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Nos últimos meses, esse debate ganhou força com estimativas de dívida pública se aproximando de 85% do Produto Interno Bruto (PIB), juros reais elevados e um ambiente político que dificulta ajustes. Então, não dá para ignorar que o risco existe. No entanto, ele costuma ser mal interpretado.
Antes de qualquer coisa, é importante esclarecer: aqui, quando falo em “quebrar”, não estou me referindo a um calote clássico, como o de países que deixam de pagar suas dívidas de um dia para o outro. O risco brasileiro é mais sutil, mais lento e, justamente por isso, mais perigoso.
O ponto central está na trajetória da dívida pública. Após a pandemia, o Brasil saiu de uma dívida bruta próxima de 72% do PIB, em 2022, para projeções que superam 83% em 2026, segundo dados oficiais do Tesouro Nacional. Em paralelo, o déficit nominal gira em torno de 8% do PIB, um número elevado para qualquer economia.
Isso acontece porque o gasto público cresce de forma quase automática. Previdência, benefícios sociais e despesas indexadas ao salário mínimo avançam acima da inflação, enquanto a economia cresce pouco. Nas últimas décadas, o salário mínimo acumulou aumento real muito superior ao avanço da produtividade do País.
O resultado desse descompasso é simples de entender: o governo gasta mais rápido do que a economia cresce e para financiar essa diferença, emite dívida. Quanto maior a dívida, maior o gasto com juros e quanto maior o gasto com juros, mais difícil fica sair desse ciclo.
Com uma política fiscal frágil, sobra para o Banco Central (BC) segurar a inflação. Isso explica por que o Brasil convive há anos com juros reais muito elevados, acima de 6% ou 7% ao ano.
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Na prática, o País passa a trabalhar para pagar juros, não para investir. Parte relevante do orçamento é consumida pelo serviço da dívida, o que reduz espaço para políticas públicas mais eficientes e para investimentos em infraestrutura, educação e produtividade.
Se nada mudar, as projeções são bem desconfortáveis e, em se mantendo as regras atuais, a dívida pode continuar crescendo ao longo da próxima década, pressionando ainda mais os juros e limitando o crescimento.
O risco existe, mas não necessariamente vai acontecer, pois o Brasil tem características que reduzem muito o risco de um colapso abrupto. A maior parte da dívida é emitida em moeda local, temos um mercado financeiro doméstico profundo e reservas internacionais próximas de US$ 350 bilhões. Isso dá capacidade de rolagem da dívida mesmo em cenários adversos.
Além disso, temos exemplos clássicos de países com dívida bem mais elevada que seguem funcionando, como o Japão e os Estados Unidos. A diferença é que esses países têm juros baixos e maior credibilidade institucional, com isso a trajetória da dívida desses países apresenta crescimento muito lento, enquanto a nossa aumenta rápido.
O maior perigo para 2027 não é quebrar, mas entrar em um regime de estagnação prolongada. Um País com dívida alta, juros cronicamente elevados, crescimento baixo e pouca capacidade de investimento.
Nesse cenário, a economia até funciona, mas funciona mal. O crédito se torna caro, o investimento tímido e o crescimento do PIB per capita fica próximo de zero. A população não empobrece de uma vez, mas também não enriquece. É uma estagnação perigosa que conhecemos bem e que corrói o bem-estar ao longo dos anos.
Do ponto de vista matemático, a solução é conhecida. Para estabilizar a dívida, o País precisa gerar superávits primários consistentes, algo em torno de 2% do PIB ao ano, combinados com crescimento econômico.
O Brasil já fez isso no passado. Entre meados dos anos 2000 e o início da década passada, conseguiu reduzir a dívida de forma relevante numa combinação de crescimento, controle de gastos e credibilidade.
Hoje, entretanto, o desafio é político. O arcabouço fiscal em vigor estabelece metas modestas e abre espaço para contabilidade criativa. Ao mesmo tempo, o Congresso amplia gastos via emendas, pressionando ainda mais o orçamento. Sem enfrentar essa rigidez, qualquer promessa de ajuste tende a ficar pela metade.
Eleições sempre elevam o risco. Em anos pré-eleitorais, cresce a tentação de estimular a economia via gasto público, adiando o problema para o futuro. O mercado financeiro já “viu esse filme” várias vezes por aqui e por isso mesmo cobra prêmio de risco mais alto, o que aparece nos juros longos.
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Por outro lado, um novo governo, seja qual for, pode usar o capital político do início do mandato para promover ajustes mais duros. Difícil dizer, neste momento, se esse caminho será o nosso, mas a história mostra que, quando isso acontece, os juros caem rapidamente e o crescimento reage.
Há três cenários possíveis. No pior, o País insiste em empurrar o problema com a barriga, a dívida continua crescendo e os juros permanecem elevados, com crescimento baixo ou até inexistente. No cenário intermediário, algum ajuste acontece, suficiente para estabilizar a dívida, mas sem grande aceleração da economia.
No cenário mais positivo, reformas estruturais reduzem a rigidez do gasto, aumentam a produtividade e permitem uma queda mais consistente dos juros. Esse é o caminho mais difícil politicamente, mas o único capaz de destravar o Brasil.
Estamos diante de uma encruzilhada bem desafiadora onde o risco existe, mas não se resolve com pânico. A solução envolve diagnóstico correto, escolhas difíceis e, sobretudo, vontade política de enfrentar o problema onde ele realmente está.
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