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O olhar do mercado internacional

Thiago de Aragão é diretor de estratégia da Arko Advice e assessora diretamente dezenas de fundos estrangeiros sobre investimentos no Brasil e Argentina. Sociólogo, mestre em Relações Internacionais pela SAIS Johns Hopkins University e Pesquisador Sênior do Center Strategic and International Studies de Washington DC, Thiago vive entre Washington DC, Nova York e Brasilia.
Twitter: @ThiagoGdeAragao

Escreve às sextas-feiras, a cada 15 dias

Thiago de Aragão

Saiba por que 2022 vai ser o ano do mineral raro

Os governos de Pequim e Washington entendem que controle de suprimentos minerais dará vantagem

Bens tecnológicos de uso recreativo, como os celulares, necessitam de minerais raros para fabricação. Foto: Tiago Queiroz/Estadão
  • O ano de 2022 tem tudo para ser, de uma forma mais explícita do que em outros anos, o ano do controle, da aquisição e da garantia de recursos minerais
  • Em 1985, a China já possuía 300 centros de pesquisa dedicados à pesquisa, estudo de cadeia de fornecedores, análise aplicada, inclusive para potenciais riscos futuros condicionados a minerais raros

O caos que se instalou no mundo nos últimos 24 meses não impediu que certos planejamentos nacionais saíssem do esperado. Obviamente, temos países mais e menos capacitados na arte de planejar.

A China, por exemplo, dada a natureza do seu sistema de governo, que observa a sociedade por todos os ângulos e está sempre de olho no ambiente político que vigora em países amigos e rivais, mantém seu planejamento de forma precisa.

Manter o planejamento funciona como um mecanismo de autoproteção, controle e de preservação do poder absoluto do Partido Comunista Chinês à frente do governo do país.

O ano de 2022 tem tudo para ser, de uma forma mais explícita do que em outros anos, o ano do controle, da aquisição e da garantia de recursos minerais. Poucas vezes na História vimos a importância estratégica da existência no território de um país de diversos tipos de minerais, raros ou não, ser encarada de forma tão evidente em suas políticas nacionais.

Em 1985, a China já possuía 300 centros de pesquisa dedicados à pesquisa, estudo de cadeia de fornecedores, análise aplicada, inclusive para potenciais riscos futuros condicionados a minerais raros.

Em 1986, o sétimo “Plano Nacional de 5 anos para Minerais Raros” estipulou uma atenção central por parte de Pequim no controle estatal de todos os processos na cadeia de aquisição, aplicação e exportação. Assim, designaram seis empresas estatais que poderiam operar nessa área, eliminando empresas menores e mineradores ilegais que operavam no país.

Os governos de Pequim e Washington, e possivelmente de mais alguns países no mundo (como Rússia, Franca, Japão, Austrália, Canadá etc.) entendem que recuperação econômica, projeção de poder, crescimento e modernização militar e vantagem comparativa de um país para o outro passarão invariavelmente pelo controle ou inserção na cadeia global de suprimentos minerais.

O que o mundo deseja, comercialmente, hoje em dia? Bens tecnológicos de uso recreativo (telefone, videogames, computadores, televisores etc.), equipamentos geradores de energia limpa (painéis solares, turbinas eólicas), bens tecnológicos de uso empresarial (servidores, satélites, baterias), entre outros. Tudo isso necessita do uso de minerais raros que não são igualmente “divididos” entre regiões no mundo. Todas essas necessidades escoam para subcategorias que ilustram grande parte das disputas existentes entre EUA e seus aliados versus China e seus aliados:

Comunicações: A computação quântica possibilitará um marco na modernização da comunicação militar, tornando as atuais tecnologias de interceptação de mensagens praticamente obsoletas. Além disso, na esfera do uso comercial, os avanços do 5G pelo mundo requerem kits de 5G e linhas de fibra ótica que, obviamente, necessitam de uma variedade de minerais.

Energia Limpa: Seja na produção de energia via painéis solares, turbinas eólicas ou em outras formas, o uso de baterias de lítio, polisilicones, cobre refinado, fibras de carbono etc são cada vez mais demandados no mundo.

Militar: Não só na área da comunicação, mas no desenvolvimento tecnológico de computação quântica e na inteligência artificial, esse desenvolvimento traz uma aplicabilidade imediata à área militar para quem souber aproveitar.

Tomemos como exemplo a produção de baterias. As matérias primas para produzir baterias são Cobalto, Lítio, Nióbio-Níquel, Manganês, Silicone, Cobre, Titânio, Alumínio, Fósforo, Flúor e Estanho.

Essas matérias primas estão distribuídas da seguinte forma: 32% na China, 21% na Africa, 21% na América Latina e 26% espalhadas em outros lugares do mundo.

O passo seguinte é a necessidade de materiais de processamento (matérias para cátodos e materiais de ânodo). Hoje, 52% desses materiais estão na China, 31% no Japão e 8% na União Europeia.

Em seguida, os componentes necessitam de cátodos, ânodos, eletrólitos e separadores, divididos da seguinte forma: 52% na China, 31% no Japão e 9% na União Europeia. Por fim, as baterias de lítio-ion são montadas na China (66%), EUA (13%) e resto da Asia (13%).

O que isso nos revela? À medida que o mundo depende cada vez mais de baterias de lítio (veículos elétricos, celulares, computadores, painéis solares, turbinas eólicas, brinquedos, eletrônicos em geral, equipamentos médicos etc), a China amplia uma vantagem estratégica em relação a outros países, principalmente aos EUA, por conta de sua predominância em todas as fases da cadeia de produção.

Mesmo na fase das matérias-primas, o cobalto já está sendo explorado por empresas chinesas na República Democrática do Congo, dono de uma das principais reservas no mundo (60% do cobalto usado na China vem do Congo). Sobre o lítio, abundante na Argentina, Chile e Bolívia, já observamos empresas mineradoras chinesas conquistando o direito de exploração partilhada ou total dessas reservas. Hoje, 80% da capacidade global de produção de baterias concentra-se na China.

Os riscos geopolíticos existentes nas rotas marítimas de importação das matérias primas e exportação dos produtos acabados traz enorme preocupação para Pequim, fazendo com que a própria ideia de invasão de Taiwan seja avaliada cuidadosamente para que, caso ocorra, não prejudique as rotas essenciais para a manutenção da máquina econômica chinesa.

Em 2022, fui incumbido por alguns clientes a observar sinais e movimentações em áreas que me deixariam muito surpreso há alguns anos: a dinâmica das relações entre China e Congo, China e Bolívia/Argentina/Chile. Há estabilidade econômica, política e sanitária nas províncias chinesas que refinam, mineram muitos desses minerais, assim como as províncias produtoras dos produtos acabados.

Devo observar também a logística das rotas de navegação e como elas poderiam ser impactadas por eventualidades militares (mesmo não relacionadas diretamente à China, como os conflitos próximos ao Mar Vermelho).

Enfim, acontecimentos inesperados que 2022 nos trará deverão ser muitos, no entanto, algumas surpresas poderão ser identificadas por meio de pequenos sinais que podem surgir em locais esquecidos do mundo, como Kinshasa ou Xian.

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