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Mercado

IPCA-15 acelera e pressiona Copom, que deve cortar a Selic com mais cautela

Prévia da inflação sobe para 0,89% em abril e eleva pressão sobre o Banco Central, que deve cortar juros com mais cautela diante de expectativas desancoradas e petróleo em alta

Por Isabela Ortiz

28/04/2026 | 9:48 Atualização: 28/04/2026 | 10:17

Alta do IPCA-15 reforça cenário de inflação pressionada e deve levar Copom a manter cautela no corte da Selic (Foto: Adobe Stock)
Alta do IPCA-15 reforça cenário de inflação pressionada e deve levar Copom a manter cautela no corte da Selic (Foto: Adobe Stock)

A divulgação do IPCA-15 nesta terça-feira (28) reforçou a cautela do mercado em relação aos próximos passos do Comitê de Política Monetária (Copom). A prévia da inflação oficial acelerou para 0,89% em abril, após alta de 0,44% em março — no maior resultado para o mês desde 2022 e o mais elevado desde fevereiro de 2025 —, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No acumulado de 12 meses, o indicador passou de 3,90% para 4,37%, voltando a se distanciar da meta perseguida pelo Banco Central.

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Todos os nove grupos pesquisados registraram alta de preços no mês, um sinal de que a inflação não está concentrada em poucos itens, mas espalhada pela cesta de consumo.

Entre os principais vetores, Alimentação e bebidas subiu 1,46%, com maior impacto individual no índice, seguido por Transportes, que avançou 1,34%. Juntos, os dois grupos responderam por mais da metade do IPCA-15 do mês, reforçando a pressão de itens sensíveis ao bolso e ao ciclo de commodities.

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A alta também foi disseminada regionalmente: todas as 11 áreas pesquisadas registraram avanço, com Belém liderando as pressões e Brasília exibindo a variação mais contida.

O dado veio em um momento particularmente sensível para a política monetária, já que o mercado já vinha revisando para cima suas projeções de inflação diante da alta do petróleo, do aquecimento da atividade doméstica e da piora das expectativas inflacionárias.

Para Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos, “a principal surpresa baixista concentrou-se em passagens aéreas. A tendência, contudo, é de reversão parcial desse movimento nos próximos meses, diante do avanço da guerra e de seus impactos sobre o querosene de aviação“, explica.

A economista reforça que o resultado é de um cenário ainda desafiador para a inflação, “especialmente diante de mais uma surpresa altista em bens industriais, componente que, por um longo período, sustentou uma visão mais benigna para o IPCA por parte relevante do mercado”, acrescenta.

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Na avaliação da XP Investimentos, a dinâmica preocupa porque o Banco Central não observa apenas a inflação corrente, mas principalmente o comportamento esperado dos preços no médio prazo. E esse movimento também já aparece nas projeções do mercado.

Segundo a casa, a mediana das expectativas para o IPCA de 2026 no Relatório Focus saltou de 4,10% para 4,86% desde a última reunião do Copom. Para 2027, horizonte considerado relevante pela autoridade monetária, a projeção avançou de 3,80% para 4,00%.

Ao mesmo tempo, os núcleos de inflação – medidas que desconsideram itens mais voláteis e ajudam a medir a tendência dos preços – seguem pressionados. A XP calcula que, na média móvel de três meses anualizada e dessazonalizada, o núcleo do IPCA avançou de 3,3% em janeiro para 4,7% em março.

Para a corretora, o cenário ficou ainda mais desafiador após o choque global de energia provocado pelas tensões no Oriente Médio. “A elevação dos preços do petróleo pressionou a inflação no curto prazo”, afirma a casa, acrescentando que as cotações do Brent seguem acima de US$ 100 por barril nos contratos mais próximos.

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O impacto vai além dos combustíveis. Energia mais cara encarece transporte, produção industrial e cadeias logísticas, contaminando outros preços da economia. Por isso, o mercado acompanha não apenas o IPCA cheio, mas principalmente os componentes mais disseminados da inflação.

Economia aquecida traz cautela para o BC

A XP também avalia que a economia brasileira continua aquecida, o que dificulta ainda mais o trabalho do Banco Central. Segundo a instituição, medidas de estímulo adotadas pelo governo “já produzem efeitos”, com o Produto Interno Bruto (PIB) crescendo acima de 4% em termos anualizados no primeiro trimestre de 2026.

Além disso, o mercado de trabalho segue apertado, com taxa de desemprego próxima das mínimas históricas. Em um ambiente de atividade forte e baixa ociosidade, choques inflacionários tendem a gerar efeitos mais persistentes sobre os preços.

Câmbio se tornou um colchão para a inflação

Ainda assim, existe um fator que ajuda parcialmente o Banco Central: o câmbio. A valorização do real frente ao dólar vem funcionando como um amortecedor para a inflação.

A XP destaca que o real acumula apreciação próxima de 9% neste ano, favorecido justamente pela posição relativamente confortável do Brasil diante da alta do petróleo, já que o País exporta commodities e se beneficia do aumento das receitas externas.

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A Daycoval reforça esse ponto ao observar que o financiamento externo brasileiro segue confortável. O banco afirma que o Investimento Direto no País (IDP) acumulado em 12 meses alcançou US$ 75,7 bilhões, acima do déficit em conta corrente de US$ 64,3 bilhões. Na prática, isso reduz pressões sobre o câmbio e ajuda a evitar uma desvalorização mais intensa do real.

Mesmo com esse alívio vindo do dólar, o mercado praticamente consolidou a expectativa de um corte menor de juros nesta reunião do Copom – acontece nesta terça (28) e quarta-feira (29).

Selic deve cair 0,25 p.p.

A XP avalia que o Banco Central deve reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano. A casa afirma que o comunicado deverá ter tom mais duro (“hawkish“), reforçando cautela diante da inflação, mas sem necessariamente indicar uma interrupção imediata do ciclo de cortes.

“O comunicado desta semana tende a ser mais duro do que o anterior, reforçando a necessidade de uma condução cautelosa da política monetária”, afirma a instituição.

Na prática, o mercado entende que o Copom deve continuar reduzindo os juros, mas em ritmo mais lento e totalmente dependente da evolução dos dados de inflação e do comportamento do petróleo.

A XP projeta que a Selic encerre 2026 em 13,50%, com mais duas reduções de 0,50 ponto percentual em junho e agosto. Mas a própria casa reconhece que esse cenário depende de uma acomodação das tensões geopolíticas e de uma queda do petróleo para a faixa entre US$ 80 e US$ 90 por barril.

Caso isso não aconteça, o cenário muda. “Aumenta a probabilidade de cenários alternativos em que o Copom mantenha o ritmo modesto de cortes (0,25 p.p.) ou interrompa o ciclo antes do esperado”, afirma a XP.

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Com o IPCA-15 de abril vindo mais forte do que o observado no mês anterior, o mercado deve reforçar a percepção de que o Banco Central terá menos espaço para acelerar o ciclo de cortes da Selic nos próximos meses.

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