Foto fraca, filme promissor: a Isa Energia (ISAE4) consegue sustentar dividendos com dívida perto do limite?
Com lucro em queda e dívida crescente, a transmissora promete manter o payout de 75% enquanto aposta que novos projetos resolverão a equação da alavancagem
ISA Energia Brasil registrou Ebitda de R$ 854 milhões no 4T25 e manteve ciclo de investimentos elevado. (Foto: Adobe Stock)
Em tempos de guerra no mundo, a Isa Energia (ISAE4) parece estar em paz com o seus resultados divulgados recentemente, mesmo tendo apresentado um tombo no lucro líquido regulatório de 40,4% no quarto trimestre de 2025 na comparação anual e uma queda de 21,7%, se observado o desempenho de 2025 cheio diante 2024.
A dívida, como já era esperado, continua subindo diante da necessidade de novos investimentos para repor a receita da RBSE (Rede Básica Existente), uma indenização paga à transmissora que encerra já em 2028, que representa 30% da receita anual da companhia.
O investidor, principalmente aquele focado em dividendos, não é nem um pouco fã de endividamento – afinal isso representa uma ameaça, dado que uma empresa pode priorizar reduzir a sua dívida, em vez de remunerar acionistas, o que seria uma postura coerente. No negócio de energia elétrica, contudo, por se tratar de empresas que precisam investir com força para crescer, o mercado até “atura” uma alavancagem elevada, de preferência que não ultrapasse o patamar de 4 vezes o indicador dívida líquida sobre Ebitda (juros antes de lucros, impostos, depreciação e amortização).
Na Isa Energia, estamos cada vez mais operando no teto do limite desejável. A dívida líquida da transmissora teve um salto anual de 38,1%, enquanto a dívida bruta subiu 20,6% na comparação anual.
A alavancagem chegou ao patamar de 3,63 vezes o Ebitda, bem próximo do limite considerado aceitável. Segundo afirmou a CFO Silva Wada a esta coluna, deve ficar muito próxima de 4 vezes, ou no limite até 4,5 vezes em 2026.
O CEO Rui Chammas me disse em entrevista que para entender a “foto” atual da queda do lucro, o investidor precisa lembrar qual é o plano em andamento que está acontecendo há alguns anos, para repor a RBSE e que até aqui, tem rendido seus bons frutos. “O investidor precisa compreender o filme para poder apreciar a foto”, comentou.
Como de praxe, nesta coluna, trago minhas opiniões sinceras sobre esta frase, após conversa com o CEO e CFO da companhia.
Endividamento
O endividamento sim, reconheço, gera bastante desgaste, embora a transmissora sempre sinalize que está tudo sob controle. “Está dentro do nosso planejado e é algo temporário”, defende Silvia Wada.
Publicidade
Como ela mesmo apontou, a alavancagem até pode chegar a 4,5 vezes, embora a expectativa seja de se manter próxima de 4 vezes, nos próximos meses. Apesar do discurso dessa dívida alta ser necessária e estar sob total controle, alguns analistas têm se mostrado receosos com o aumento do endividamento.
“Prevemos que vamos continuar com um patamar de dívida mais elevada e em tendência de aumento nos próximos 2 anos. Até 2028”, afirma Wada.
Segundo a executiva, tudo tende a se equacionar no caminho, com a entrada de receita de novos projetos atualmente em construção. No radar da companhia, tem uns quatro em andamento, sendo dois que vão entrar em operação ainda no primeiro semestre de 2026 e os maiores, Serra Dourada e Itatiaia, que passam a contribuir com a receita em 2027 e 2028.
“São todos projetos importantes para o incremento de receita e que vão inverter esse indicador de endividamento”, destaca Wada.
Chammas, o CEO, manifesta que não está preocupado com os receios de alguns analistas sobre a dívida. Na visão dele, analista que acompanham a Isa Energia, já fizeram projeção da curva de investimento e resultado esperado, então compreendem bem o aumento da alavancagem.
“Eu diria que está tudo muito bem planejado e compreendido pelo mercado. Não sei quem ficou surpreso, mas diria que o planejamento de longo prazo está bem assimilado como boa estratégia pelo mercado”, opina.
