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Colunista

EUA x China: como a guerra comercial entre as duas gigantes ultrapassa fronteiras

Em abril de 2025, a tensão comercial entre os países atingiu novos patamares

Por Thiago de Aragão

09/04/2025 | 13:00 Atualização: 10/04/2025 | 9:51

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Guerra comercial entre EUA e China (Foto: Adobe Stock)
Guerra comercial entre EUA e China (Foto: Adobe Stock)

Os Estados Unidos exercem, na prática, o papel de banco central do mundo, em razão da posição do dólar como principal moeda de reserva global. A China, por sua vez, consolidou-se como o parque industrial do planeta, alavancando sua competitividade produtiva independentemente de julgamentos morais sobre justiça ou injustiça. Quando essas duas potências colidem, os impactos transbordam fronteiras: inflação, dumping e, em última instância, pobreza.

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A globalização comercial não foi uma escolha deliberada de um país específico — tampouco das Nações Unidas, como alegam teóricos da conspiração. Trata-se, na verdade, do resultado de uma lógica de eficiência e redução de custos em sociedades moldadas pelo consumo.

A ofensiva de Donald Trump contra o comércio internacional parte da premissa de que os Estados Unidos foram injustiçados por esse sistema. No entanto, ignora que esse mesmo sistema foi essencial para a ascensão americana como superpotência. A emergência da China como rival não decorre do comércio em si, mas sim de um erro estratégico cometido por Washington ao fim da Guerra Fria: a suposição de que democracia e capitalismo caminham necessariamente juntos. Apostou-se que o crescimento econômico chinês levaria, inevitavelmente, a uma democracia robusta. Mas isso não aconteceu — não por culpa do livre comércio, mas em razão das especificidades culturais, históricas e políticas da China. E ela prosperou.

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Em abril de 2025, a tensão comercial entre os dois países atingiu novos patamares. No dia 2, o presidente Trump anunciou uma tarifa adicional de 34% sobre produtos chineses, elevando o total para 54%. Pequim reagiu rapidamente, com tarifas retaliatórias de 34% sobre produtos americanos, a vigorar a partir de 10 de abril. Trump ameaçou responder com uma nova rodada de tarifas, que poderiam levar à taxa total imposta a produtos chineses para estratosféricos 104%.

O Ministério do Comércio da China qualificou as ações americanas como “intimidação unilateral” e não deixou barato, ampliando para 84% as tarifas impostas a produtos americanos. Trump deverá responder com tarifas a produtos farmacêuticos, sabendo que o país é bastante dependente de ingredientes farmacêuticos ativos provenientes da China. Já a China estuda ampliar a quantidade de minerais raros restritos aos EUA, afetando principalmente a indústria de defesa e de alta tecnologia americana.

Especialistas alertam para os riscos dessa escalada. O índice de volatilidade dos mercados disparou para níveis não vistos desde a pandemia de Covid-19, e o Citigroup já reduziu sua projeção de crescimento do PIB chinês para 4,2%, atribuindo o ajuste aos efeitos negativos das tarifas. Nos Estados Unidos, cresce o temor de uma recessão induzida por inflação e queda na confiança dos investidores.

A lógica de Trump não é exatamente nova. Em seu livro “A arte da negociação”, ele descreve uma estratégia de negociação baseada em estabelecer uma demanda absurda como ponto de partida para chegar a um acordo favorável. É exatamente isso que parece estar tentando aplicar agora com a política tarifária. O problema é o custo do teatro: entre a ameaça e o eventual acordo, o mundo paga a conta com inflação, incertezas e retração econômica. Apontar uma arma para o oponente com ela encostada na própria cabeça não é uma estratégia sofisticada — especialmente quando o outro lado pode estar disposto a ver você puxar o gatilho.

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Trump pode recuar? Pode. Mas o dano está feito. O rastro de imprevisibilidade compromete a confiança, desestimula investimentos e reduz o apetite por risco. Nem mesmo seus apoiadores mais entusiasmados conseguem encontrar segurança na condução econômica que ele apresenta nos Estados Unidos — e isso, em política, custa caro.

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