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Brasil fecha 2025 com número recorde de recuperações judiciais e acende alerta para 2026

Com 5.680 companhias em RJ, alta reflete juros elevados, crédito restrito e decisões adiadas; especialistas alertam para riscos em 2026

Por Igor Markevich

10/02/2026 | 19:16 Atualização: 11/02/2026 | 7:21

O Brasil encerrou 2025 com número recorde de empresas em recuperação judicial. Entenda o que explica a alta, os setores mais afetados e os riscos para 2026. (Imagem: Adobe Stock)
O Brasil encerrou 2025 com número recorde de empresas em recuperação judicial. Entenda o que explica a alta, os setores mais afetados e os riscos para 2026. (Imagem: Adobe Stock)

Para boa parte do público que não acompanha o noticiário econômico, a recuperação judicial pode soar como um evento excepcional, reservado a crises pontuais. Os números de 2025, no entanto, desmontam essa percepção. O Brasil encerrou o último ano com 5.680 empresas em recuperação judicial (RJ), o maior patamar já registrado, apontando um retrato pouco confortável do ambiente de negócios: caixa pressionado, crédito caro, decisões adiadas e pouca, às vezes nenhuma, margem para erro.

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Os dados vêm do Monitor RGF de Recuperação Judicial, elaborado pela RGF & Associados, e indicam um avanço de 24,3% em relação ao final de 2024. O salto consolida um movimento que atravessa setores e modelos de negócio e expõe a frequência com que empresas têm chegado à Justiça já no limite de sua capacidade financeira.

Recuperação judicial: de onde vem a preocupação

Prevista na Lei 11.101/2005, a recuperação judicial permite que empresas renegociem dívidas sob supervisão do Judiciário, com suspensão temporária de execuções e cobranças. A proposta é de criar espaço para reorganização financeira e, sob a proteção da Justiça, evitar a falência. O aumento expressivo dos pedidos em 2025, porém, indica que esse espaço vem sendo buscado quando boa parte das alternativas já se esgotou.

“Quando o número de recuperações cresce, o que aumenta, na prática, é a incapacidade de parte relevante das empresas de sustentar sua rotina financeira”, afirma Benito Pedro Vieira Santos, CEO da Avante Assessoria Empresarial. “A recuperação judicial não começa no fórum. Inicia muito antes, com margens comprimidas, capital de giro alongado e decisões que vão sendo postergadas.”

Entre empresas de médio porte, o percurso até a RJ costuma ser bastante acidentado. Renegociações sucessivas com fornecedores, parcelamentos de tributos, uso recorrente de crédito mais caro e ausência de ajustes estruturais formam o que Benito define como “financiamento invisível”. “Esse modelo apenas posterga o problema até o mercado parar de conceder crédito”, diz.

Quando se chega à recuperação judicial, a medida deixa de ser uma escolha tática e passa a ser consequência direta da falta de fôlego financeiro. O perigo, alertam especialistas, está em tratá-la como solução em si. “Recuperação judicial sem reestruturação do negócio é apenas o adiamento da falência”, resume Benito.

Crédito caro e o fim da tolerância

O recorde de 2025 se explica, em larga medida, pelo ambiente macroeconômico difícil. Juros elevados, maior seletividade dos bancos e custos operacionais pressionados reduziram a capacidade das empresas de absorver choques e sustentar suas estruturas financeiras. “Muitas sobreviveram nos últimos anos operando no vermelho e recorrendo a empréstimos para evitar o fechamento”, afirma Denis Barroso, sócio do Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial.

Segundo ele, o modelo baseado em endividamento contínuo se torna inviável quando o crédito encarece e as exigências aumentam. “O que antes era rolagem virou bloqueio. Nesse cenário, a recuperação judicial acaba sendo o único caminho disponível.”

O perfil dos processos reforça essa leitura. Ao longo de 2025, casos de grande porte ganharam destaque, envolvendo cifras bilionárias e setores estratégicos da economia. Empresas como Unigel, Bombril, InterCement e Ambipar recorreram à recuperação judicial para reorganizar passivos elevados e tentar preservar suas operações. No caso da Unigel, as dívidas declaradas superaram R$ 19 bilhões, um dos maiores volumes do ano.

Tempo ajuda, mas não resolve

Apesar da relevância do instrumento legal, a recuperação judicial só produz resultados quando integrada a um plano consistente de reestruturação. “Nenhuma empresa está imune a problemas financeiros”, afirma Denis Barroso. “Controles, gestão adequada e governança são fundamentais para identificar vulnerabilidades e corrigir rotas antes que a crise se agrave.”

Na prática, a reorganização exige ações simultâneas: gestão rigorosa do caixa, revisão de margens e preços, controle do capital de giro, redimensionamento criterioso de custos e planos de pagamento compatíveis com a capacidade real de geração de caixa. Sem isso, a proteção judicial apenas compra tempo.

“O tempo ajuda, mas não resolve sozinho”, diz Benito Pedro. “O que recupera empresa é método, governança e execução disciplinada. Sem isso, a janela jurídica se fecha sem que a reorganização econômica aconteça.”

O recorde de recuperações judiciais em 2025 funciona, assim, como um aviso claro para 2026. Em um mercado menos tolerante a improvisos e mais exigente com disciplina financeira, empresas sem visibilidade, planejamento e rapidez na tomada de decisão tendem a ser penalizadas. A recuperação judicial oferece um respiro, mas dificilmente será suficiente para quem insiste em adiar as decisões difíceis.

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