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Colunista

A crise da economia chinesa: a perda de confiança no crescimento e no governo

Enquanto o país lida com pressões internas e externas, a sociedade começa a expressar dúvidas

Por Thiago de Aragão

09/10/2024 | 16:12 Atualização: 09/10/2024 | 16:12

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China. (Foto: Envato Elements)
China. (Foto: Envato Elements)

A economia chinesa, outrora um símbolo de crescimento inabalável e de promessas de prosperidade, enfrenta agora um dos maiores desafios desde sua abertura ao mundo. A decepção no mercado de ações, como visto recentemente com o desempenho errático de índices como o CIS 300 e o Hang Seng de Hong Kong, reflete uma crise mais profunda — aquela que questiona a capacidade do governo de manter o crescimento econômico acelerado prometido para durar por décadas. Enquanto o país lida com pressões internas e externas, a sociedade começa a expressar dúvidas, com questionamentos se o governo ainda pode cumprir suas promessas.

Leia mais:
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O rali nos mercados chineses durante o feriado da Semana Dourada trouxe um momento passageiro de otimismo. O CIS 300 disparou mais de 10% nas primeiras negociações, apenas para ver esses ganhos recuarem para 5,9% até o final do dia. Da mesma forma, o índice Hang Seng de Hong Kong despencou mais de 10% antes de recuperar levemente, ainda assim encerrando com seu pior desempenho desde 2008. Essa volatilidade destacou uma preocupação crescente: apesar dos esforços do governo, incluindo anúncios de estímulos, os investidores estão cada vez mais céticos de que Pequim tenha as ferramentas ou a disposição para redirecionar a economia de volta aos trilhos.

  • Leia mais: O rali da bolsa da China vai continuar? Veja o que dizem analistas do UBS

A raiz desse ceticismo reside na falta de ações concretas por parte do governo. Embora a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China tenha expressado confiança em atingir suas metas econômicas, forneceu poucos detalhes sobre como pretende alcançá-las. O anúncio de antecipação de 200 bilhões de yuans (US$ 28 bilhões) do orçamento do próximo ano para apoiar projetos de investimento foi visto como insuficiente para reacender o crescimento. Investidores e analistas estão clamando por medidas fiscais mais robustas, mas a relutância de Pequim em liberar um pacote de estímulo mais significativo tem alimentado dúvidas.

Desafios além do mercado acionário

Os desafios econômicos da China vão muito além do mercado de ações. O setor imobiliário, antes motor de crescimento do país, está em crise, arrastando indústrias relacionadas e abalando a confiança do consumidor. A dívida pública está crescendo, o desemprego juvenil atingiu recordes e muitas famílias chinesas estão sentindo os efeitos da diminuição de suas economias. Mesmo enquanto o governo tenta estabilizar a economia, muitos especialistas argumentam que são necessárias reformas profundas e estruturais para criar um crescimento sustentável — reformas que Pequim parece hesitante em implementar.

A decepção no mercado de ações é apenas uma manifestação de uma desilusão mais ampla dentro da própria sociedade. Durante anos, o governo alardeou seu sucesso econômico como um pilar chave de sua legitimidade, enquanto um crescimento explosivo tirava milhões da pobreza. Mas agora, com a desaceleração, as frustrações estão aumentando. Uma pesquisa realizada em 2023 por pesquisadores das universidades de Harvard e Stanford revelou uma mudança drástica no sentimento público: apenas 38,8% dos entrevistados acreditavam que a situação econômica de suas famílias havia melhorado nos últimos cinco anos, uma queda em relação aos 76,5% apurado em 2014. Além disso, menos da metade da população acreditava que suas vidas melhorariam nos próximos cinco anos, ou seja, o pessimismo está em ascensão.

  • Novo pacote econômico da China: como ficam as ações da Vale (VALE3) e siderúrgicas?

China: economia desacelera e aumenta desilusão com controle total do governo

Para o Partido Comunista Chinês (PCC), essa erosão da confiança é perigosa. O contrato social do Partido com seu povo sempre esteve centrado na promessa de prosperidade em troca de controle político. No entanto, à medida que a economia desacelera, as fissuras nesse contrato social estão se tornando visíveis. As gerações mais jovens, especialmente os graduados universitários, estão cada vez mais desiludidas com a ideia de que o trabalho árduo será recompensado. Isso deu origem a fenômenos como o “deitar-se”, um movimento em que os jovens rejeitam a pressão incessante para ter sucesso, optando por um estilo de vida mais simples e menos materialista. Outros voltaram a morar com os pais, incapazes de encontrar emprego ou esgotados demais para continuar na corrida profissional.

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As queixas econômicas também estão alimentando protestos em todo o país. Segundo o China Dissent Monitor, em 2024 houve um aumento de 18% nos protestos em comparação ao ano anterior, muitos deles motivados por questões econômicas, como salários não pagos, disputas de terras e a crise imobiliária. Embora esses protestos permaneçam pequenos e rigorosamente controlados pelo governo, acabam servindo como um termômetro para demonstrar a crescente insatisfação entre os cidadãos chineses.

Apesar desses desafios, o PCC permanece confiante publicamente. Em discursos recentes, o presidente Xi Jinping reconheceu os “perigos potenciais” que o país enfrenta, mas expressou fé na capacidade da China de superá-los. O governo intensificou seu controle sobre a narrativa, censurando discussões sobre as dificuldades econômicas nas redes sociais e reprimindo influenciadores que ostentam riqueza. No entanto, por trás dessa fachada, a pressão está aumentando.

  • Crise imobiliária: os anos de glória da economia chinesa chegaram ao fim?

A economia global está observando de perto. As dificuldades do país já afetaram os mercados internacionais, com commodities como minério de ferro e cobre observando quedas nos preços à medida que a demanda da segunda maior economia do mundo diminui. Enquanto isso, empresas com grande exposição à China estão se preparando para as consequências.

À medida que a China enfrenta seu teste econômico mais sério em décadas, o mundo se pergunta: Pequim conseguirá restaurar a confiança e revitalizar o crescimento, ou estamos assistindo ao início de um declínio de longo prazo? Mais importante ainda, o governo chinês será capaz de manter seu controle sobre o poder se não puder mais cumprir a promessa de prosperidade? As respostas a essas perguntas moldarão não apenas o futuro da China, mas também o cenário econômico global nos próximos anos.

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