Inflação acima da meta faz mercado reduzir apostas de corte da Selic (Foto: Adobe Stock)
O avanço recente do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) aos 4,80% no relatório de mercado Focus, acima do teto da meta de 4,50%, redesenha as projeções da Selic. Agora, há consenso no mercado de que a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que contece nesta terça (28) e quarta-feira (29), deve adotar um tom mais cauteloso. A expectativa para o corte de juros foi revisada para 0,25 ponto percentual, levando a taxa a 14,50% em abril, segundo Goldman Sachs, C6 Bank, Andbank e XP Investimentos, com projeções variando entre 13% e 13,5% ao fim do ano, a depender da instituição.
Essa mudança não veio de um único fator. Segundo Silvia Ludmer, economista-chefe do Andbank Brasil, a pressão inflacionária começou ainda nos primeiros meses do ano, com surpresas no IPCA-15 puxadas por educação, passagens aéreas e alimentos, e foi agravada posteriormente pelo choque de combustíveis em meio ao ambiente geopolítico mais tenso. Ao mesmo tempo, a atividade voltou a acelerar no início do ano, impulsionada por estímulos como corte de impostos e aumento do salário mínimo.
“O mercado revisou rápido o IPCA para cima para este ano e, por inércia, também mais à frente”, afirma.
Segundo ela, mesmo com a apreciação cambial, o cenário ficou mais desafiador para o Banco Central.
Copom: entre cortar pouco ou parar
O debate agora gira em torno da intensidade (ou mesmo da continuidade) dos cortes. A leitura predominante é de que o Copom deve seguir com um ajuste residual, mas com cautela.
Na visão de Claudia Moreno, economista do C6 Bank, o BC ainda tem espaço para seguir reduzindojuros, mas em ritmo bastante moderado. A expectativa da casa é de um corte de 0,25 ponto na próxima reunião, dentro de um movimento que ela define como “calibração”.
Isso acontece porque as forças que impactam a inflação hoje estão divididas. De um lado, câmbio mais apreciado e juros mais altos ajudam a conter os preços. De outro, a inflação corrente mais forte e o petróleo mais caro pressionam o cenário. O resultado líquido, segundo a economista, é uma projeção ainda acima da meta – próxima de 3,3% no horizonte relevante.
“É um ambiente mais inflacionário, e isso exige cautela. A gente revisou o cenário e agora vê a Selic em 13,5% no fim do ano, com um ciclo menor de cortes”, afirma.
Ou seja, os juros devem ficar altos por mais tempo, mesmo que o ciclo de queda não seja completamente interrompido.
O petróleo como variável-chave
Tanto Ludmer quanto Moreno destacam que o comportamento do petróleo virou peça central na definição da trajetória da inflação e, portanto, da Selic. Hoje, os preços ainda orbitam níveis elevados, sustentados por tensões geopolíticas e restrições de oferta.
O relatório da XP Investimentos aponta que o mercado global projeta o barril na faixa de US$ 80 a US$ 90, com riscos assimétricos para cima em caso de agravamento dos conflitos.
Esse ambiente gera um duplo efeito no Brasil. Por um lado, pressiona combustíveis e inflação. Por outro, fortalece o fluxo externo e o câmbio, dado que o país é exportador líquido de petróleo.
Quando há choques simultâneos de oferta (energia) e demanda (atividade ainda resiliente), ambos têm o potencial de contaminar expectativas.
Apesar do juros, fluxo estrangeiro sustenta Bolsa
Mesmo com esse pano de fundo mais desafiador, a Bolsa brasileira segue mostrando resiliência e o motivo está menos nos fundamentos domésticos e mais no fluxo externo. Dados da Necton Investimentos em parceria com a B3 mostram uma entrada expressiva de capital estrangeiro em 2026. O saldo acumulado no ano já supera R$ 67 bilhões, com forte concentração no mercado secundário .
Isso explica o aparente descolamento entre juros elevados e desempenho da bolsa. Como destaca Ludmer, do Andbank, “a bolsa não deveria estar onde está”, mas foi impulsionada por fluxo, em um contexto em que o investidor local segue mais cauteloso.
Impactos práticos: renda fixa, bolsa e crédito
Esse novo cenário de juros mais altos por mais tempo tem implicações diretas para os ativos e para a economia real. Na renda fixa, o movimento é relativamente claro. Segundo Fernando Bresciani, economista do Andbank, há uma migração natural para títulospúblicos, que passam a oferecer retornos elevados com menor risco.
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Já no crédito, o efeito é mais sensível. Juros elevados encarecem o financiamento e aumentam o risco de inadimplência.
“O cenário tende a ficar mais estressado, com empresas que podem não conseguir atravessar esse ciclo”, afirma Bresciani, em linha com a avaliação de Ludmer de que o mercado já começa a sentir esse aperto, inclusive com maior risco de recuperações judiciais.
Na Bolsa, o impacto é mais seletivo. Apesar da pressão teórica dos juros altos, setores mais defensivos seguem se destacando – especialmente energia, saneamento e bancos, que combinam geração de caixa previsível com dividendos elevados. Esses papéis acabam funcionando como alternativa intermediária entre renda fixa e risco.
O que esperar até o fim de 2026
O quadro que emerge é de divergência moderada, mas com uma direção comum de menos cortes e mais cautela. Parte do mercado ainda vê espaço para cortes adicionais, mas limitados, enquanto outra parte já considera que o ciclo está próximo do fim: a porcentagem até o fim de 2026 oscila entre 13% e 13,5%.
Como alerta Claudia Moreno, economista-chefe do C6, uma eventual desancoragem maior das expectativas tornaria o trabalho do BC ainda mais difícil, exigindo juros altos por mais tempo.
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A trajetória da Selic até 2026 dependerá dos índices de inflação corrente, expectativas, petróleo, câmbio e atividade. E, no cenário atual, nenhum deles está totalmente sob controle.