Levantamentos da McKinsey & Company indicam que, apenas nos Estados Unidos, os ativos financeiros nas mãos de mulheres saíram de cerca de US$ 10 trilhões para cerca de US$ 18 trilhões entre 2018 e 2023, com projeção de chegarem a US$ 34 trilhões até 2030, o que representa uma das maiores transferências de riqueza da história recente.
No Brasil, entretanto, apenas começamos a reconhecer uma verdade fundamental: inclusão financeira não significa autonomia financeira. Ter conta não é ter estratégia. Ter Pix não significa ter liberdade econômica.
Nos últimos anos, tive o privilégio e a responsabilidade de liderar uma experiência que transformou profundamente minha visão sobre esse tema. Quando comandei a Caixa Econômica Federal, ao lançarmos o programa Caixa Pra Elas, praticamente não existiam referências estruturadas no país sobre como dialogar com esse público a partir de uma lógica de autonomia econômica em escala nacional.
Foi preciso construir. Capacitamos mais de oito mil embaixadores da Caixa em todo o território. Criamos trilhas digitais. Inauguramos espaços dedicados às clientes em mil agências. Levamos orientação financeira para comunidades urbanas, periferias e o interior profundo.
Em poucos meses, segundo relatório de administração da Caixa, mais de 40 milhões de brasileiras foram impactadas por essa iniciativa.
No pilar social, estivemos engajados fortemente no enfrentamento à violência doméstica, ajudando essas mulheres a construir, por meio da autonomia financeira, uma possível saída para ciclos de abuso. Porque o dinheiro não pode ser usado como ferramenta de controle nas relações.
Ali uma constatação se tornou impossível de ignorar. O maior desafio da autonomia financeira feminina não começa na renda, mas no comportamento. Em todas as faixas sociais, encontrei um padrão recorrente. Pessoas extremamente capazes, de beneficiárias de programas sociais a executivas de alta renda, frequentemente educadas para administrar escassez, mas não para construir abundância. Das casas na periferia aos conselhos de administração de grandes empresas, o fenômeno muda de forma, mas não de essência.
Os dados corroboram essa percepção. Hoje, mais de 40% dos lares brasileiros são liderados por mulheres, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já o estudo Raio X do Investidor Brasileiro, da ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), aponta que elas ainda investem menos, assumem riscos menores e concentram seus recursos em instrumentos patrimoniais de baixa sofisticação.
Isso não é falta de capacidade. É falta compreensão. É resultado de anos de um desenho institucional, cultural e comunicacional que jamais reconheceu plenamente a mulher como indivíduo econômico.
Foi essa constatação que me levou, nos últimos três anos, a aprofundar esse debate em parceria com o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, instituição de excelência. Queremos trazer base científica, ampliar a discussão acadêmica e conectar finanças, comportamento e tomada de decisão. A pergunta é: por que elas produzem renda, lideram famílias, empreendem, ocupam conselhos empresariais e transformam comunidades e ainda se sentem inseguras diante do dinheiro?
A resposta não está apenas na matemática. Está na ciência do comportamento e na neurociência da decisão. E aqui nasce uma das maiores teses econômicas do Brasil. Não estamos falando de nicho, mas de produtividade, formação de patrimônio, consumo qualificado, mercado.
Estamos falando de fortalecimento da família em seu principal alicerce. Afinal, quando as mulheres conquistam autonomia financeira, não transformam apenas a própria vida. Transformam padrões de consumo, a educação dos filhos e a poupança da família. Transformam comunidades e gerações.
Este deixou de ser um debate sobre diversidade e passou a ser sobre liberdade e capital financeiro. Precisamos agora impulsionar esse movimento nacionalmente. Porque o caminho da inclusão financeira será digital, mas o futuro para a prosperidade do país será, inevitavelmente, também feminino.
*Daniella Marques é ex-Presidente da Caixa Econômica Federal, Presidente do Conselho e sócia da Legend Capital e cofundadora da plataforma de autonomia financeira Caixa pra Elas.