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Colunista

Apostas esportivas: o que você precisa saber antes de se deixar levar pela emoção

Os danos econômicos e psicológicos causados pelas plataformas de jogos online atingem as populações mais vulneráveis

Por Eduardo Mira

30/08/2024 | 14:55 Atualização: 30/08/2024 | 14:55

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Apostas esportivas (Foto: Adobe Stock)
Apostas esportivas (Foto: Adobe Stock)

As apostas esportivas online tornaram-se um fenômeno mundial, com consequências desastrosas principalmente em economias emergentes, como a brasileira. Alimentadas por campanhas publicitárias com orçamento milionário e pela promoção de artistas, celebridades e influenciadores digitais, as apostas esportivas seduzem milhões de pessoas com a promessa de lucros rápidos e entretenimento fácil.

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Os danos econômicos e psicológicos causados pelas plataformas de jogos online atingem principalmente as populações mais vulneráveis, tornando-se, cada vez mais, uma questão de saúde pública.

Os Estados Unidos apontam danos à economia das famílias

Com a legalização das apostas esportivas em diversos países, incluindo o Brasil, esse mercado cresceu exponencialmente. Em 2023, apenas nos Estados Unidos, o volume de apostas atingiu 120 bilhões de dólares, gerando 11 bilhões em receitas para a indústria dos jogos.

O ponto crítico é que esse enriquecimento da indústria de apostas vem ocorrendo à custa de sérios danos às finanças pessoais de milhares de famílias.

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Em julho deste ano, um estudo publicado conjuntamente por escolas de negócios de três universidades dos Estados Unidos, apontou que a legalização das apostas nos EUA levou a uma redução de quase 14% nos investimentos líquidos em contas de corretoras tradicionais. Ou seja, para cada dólar gasto em apostas, mais de dois dólares deixaram de ser investidos em opções de maior valor esperado. Além disso, verificou-se também o aumento das dívidas em cartões de crédito.

O estudo revelou ainda que a legalização das apostas esportivas online resultou em um aumento médio de USD 25 por trimestre nas apostas das famílias. Para aquelas que apostam, o valor médio sobe para USD 280 por trimestre, ou mais de USD 1.100 por ano.

São números muito preocupantes, na medida em que desviam recursos de investimentos produtivos, além de aumentar a instabilidade financeira entre as famílias de menor renda.

O Brasil está entre os países que mais apostam

No Brasil, o cenário não é diferente do verificado nos Estados Unidos. A proliferação de sites de apostas, amplamente promovidos por influenciadores e celebridades, contribuiu para que cada vez mais brasileiros entrassem nesse mercado. Entretanto, as consequências para a saúde financeira das famílias, especialmente as de baixa renda, são muito graves.

Estudo recente divulgado pelo Banco Itaú estima que os brasileiros movimentaram em transações com apostas e jogos online aproximadamente R$ 112,5 bilhões nos últimos 12 meses.

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Os números são estimativos, pois devido à ausência de regulação mais efetiva e também ao fato de a maioria das empresas que operam com apostas no Brasil serem reguladas e sediadas fora do país, não se consegue apurar integralmente os montantes movimentados. Isso, inclusive, adiciona mais uma questão importante a esse cenário desafiador: precisamos de regulamentação ampla, e precisamos logo!

Como medir danos à saúde mental decorrente do vício em jogos, os danos materiais do endividamento, as famílias devastadas por essas duas questões, as perdas para a economia como um todo, incluindo os gastos com saúde pública e a desaceleração de setores de mercado, em decorrência do alto endividamento dos cidadãos?

O Instituto Locomotiva publicou um estudo onde informa que 86% dos brasileiros que fazem apostas online já estão endividados. Aproximadamente 52 milhões de pessoas apostam em sites ou apps e 79% deste público pertence às classes C, D e E.

Os Influencers também são responsáveis?

A popularidade das apostas esportivas online deve-se muito à promoção feita por influenciadores digitais. Com milhões de seguidores nas redes sociais, esses influenciadores têm o poder de moldar comportamentos e influenciar decisões financeiras de seus seguidores.

