Nosso objetivo aqui será explorar essas consequências em um cenário hipotético de queda duradoura da oferta global de petróleo e gás. Prever o desfecho da crise geopolítica atual está muito distante da capacidade analítica dos economistas, portanto nosso objetivo aqui é realizar uma avaliação de um cenário alternativo.
Vamos assumir, como pressuposto para simplificar a análise, que o preço atual do petróleo sofra novo aumento e que se estabilize em US$ 85 por todo horizonte dos próximos 18 meses. Nesse caso de danos duradouros à oferta global de energia, os preços domésticos seriam reajustados de forma a se alinhar aos preços internacionais, movimento que pode levar mais ou menos tempo, mas que tende a ser inevitável.
O primeiro ponto a avaliar é que houve incremento relevante da produção de petróleo no período recente e que deve prosseguir em 2026. Segundo os dados mais recentes da Agência Nacional de Petróleo (ANP), a produção de petróleo atingiu 5,2 milhões de barris equivalentes por dia nos últimos meses.
Isso representa um salto de 30% em relação a 2019 (do total, a participação do petróleo é de 75% e do gás de 25%). O país está entre os dez maiores produtores de petróleo do mundo. Entre 2024 até 2028, atravessaremos um ciclo de forte aumento da produção, com as projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e da Petrobras indicando certo pico em 2028 que seria sustentado por alguns anos.
Maiores desafios de reposição da produção estão previstos para depois de 2035
Para termos uma referência de comparação, a produção nacional deverá crescer entre 2019 e 2026 quase o equivalente à produção total do México. Vale notar também que a produção de biocombustíveis (etanol e biodiesel) é bastante relevante, satisfazendo grande parte da demanda interna por combustíveis para veículos.
O etanol puro ou misturado à gasolina representa cerca de 45% do consumo total para automóveis de passageiros, já considera a menor quilometragem por litro do combustível em relação à gasolina. O biodiesel também tem ganhado bastante relevância, com participação de quase 15% no consumo total de diesel (segundo a EPE).
Esse incremento de produção da indústria de petróleo tem sido refletido nas estatísticas de produção industrial e no próprio Produto Interno Bruto (PIB) do setor extrativo (que inclui a extração de petróleo, além de outras atividades): o valor adicionado pelo setor cresceu mais de 20% desde 2019.
A balança comercial também foi beneficiada pelo aumento de produção da indústria de petróleo. As exportações de petróleo e derivados subiram mais de 80% desde 2019, de US$ 30 bilhões para mais de US$ 55 bilhões em 2025.
As importações têm de mesmo modo tendência de alta por conta da limitação da capacidade de refino e consequente necessidade de importação de derivados, mas apresentaram elevação de pouco mais de 20%. O resultado foi uma elevação do saldo comercial em petróleo e derivados de US$ 7,8 bilhões para quase US$ 28 bilhões na mesma base de comparação.
Em 2026, deveremos observar um aumento adicional substancial das exportações, com reflexo sobre o saldo comercial do setor. Dessa forma, em situações de elevação de preços internacionais, do ponto de vista das contas externas o país está bem posicionado.
Petróleo x Inflação
Um impacto evidente e um tanto quanto inescapável de uma eventual queda da oferta global de petróleo seria sobre a inflação. Os preços domésticos precisam, ainda que de forma gradual, se aproximar dos preços internacionais.
De acordo com a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que baseia o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), as pessoas gastam em média 6% de sua despesa mensal com combustíveis, basicamente com gasolina e etanol. No cenário alternativo que estamos considerando – vale reforçar que não é um cenário base, mas de risco – o petróleo subiria de forma duradoura para US$ 85.
Isso representaria uma elevação de cerca de 30% das cotações em relação ao patamar de US$ 65 verificado até janeiro desse ano. A consequência seria uma elevação do preço da gasolina entre 10% e 15% ao longo do tempo. Em um primeiro momento, o repasse é menor, mas depois o etanol também tende a sofrer elevação por conta da equivalência entre os combustíveis e os impostos são reajustados, de forma que esse repasse sobe ao longo do tempo.
A gasolina na bomba (média nacional), passaria de R$ 6,30 atuais para R$ 6,9 a R$ 7,2 ao longo do tempo. Para o IPCA, o efeito seria acrescentar cerca de 60 pb a 90 pb à inflação cheia ao longo do tempo. Isso poderia parecer ser um grande problema para o Banco Central, mas devemos analisar com maior profundidade e separar o que chamamos de efeito primário e secundário sobre a inflação.
A política monetária busca, nesse tipo de situação, conter os efeitos sobre outros produtos e serviços da alta de combustíveis, e não anular diretamente o efeito sobre o índice total do choque de preços do petróleo.
O objetivo da política monetária é buscar manter a inflação na meta em um horizonte de 18 meses, ou seja: garantir que o aumento eventual de preços de combustíveis por um fator pontual não se traduza em inflação permanente mais alta. No contexto atual, o Comitê de Política Monetária (Copom) terá ainda duas semanas para avaliar o quadro geopolítico e poderá decidir em um ambiente com mais informações sobre a evolução do conflito atual.
A meu ver, há condições para seguir na estratégia de iniciar a “calibragem” da política monetária com um passo de 50 pb. Caso o cenário alternativo que estamos discutindo se torne o cenário base (isto é, o conflito provoque danos duradouros à oferta global de petróleo), o Copom teria tempo e espaço suficiente para ajustar o tamanho total do ciclo de ajuste.