Uma eventual queda nos juros pode também amenizar esse cenário, com redução do custo de dívida e os recursos destinados a despesa financeira, mas, segundo Wada, a Isa Energia está sempre procurando oportunidades de deixar a dívida mais eficiente, fazendo troca de dívidas mais caras por novas emissões e dívidas mais baratas. A CFO exemplifica que recentemente a empresa reduziu uma dívida de CDI (principal indexador da renda fixa) mais 1,55% por outra de CDI mais 0,55%.
Dividendos
Sobre dividendos, quase nenhuma novidade sob o sol. A Isa Energia ainda segue comprometida com a sua famosa filosofia de tripé financeiro, equilibrando endividamento controlado, crescimento competitivo e sem sacrificar os bons dividendos.
Mesmo com a dívida em trajetória de alta contínua, a transmissora segue firme em distribuir 75% do seu lucro líquido regulatório até 2028, com zero pretensões de alterar sua prática.
O que mudou um pouco foi a frequência dos proventos, que, após demandas dos investidores, passaram a ser mais recorrentes. Antes a companhia concentrava seus pagamentos em uma única vez ao ano, depois passou a parcelar o pagamento em três vezes, para dar um efeito psicológico melhor de frequência.
E depois, em 2025, passou a fazer mais anúncios por ano. Antes eles se concentravam em dezembro e passaram a ter mais dois, um em cada semestre.
Publicidade
Em 2025, por exemplo, teve 6 pagamentos de proventos, nos meses de janeiro, fevereiro, março, novembro e dezembro. Já em 2024 foram apenas 2, em janeiro e abril.
Para 2026, já tem seis pagamentos programados até o momento.
Mesmo com uma melhora clara na frequência das distribuições, a Isa Energia sempre fica em cima do muro quando questionada se vai colocar isso de forma fixa no seu estatuto social, para integrar uma política de dividendos formal ao mercado. Eles preferem algo mais flexível e que não traga um tom de obrigatoriedade, o que facilitaria fazer ajustes em casos de investimentos elevados.
“Temos procurado fazer pagamentos mais frequentes e a receptividade do investidor tem sido muito boa. Ajudou a melhorar a liquidez e turnover da ação, um fator positivo. Não pensamos em formalizar, mas está no nosso radar ter mais pagamentos no ano, como já estamos fazendo”, defendeu a CFO.
Investimentos e leilões
Sobre participar de novos leilões de transmissão, os C-Levels justificam não ser conservadores e sim racionais. Para Chammas, o apetite de investir existe, mas desde que não comprometa mais o endividamento e a disciplina financeira.
Publicidade
Ele explica que a empresa está em um pico de investimento, que pode reduzir nos próximos anos. No momento, segundo o CEO, ainda há espaço para R$ 12,3 bilhões serem investidos. “Justamente por isso, vamos analisar cada oportunidade de leilão”, reforça.
Rui costuma defender seu próprio mantra “A gente não pode ser arrojado, corajoso, apaixonado quando vai para um leilão, tem que ser racional. Se coloca paixão, faz besteira”, comenta.
Sobre a recomposição da RBSE, os executivos manifestam que está tudo sob controle. Já sobre a indenização do processo da Sefaz SP, sobre pagamento de aposentadorias, nenhuma novidade para o curto prazo, após mais uma prorrogação de 180 dias.
Maga sincera
Apesar do tombo no lucro, é inegável que as coisas não saíram do controle para Isa Energia, os fundamentos persistem, em meio a um endividamento indomável e que quase tem vida própria. Os investidores podem respirar em paz, pelo menos com a transmissora, no meio a esta guerra. Tudo indica que até 2028 ela conseguirá repor a receita da RBSE e iniciar uma trajetória de desalavancagem.
Por outro lado, há um ponto levantado pelos analistas: o fato de a ação estar cara, observando os múltiplos atuais, ISAE4 negocia a um preço sobre lucro (P/L) de 7,63, o que permitira um dividend yield de 5% para o ano de 2026.
Publicidade
Com proventos magros, endividamento crescente, será que vale dar uma chance a ação?
A CFO Wada diz que a transmissora trabalha sempre pensando na geração de valor da companhia. “Cotação, preço da ação, é algo que flutua com força e não está no nosso controle”.
Mas da mesma forma que os C-Levels gostam de ser racionais nas suas estratégias de investimento, nós, investidores, não podemos nos guiar pela paixão e a promessa do futuro. O cenário são dividendos magros no curto prazo, fundamentos sólidos e robustos no longo prazo. Até a próxima, jacarezada.