Evento na Arena B3: Tesouro Direto lança Tesouro Reserva, novo título com liquidez 24 horas e sem marcação a mercado (Foto: Banco do Brasil)
O lançamento do Tesouro Reserva, nesta segunda-feira (11), na arena da B3, no centro de São Paulo, marca uma aposta do governo e do mercado financeiro em ampliar o acesso dos brasileiros aos investimentos. O principal objetivo é ampliar a base de investidores do Tesouro Direto, hoje estimada em pouco mais de 2 milhões de pessoas.
Durante a tradicional ‘batida de sino” que oficializou o início das operações do produto, o E-Investidor conversou com duas das principais lideranças envolvidas no desenvolvimento da iniciativa, Daniel Leal, secretário do Tesouro Nacional, e Francisco Lassalvia, vice-presidente de negócios e atacado do BB.
“A gente está buscando ampliar, ultrapassar as barreiras de 5 milhões, 10 milhões”, afirmou Leal.
Apesar de o estoque do Tesouro Direto girar em torno de R$ 200 bilhões, ele observa que isso ainda representa uma fatia pequena da gestão da dívida pública brasileira, “perto de 2%”.
Para o secretário, o novo título pode funcionar como uma porta de entrada para pessoas que historicamente se sentiram excluídas do mercado financeiro. ‘O Tesouro Reserva vai ampliar esse público para atingir, de fato, uma parcela maior da população”, disse. Na avaliação dele, a possibilidade de investir a partir de R$ 1 ajuda a romper a percepção de que aplicações financeiras são restritas a quem possui maior renda.
Já o executivo do Banco do Brasil (BBAS3) destacou que o trabalho envolverá não apenas ações digitais, mas também a atuação presencial da rede bancária. “São mais de 4 mil agências e mais de 10 mil profissionais que lidam diretamente com os clientes”, disse. Lassalvia acrescentou que o banco enxerga o Tesouro Reserva como um primeiro passo para formar investidores de longo prazo. “Estou cultivando um pequeno cliente hoje que vai trazer mais valores investidos lá na frente”, explica.
Francisco Lassalvia, VP do Banco do Brasil durante evento na Arena B3. (Foto: Banco do Brasil)
Expansão do Tesouro Reserva
O novo título nasce com limite mensal de aplicações de R$ 500 mil por investidor. Questionado sobre a possibilidade de expansão desse teto no futuro, Leal afirmou que, neste momento, o foco não está em grandes aportes. Segundo ele, há inicialmente um desafio tecnológico relacionado à migração da plataforma do Tesouro. Além disso, o objetivo central é atingir o pequeno investidor. “Acho que R$ 500 mil satisfaz bem mais do que toda a população”, afirmou.
O Tesouro Reserva funciona de maneira semelhante aos demais títulos do Tesouro Direto, mas com algumas diferenças relevantes. O investimento mínimo é de R$ 1 e as operações podem ser realizadas 24 horas por dia, sete dias por semana.
Outros títulos também serão 24×7?
O secretário também comentou que o funcionamento contínuo do Tesouro Reserva não deve, ao menos por enquanto, ser estendido automaticamente para outros títulos públicos. Isso porque o novo produto não possui marcação a mercado, característica que evita oscilações no valor investido quando o mercado está fechado.
“O Tesouro Reserva já sabe quanto vai receber, ele é carregado pela Selic”, disse.
Em outros papéis, segundo ele, um resgate fora do horário tradicional poderia prejudicar o investidor caso houvesse mudanças relevantes no mercado no dia seguinte.
Exclusividade do BB: namoro ou casamento?
Inicialmente, o produto está disponível apenas para correntistas do Banco do Brasil, instituição que participou diretamente do desenvolvimento da nova infraestrutura operacional. Leal afirmou, porém, que outras instituições financeiras já demonstraram interesse em aderir à plataforma. “O Tesouro está sempre aberto para acelerar”, afirmou.
Lassalvia ressaltou que a exclusividade do Banco do Brasil não é permanente. “O produto não é excludente e pode ter outros participantes no mesmo prazo”, disse. Para ele, o lançamento exclusivo cria um diferencial competitivo momentâneo e pode até incentivar clientes a transferirem recursos de outras instituições para o banco.
Tesouro é a nova concorrência dos CDBs?
Apesar das comparações inevitáveis com produtos como “cofrinhos” de fintechs e até mesmo a caderneta de poupança, Leal afirmou que o Tesouro Reserva não foi criado para competir diretamente com outras aplicações. “O Tesouro não vem para concorrer com ninguém, ele vem para complementar e trazer eficiência”, afirmou.
Ainda assim, ele reconhece que o produto pode representar uma evolução em relação à lógica tradicional da poupança. “Talvez ele traga outros benefícios para o mercado”, disse. Segundo o secretário, o Tesouro Reserva oferece ao pequeno investidor uma oportunidade semelhante à disponível para investidores institucionais, ao entregar remuneração atrelada integralmente à Selic.
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Na avaliação de Leal, o impacto do novo título na educação financeira pode ser significativo justamente por tornar o hábito de investir mais tangível para famílias de menor renda.
“Quando você fala que precisa guardar R$ 100, R$ 200 por mês, isso parece inviável para muita gente. Mas R$ 1, R$ 5 ou R$ 10 todo mês, quando a pessoa vê aquilo crescendo, faz diferença”, afirmou.
O secretário acredita que o sucesso do programa será medido menos por metas numéricas imediatas e mais pela capacidade de ampliar a cultura de investimentos no País. “O Tesouro deveria ser a porta de entrada de qualquer investimento. É isso que a gente está buscando”, concluiu.