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Colunista

Biden e o Brasil: uma relação muito maior que um post de rede social

Para boa parte das empresas americanas, o mercado brasileiro é de alta importância para sua saúde financeira

Por Thiago de Aragão

12/11/2020 | 15:23 Atualização: 13/11/2020 | 21:10

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Joe Biden, presidente dos EUA (Foto: HilarySwift/TheNewYorkTimes)
Joe Biden, presidente dos EUA (Foto: HilarySwift/TheNewYorkTimes)

As relações entre Brasil e Estados Unidos independem de quem seja o presidente em um país ou outro. Temos inúmeros acordos de cooperação em vigência, da participação americana em lançamentos a partir do Centro Espacial de Alcântara ( de 2019) à cooperação sobre os Usos Pacíficos da Energia Nuclear (de 1997). Esses acordos foram firmados entre governos republicanos e democratas nos EUA e entre governos do PT, PSDB, PSL ,entre outros, no Brasil.

Leia mais:
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Inúmeros fundos de investimentos americanos atuam em nosso país há muitos anos. A integração com fundos brasileiros é profunda. Empresas americanas centenárias estão no Brasil há décadas. Para a enorme maioria dessas empresas, nosso mercado é de alta importância para sua saúde financeira.

Tudo isso seguirá na forma em que está. As predileções pessoais no topo da pirâmide decisória não são suficientes para cancelar, alterar ou dissolver a profunda integração existente entre os dois países. Somos um dos principais fornecedores de turistas aos EUA e seguiremos assim.

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Leia também: As novas perspectivas para o Ibovespa com a vitória de Biden nos EUA 

No entanto, o presidente-eleito Joe Biden manterá divergências importantes em relação a algumas posturas políticas do Presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Isso é normal, e, na política internacional, amizades são cortinas de fumaça, enquanto interesses nacionais estão (e assim deve ser) acima de relações pessoais. Por mais que Biden critique a política ambiental de Bolsonaro, tomar um passo adiante aplicando sanções expansivas, ruptura nas relações e afastamento, não é algo viável.

Independe da vontade dele. O Brasil é importante para os EUA, mas não a ponto de fomentar uma movimentação política de ruptura. Não ameaçamos concretamente os EUA em nada e muito menos a Biden. Ameaçamos, simbolicamente, a narrativa do novo Presidente americano em relação a um tema – meio ambiente –, mas, na engrenagem das relações, o papel das burocracias segue mais importante, mais sólido e mais independente do que muita gente imagina.

Um exemplo é a promessa de Donald Trump em firmar um acordo de livre comércio com o Brasil. Por mais que fosse um desejo, a execução esbarrou na tecnicalidade do poderoso órgão de comércio exterior USTR. Tecnicamente, não julgaram vantajoso aprofundar um acordo dessa maneira.

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Sendo assim, o assunto se tornou dormente e novamente engavetado. Amizades pessoais não impediram Trump de fazer profundas críticas à gestão brasileira da Covid-19. Amizades pessoais também não garantiram o ingresso do Brasil na OCDE, como esperado. Inimizades pessoais também não aniquilariam acordos, cooperação e parcerias. Não é assim que a política externa funciona.

Na pior das hipóteses, não teríamos avanços em novas frentes. A troca de provocações poderia gerar um mal-estar momentâneo, porém mesmo essas trocas de acusações precisam de cautela e inteligência. Não podemos colocar uma história de relacionamento a perder apenas para emitir opiniões ou respostas que satisfaçam redes sociais. O relacionamento de Bolsonaro não é com Biden, é com a Presidência americana. Biden olhará para o Brasil da mesma forma.

Criticar faz parte do jogo

Enquanto Biden pode criticar a política ambiental brasileira, Bolsonaro pode criticar a política energética de Biden. Até aí tudo bem. O problema é tomar uma crítica como um insulto pessoal e, a partir daí, esticar uma corda que não traz benefício algum a nenhum dos lados.

Biden terá um prato cheio para traçar na sua política externa. Deverá lidar com a China como prioridade absoluta. Em um discurso de julho de 2019, disse: “devemos conter a China. Eles roubam nossa tecnologia, nossa propriedade intelectual e prejudicam os EUA”.

A forma de lidar com a China será diferente da forma de Trump, mas não veremos uma frouxidão prática. Democratas tendem a usar a diplomacia e os serviços de inteligência com mais afinco do que Republicanos. Esse será o caminho no qual Biden buscará conter a China. Focando em alianças internacionais, organismos multilaterais (OMC voltará a ter uma grande importância) e sanções em indivíduos do partido comunista chinês.

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A Rússia será um tema de importância também. As negociações do novo tratado de não proliferação nuclear precisam ser finalizadas. Além disso, a expansão da oferta energética russa na Europa, gerando uma dependência maior, preocupa Republicanos e Democratas. Mais do que isso, a Rússia é uma preocupação doméstica para Biden. A polarização inédita na sociedade americana traz uma parcela de culpa da estratégia russa de uso de hackers e redes sociais para expandir notícias falsas e gerar um ambiente caótico.

A Rússia não é pró-Trump ou pró-Biden. Nos EUA, a geração do caos político traz benefícios à política externa russa, que vê o país focado internamente enquanto não os incomoda em outros pontos do globo.

Não é possível explicar política externa em 170 caracteres em redes sociais. São relações complexas e profundas, cheias de nuances e atos submersos. Se não vemos algo publicado ou lemos o que um ou outro faz, não quer dizer que não estão fazendo. Calma e paciência levam a uma política externa bem feita. Emoção e sentimentalismo são vistos como amadorismo nas relações internacionais.

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