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Uma contingência e a Taiwan Semiconductors é a empresa mais importante do mundo

Entenda por que a TSMC é um dos motivos de preocupação de Washington com os movimentos vindos de Pequim

Por Thiago de Aragão

02/03/2021 | 20:28 Atualização: 04/03/2021 | 11:58

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O presidente dos Estados Unidos Joe Biden apresenta um semicondutor (Foto: Doug Mills/The New York Times)
O presidente dos Estados Unidos Joe Biden apresenta um semicondutor (Foto: Doug Mills/The New York Times)

Mais do que nunca, as atenções de investidores na área de tecnologia, membros de governos de vários países e especialistas em segurança nacional se voltam para entender como a China vai desenvolver e aplicar uma estratégia que diminua sua dependência de fabricantes estrangeiros de semicondutores.

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A TSMC (Taiwan Semiconductors) é a líder mundial e a maior produtora de chips, placas e semicondutores. Além disso, é uma das ADRs estrangeiras preferidas pelos investidores, não só nos Estados Unidos, como também no Brasil. Em dezembro de 2020, especialistas em segurança nacional e geopolítica de Washington e Berlim, reunidos em teleconferência, elencaram as razões (desde as óbvias até as menos óbvias) que levariam Pequim a acelerar um processo de invasão a Taiwan nos próximos 5 anos. Nessa reunião, da qual participei, além da questão do nacionalismo histórico e dos aspectos simbólicos (como o desejo de ter Taiwan ‘reincorporada’ à China Continental antes do aniversário da República Popular da China em 2049), a questão da indústria de semicondutores estava no top 10 da lista que elaboramos.

Tudo de relevante dentro do processo de fabricação de produtos de alto valor tecnológico necessita de semicondutores. Na década de 1990, por exemplo, várias empresas globais produziam transistores de 180 nanômetros. Hoje, a demanda principal é por transistores de 5 nanômetros, que possibilitam uma capacidade operacional muito maior com um espaço físico muito menor. Os smartphones da Apple e Huawei, computadores de praticamente todas as marcas, os carros da Tesla etc. utilizam transistores de 5 nanômetros. Hoje, apenas a STM e a Samsung conseguem produzir esse tipo de semicondutor.

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A partir de 2022 a STM produzirá o de 3 nanômetros e, após 2024 ou 2025, o de 2 nanômetros, aumentando exponencialmente seu potencial de uso. Não é à toa que essa empresa desperta muito interesse em quem acompanha tecnologia de perto nas bolsas de NY e de outros lugares no mundo.

A TSMC domina 55% do mercado mundial e esse número deve aumentar à medida que a empresa se especializa em uma produção cada vez mais exclusiva. É aí que mora o problema para a China. A disputa entre China e EUA nos últimos anos envolve várias áreas (financeira, comercial, militar). No entanto, o ponto mais importante é o da disputa tecnológica. A equiparação tecnológica chinesa, não apenas em bens de consumo, mas também em computação quântica, inteligência artificial etc., faz com que a capacidade tecnológica para monitoramento, espionagem e uso militar se torne uma incógnita para os EUA, contribuindo para aumentar a percepção americana de risco.

Enquanto os EUA batem na tecla de violação de propriedade intelectual quando acusam chineses de espionagem industrial e desrespeito à posse de determinado conhecimento, a China avança seu desenvolvimento tecnológico com baixo custo. Em cima disso, quando os EUA aplicaram sanções em cima da SMIC, a empresa chinesa de semicondutores, isso afetou pesadamente a estratégia chinesa de equiparação tecnológica entre a SMIC e a TSMC.

Esta semana, os chineses estão discutindo formas de acelerar a capacidade técnica da SMIC, para que ela possa produzir transistores de 3 nanômetros num prazo mínimo. Se a ideia inicial era o autofinanciamento da SMIC, as sanções e a dificuldade de obter clientes externos obrigam o governo chinês a fazer um aporte que crie as condições para que a SMIC faça em poucos anos o que não conseguiu na última década. Atualmente, a SMIC consegue produzir transistores de 10 nanômetros, que são úteis para muitas coisas, mas não para produtos de ponta. Hoje, só 6% dos produtos que envolvem tecnologia de ponta fabricados na China utilizam semicondutores chineses. Todo o resto é importado.

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À medida que as tensões escalam, se, hipoteticamente, a situação no estreito de Taiwan piora, ou, em última instância, um conflito ocorre na ilha, a capacidade de fornecimento da TSMC para o mundo ficaria comprometida e isso geraria um efeito dominó devastador para a indústria de tecnologia. Só para exemplificar melhor, a Honda e a Nissan diminuíram suas produções este ano justamente pelo prognóstico de falta de chips no mercado.

No Brasil, a estatal CEITEC, que fabrica semicondutores, e é a única na América Latina, vem sendo desprezada pelo governo. Nada impede que se mantenha como estatal, porém a privatização dessa empresa abriria uma oportunidade interessante para nosso país. Dificilmente a empresa rivalizaria com a TSMC, SMIC ou Samsung, mas, num mundo onde poucos fabricam algo tão importante, um investimento privado na CEITEC seria uma ótima notícia para que, quem sabe no futuro, possamos exportar em uma caixa o equivalente a navios e navios lotados de toneladas de minério ou grãos.

Alguns pontos críticos sobre este panorama para observarmos bem: como a China mudará a estratégia da SMIC para não aumentar o risco de depender de semicondutores externos? Como os EUA poderão apertar ainda mais a capacidade de produção tecnológica chinesa? Qual o risco de uma guerra no estreito de Taiwan? Como ficaria a indústria global de carros, celulares, computadores, servidores etc., etc em caso de um problema maior?

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