Ao mesmo tempo, o avanço contínuo da tecnologia simplifica parte do processo, mas amplia os riscos quase na mesma medida. As fraudes ficaram mais convincentes, personalizadas e, em muitos casos, praticamente indistinguíveis de comunicações legítimas à primeira vista.
Para além da tarefa de cumprir prazos ou organizar documentos, ao redor da entrega da declaração, forma-se um ambiente propício para a circulação de mensagens falsas, páginas clonadas e cobranças indevidas com aparência cada vez mais convincente. A combinação de dados vazados, engenharia social e inteligência artificial elevou o nível das fraudes a um ponto em que separar o legítimo do fraudulento exige método.
Segundo a Serasa Experian, o Brasil registrou, no início de 2026, uma tentativa de fraude a cada 2,2 segundos considerando golpes financeiros em geral, não apenas os ligados ao IR. Em outro recorte, metade dos brasileiros ouvidos relatou ter sido alvo de alguma tentativa de golpe digital nos últimos 12 meses.
No contexto da declaração, esse cenário encontra terreno fértil. Há prazo definido, expectativa de restituição e receio de pendências com o Fisco. Para quem aplica golpes, são três gatilhos prontos.
Golpes digitais mais comuns ligados à declaração
Entre março e maio, o volume de interações relacionadas ao acerto de contas com o Fisco aumenta de forma significativa. É nesse fluxo que os golpes se misturam.
O método mais recorrente envolve o envio de mensagens que simulam comunicações oficiais. E-mails, SMS ou até contatos por WhatsApp reproduzem identidade visual, linguagem institucional e levam o contribuinte a páginas falsas que pedem dados ou induzem pagamentos.
Também são comuns cobranças indevidas associadas a supostas pendências. A narrativa costuma mencionar multa, irregularidade ou risco de bloqueio do CPF, acompanhada de um pedido de pagamento via Pix ou boleto adulterado.
Outro caminho frequente são links maliciosos que instalam programas capazes de capturar senhas ou permitir acesso remoto ao dispositivo.
Nos últimos anos, ganhou espaço um golpe mais específico, ligado diretamente à restituição. A restituição é o valor devolvido ao contribuinte quando há pagamento de imposto acima do devido ao longo do ano. Desde 2022, ela pode ser creditada via Pix, desde que a chave seja o CPF.
Criminosos exploram esse mecanismo ao obter dados pessoais e abrir contas com documentos falsos, vinculando o CPF da vítima como chave Pix. Quando a restituição é processada, o valor pode ser direcionado automaticamente para a conta fraudulenta.
Período de declaração como “temporada de phishing”
Grande parte dessas fraudes se apoia no chamado phishing, uma técnica de engenharia social que busca enganar o usuário para que ele entregue seus próprios dados.
O golpe todo é baseado em uma encenação. O contribuinte recebe uma mensagem que simula uma situação plausível naquele momento, como uma notificação de malha fina, um erro na declaração ou a liberação de restituição. Ao clicar no link, é direcionado a uma página que imita o ambiente oficial, onde insere CPF, senha ou dados bancários.
“A principal arma do cidadão e das empresas contra a fraude é a informação. Os golpistas usam a engenharia social para criar um senso de imediatismo que anula o bom senso”, afirma Felipe Tambelini, diretor de Prevenção a Fraudes do Itaú Unibanco.
O elemento central dessas abordagens é a urgência. A mensagem sempre sugere que há pouco tempo para agir, justamente para evitar que a vítima verifique a informação com calma.
Dados sensíveis que os criminosos buscam
O foco das fraudes vai além de um pagamento pontual. O objetivo é acessar informações que permitam novos golpes.
Dados bancários, credenciais de acesso e códigos de autenticação estão entre os principais alvos. Com o CPF, por exemplo, é possível abrir contas, solicitar crédito, vincular contas de banco ou simular operações financeiras em nome da vítima.
Quando combinados com outros dados, esses elementos permitem fraudes ainda mais complexas, como movimentações bancárias, contratação de serviços e até uso indevido da identidade em múltiplas plataformas.
O uso de informações vazadas aumenta a taxa de sucesso. Dados reais tornam a abordagem mais convincente e reduzem a chance de desconfiança.
Alertas emitidos pela Receita Federal
A Receita Federal reforça de forma recorrente que não utiliza canais informais para cobrança ou solicitação de dados.
O órgão não envia links por e-mail ou mensagens, não cobra valores via Pix fora de seus sistemas oficiais e não solicita informações sensíveis por aplicativos de conversa.
Como identificar uma comunicação verdadeira
O primeiro sinal de alerta costuma estar no tom da mensagem. Comunicações legítimas não pressionam por ação imediata nem ameaçam bloqueios instantâneos.
Mensagens que criam urgência, falam em multas imediatas ou exigem pagamento rápido tendem a indicar tentativa de fraude.
“Canais oficiais não utilizam gatilhos de urgência emocional. A resiliência cibernética depende também de uma cultura de desconfiança digital por parte do usuário”, afirma Thiago Tanaka, diretor de Cibersegurança da TIVIT.
Como consultar com segurança e o que fazer para se proteger
A verificação deve sempre partir do próprio contribuinte. O acesso às informações deve ser feito diretamente nos canais oficiais, como o portal e-CAC ou o aplicativo Meu Imposto de Renda, digitando o endereço no navegador ou usando apps oficiais.
Evitar links recebidos, validar cobranças antes de qualquer pagamento e desconfiar de contatos inesperados são medidas básicas e, não à toa, as mais eficazes.
No campo digital, autenticação em dois fatores, monitoramento de contas e atenção a movimentações atípicas ajudam a reduzir riscos.
Se houver suspeita ou confirmação de golpe, a resposta precisa ser imediata. O primeiro passo é acionar o banco para bloquear acessos e transações. Em seguida, registrar boletim de ocorrência, preferencialmente em delegacias especializadas, e alterar senhas de e-mail, aplicativos financeiros e contas vinculadas ao CPF.
Quando dados são expostos, o impacto não se limita ao momento da fraude. Ele pode se prolongar no tempo.
Em um cenário em que as fraudes evoluem no mesmo ritmo da tecnologia, proteger informações pessoais passou a integrar a própria jornada do contribuinte. “O desafio não é apenas bloquear ataques, mas garantir que a experiência digital aconteça de forma segura do início ao fim”, afirma Tanaka.