Ao promoverem plataformas de apostas focando apenas nos cachês milionários que recebem para isso, influencers demonstram total ausência de ética, responsabilidade social e compromisso com o público, em sua maioria jovens e altamente suscetíveis a comportamentos de risco e aos vícios em jogos de azar.

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Além disso, a falta de transparência sobre os riscos reais das apostas contribui para a perpetuação de um ciclo de endividamento e instabilidade financeira. Sendo assim, qualquer influencer que ganhe dinheiro de publicidade com bets, ignorando o contexto socioeconômico e cultural e os danos que as apostas online vêm trazendo às famílias, está negligenciando sua responsabilidade moral, ou seja, esse tipo de influencer só vê seu público como instrumentos para potencializar seus ganhos, mais nada.

Por que as pessoas preferem apostar a investir?

Além da influência externa promovida por um tipo de marketing milionário, agressivo e predatório, há uma série de vieses comportamentais que levam as pessoas a preferirem apostas de risco em vez de investimentos mais seguros.

Os vieses comportamentais são uma espécie de atalho que o cérebro humano utiliza para automatizar algumas decisões, de forma a economizar energia e tempo de raciocínio para certas escolhas. Eles são muito úteis para decisões mais simples do cotidiano, contudo, ao serem utilizados em momentos que deveríamos estar atentos e racionalizando ao máximo, os vieses acabam nos induzindo a erros sistemáticos que podem causar danos importantes.

Um desses vieses comportamentais é o viés do otimismo, onde os apostadores superestimam suas chances de ganhar. Essa crença de que “dessa vez será diferente” faz com que muitas pessoas continuem apostando mesmo após sucessivas perdas.

Outro viés relevante é o da disponibilidade, que ocorre quando as pessoas baseiam suas decisões em exemplos imediatos e facilmente acessíveis. Como os ganhos em apostas são frequentemente destacados na mídia e nas redes sociais, isso cria a falsa impressão de que ganhar é comum e fácil. No entanto, as perdas, que são muito mais frequentes, raramente recebem a mesma atenção.

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O viés de confirmação também ocupa espaço importante. As pessoas tendem a buscar informações que confirmem suas crenças pré-existentes e a ignorar evidências que as contradigam. Isso leva os apostadores a focar nos poucos casos de sucesso que observam, ignorando as estatísticas que mostram que, na maioria das vezes, as apostas resultam em perdas.

Temos ainda o viés do comportamento de manada que leva muitas pessoas a seguirem o que, supostamente, todos estão fazendo. Se as apostas esportivas estão sendo promovidas por figuras populares e aceitas socialmente, mais pessoas serão inclinadas a participar, acreditando que, se muitos estão fazendo, deve ser seguro ou benéfico.

Esses são alguns exemplos de vieses, mas há muitos outros. Quanto mais você estudar sobre isso, mais irá se autoconhecer e, dessa forma, evitar cair em armadilhas potencialmente perigosas.

Apostas online não vão te enriquecer

Se você acha que o vício em jogos só acontece com os outros, que você sabe seus limites e a hora de parar, e que tem total controle sobre isso, devo te dizer que você está mais vulnerável do que imagina. Pois o excesso de confiança é um viés comportamental bem perigoso.

Apostas online enriquecem basicamente dois perfis de pessoas: os donos das casas de apostas e os influencers e celebridades contratadas para divulgar os serviços. Temos então um tripé: numa ponta está quem provê o serviço, noutra, quem o divulga e na terceira, quem consome e, portanto, sustenta a operação.

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A ponta de quem divulga não vai perder nunca, pois é paga para dar visibilidade ao negócio. Sobram duas pontas, onde para uma ganhar a outra tem que perder, afinal é um jogo. Acontece que ninguém abre um negócio para perder dinheiro, certo? Então, acho que você já entendeu qual o elo frágil nessa tríade, não é mesmo?

É urgente que governos criem regulamentações rígidas para as apostas online, e principalmente, que proíbam a publicidade desse tipo de serviço. Somente assim será possível mitigar os danos potenciais e proteger aqueles mais suscetíveis às suas armadilhas.

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