Segundo Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, o comportamento recente do ouro representa um típico movimento de “sobe no boato e cai no fato”. “O ativo foi amplamente utilizado para especulação de proteção contra risco futuro, mas não tem apresentado a mesma função para risco presente”, afirma.
Na visão do analista, a forte valorização que o metal apresentou antes do conflito pode ter deixado pouco ou nenhum espaço de investimento para quem buscou proteção apenas na hora em que o cenário piorou. Até fevereiro, o ouro acumulava ganhos de 20,35% no ano.
Outro ponto importante é a política monetária dos Estados Unidos. De acordo com a plataforma FedWatch, do CME Group, não há, atualmente, precificação de corte de juros no país neste ano, o que aumenta a atratividade dos títulos do Tesouro norte-americano, que pagam juros, ao contrário do ouro. Esse cenário gera uma rotação de capital.
Danilo Moreno, analista da Investo, explica que as pressões de liquidez entre produtores de energia do Oriente Médio também ajudam a explicar a queda recente do ouro. “Com as receitas de petróleo e gás impactadas pelo conflito no Irã, fundos soberanos da região estão vendendo ativos líquidos, incluindo títulos do Tesouro e ouro, para cobrir necessidades de caixa de curto prazo”, pontua.
O efeito do tombo do ouro sobre ETFs e BDRs
A queda do metal em março também contaminou os ativos atrelados ao seu desempenho. Na B3, todos os ETFs (fundos de índice) que acompanham a commodity operam no vermelho no mês. O OURO11, da Bradesco Asset, recua 14,31% no período; o GLDX11, da Investo, cai 12,39%; o GOLB11, da BTG Asset, cede 14,02%; enquanto o GOLX11 e o GOLD11, ambos da XP Asset, tombam 13,84% e 12,56%, respectivamente.
O impacto também atingiu a Aura Minerals (AURA33). O Brazilian Depositary Receipt (BDR) da empresa vem conquistando recomendações de compra dos analistas e chegou a ser o segundo BDR mais negociado na B3 em fevereiro. Em março, com a queda do ouro, amarga perdas de 16,24%. Nos últimos 12 meses, ainda acumula valorização de 241,6%.
O “porto seguro” dos investidores
Antes do desempenho negativo em março, o ouro vinha ganhando fama como um “novo dólar”, por seu papel como um ativo de proteção. A tese partia de temores em torno da política monetária e fiscal dos Estados Unidos, que colocavam em dúvida a posição do dólar como a principal moeda de reserva do mundo.
Com a guerra no Irã, o dólar passou a subir, ao contrário do ouro. O índice DXY, que compara a moeda americana com outras seis moedas fortes (euro, libra, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço), chegou a superar em março o patamar de 100 pontos, que não era observado desde novembro de 2025.
Ainda assim, analistas consultados pelo E-Investidor afirmam que os movimentos recentes não apagam a importância do ouro como um instrumento de proteção a longo prazo. O fato de ativos passarem por correções faz parte da natureza do mercado.
A commodity não perdeu o papel de segurança, mas ficou cara e o investidor optou por outros ativos para proteção neste momento. “O ouro foi e sempre será um porto seguro, o que está acontecendo é que os investidores além da segurança estão procurando também rentabilidade a curto prazo e isso o dólar está proporcionando”, destaca Mauriciano Cavalcante, economista da Ourominas.
Investir ou não investir em ouro?
Na opinião de Praça, da ZERO Markets Brasil, no curto prazo, o ouro ainda tem espaço para corrigir os ganhos acumulados no início do ano. “Já no longo prazo o ativo cumpre seu papel e a queda atual traz uma boa oportunidade para aumentar a exposição ao metal”, afirma.
Para Moreno, da Investo, os fatores estruturais que justificam o investimento em ouro estão intactos e reforçam a função do metal como reserva de valor ao longo do tempo. Uma das questões envolve o crescimento do déficit fiscal dos Estados Unidos, que afeta a credibilidade do dólar.
O Escritório de Orçamento do Congresso dos Estados Unidos (CBO, na sigla em inglês) estima que o déficit dos EUA totalize US$ 1,9 trilhão no ano fiscal de 2026 e avance para US$ 3,1 trilhões em 2036. Em relação ao tamanho da economia norte-americana, a projeção é que o déficit representará 5,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 e aumentará para 6,7% em 2036.
Segundo Moreno, quando a situação se normalizar no Oriente Médio, a demanda privada e de bancos centrais pelo ouro deve retornar. Ele faz, no entanto, uma observação: no curto prazo, o ambiente de juros elevados nos EUA ainda pode manter alguma pressão sobre o metal. “Por isso, uma entrada gradual pode fazer mais sentido do que uma alocação concentrada de uma só vez”, pontua.
Morena considera o investimento via ETF como a forma mais eficiente de se expor ao ouro – opinião compartilhada por especialistas ouvidos nesta matéria. Os fundos garantem liquidez, baixo custo e dispensam as complexidades de custódia do metal físico.