garanto que não. A função do ouro digital não é convencer, é introduzir. Depois disso, a tese precisa caminhar com as próprias pernas.
Cena clínica: perguntas que incomodam
Agora, no meio da sessão, o analista faria as perguntas que ninguém gosta de ouvir (note que agora quem está no divã é você, não o Bitcoin):
“Por que você precisa que o Bitcoin seja ouro para justificá-lo no seu portfólio?”
“Você está comprando uma tese ou comprando um rótulo?”
“Você quer entender o Bitcoin ou quer que o Bitcoin te poupe da crítica no comitê de investimentos?”
“Quando você diz ‘ouro digital’, você está educando alguém ou está se protegendo do julgamento?”
Essa é a parte incômoda, porque ela desloca a conversa do objeto para o sujeito. Porque alocação é psicologia tanto quanto é finança. Ninguém compra só risco-retorno. As pessoas compram narrativas que as ajudem a dormir sem medicação.
O plot twist: o protocolo não sofre. Quem sofre somos nós
Isso é uma chave importante: o protocolo é indiferente ao drama humano, ele só executa regras, bloco após bloco, sem pedir permissão. Quem sente a angústia de aceitação é o entorno: investidores, empresas, analistas, mídia. No fundo, quem precisa de análise não é o Bitcoin, são as pessoas. No melhor estilo das grandes frases da comunidade bitcoiner: “Bitcoin doesn’t care”.
O Bitcoin não acorda querendo ser amado. Ele não negocia com o Estado, não seduz o mercado, não pede desculpas para a cultura. Ele só continua. Bloco após bloco. E é justamente essa indiferença que o torna tão provocador. Porque ele expõe o quanto o mundo financeiro depende de confiança em narrativas, em autoridades, em intermediários. O Bitcoin tira o verniz e mostra o esqueleto: regras, incentivos, energia, tempo.
A nossa ansiedade, então, é reveladora. A frase “ouro digital” funciona como um cobertor emocional. Ela nos dá um lugar seguro para colocar algo que, por natureza, não cabe no lugar seguro. Só que, se você ficar preso nesse cobertor, você nunca enxerga a tese completa.
O amadurecimento do investidor, aqui, é parar de pedir que o Bitcoin se comporte como ouro para poder existir. É aceitar que ele é um outro tipo de animal. Com outra história. Outro risco. Outra função. Outra temporalidade.
Talvez a pergunta final para a sessão não seja “o Bitcoin vai ser aceito?”. Talvez seja: “você precisa que ele seja aceito para ter coragem de entendê-lo?”. Porque, no fim, o divã não é do Bitcoin. É nosso.
E o Bitcoin, indiferente, segue fazendo o que sempre fez: executando suas regras, sem pedir permissão.
* Esse artigo foi inspirado por um papo com meu time de Research, em especial o Pedro Fontes, e também é uma pequena homenagem aos bons psicanalistas.