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Comportamento

Jovens buscam Bolsa e renda fixa para assegurar futuro

Segundo dados da B3, 62% dos investidores pessoas físicas têm até 39 anos de idade

Por Daniel Rocha

30/05/2022 | 3:01 Atualização: 27/05/2022 | 20:16

Yara Albuquerque, de 26 anos, começou a investir no começo do ano passado. (Foto: Arquivo Pessoal)
Yara Albuquerque, de 26 anos, começou a investir no começo do ano passado. (Foto: Arquivo Pessoal)

O fácil acesso à informação sobre o mercado financeiro atraiu investidores cada vez mais jovens para a Bolsa de valores brasileira. De acordo com os dados da B3, atualmente 62% dos investidores pessoas físicas têm até 39 anos de idade.

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Em 2018, a predominância no mercado acionário era de pessoas que tinham no mínimo 40 anos. Esse processo de rejuvenescimento demonstra que os jovens brasileiros estão cada vez mais preocupados com o futuro e enxergam nos investimentos uma garantia de estabilidade.

Ao todo, são mais de 2,6 milhões de investidores com até 39 anos de idade, de um total de 4,3 milhões de pessoas. No entanto, esse grupo nem sempre foi  maioria. Em 2018, o público correspondia a apenas 41% de um total de 700 mil investidores pessoas físicas.

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No ano seguinte, o percentual subiu para 54%, deixando os investidores mais velhos como a minoria da Bolsa brasileira.

Além disso, no período entre o primeiro trimestre de 2021 e o primeiro trimestre de 2022, cerca de 1,5 milhão de novos investidores entraram na Bolsa, segundo dados da B3. Dentro desta nova leva, 72% dos investidores têm até 39 anos.

De acordo com Felipe Paiva, diretor de relacionamento com clientes e pessoa física da B3, o movimento de entrada de pessoas mais jovens no mercado financeiro é um reflexo de uma mudança de comportamento das novas gerações, impulsionada pelo maior acesso às finanças. “É uma mudança geracional, provocada principalmente pela digitalização do ambiente de investimentos, desde a forma de se comunicar das instituições financeiras e influencers até a oferta de novas plataformas de investimentos no celular”, afirma Paiva.

As inovações feitas pelas corretoras de investimentos e o surgimento de novas plataformas ajudaram a encurtar o caminho do público mais jovem até o mercado financeiro. “A antiga burocracia para a abertura de uma conta bancária ou fazer um cadastro em uma corretora também já ficou para trás”, ressalta Eduardo Filho, especialista em educação financeira e de investimentos da Ágora.

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A redução dos custos de corretagem e das taxas de administração também ajudaram a democratizar o acesso ao mundo dos investimentos. Segundo Eduardo Grübler, gestor de renda variável da Warren Asset, alguns fundos de investimentos tinham aportes mínimos de R$ 200 mil, o que inviabilizava o acesso ao produto financeiro.

“Hoje em dia, a gente encontra diversos fundos por R$ 100. Os ETFs, que são extremamente populares no exterior, têm encontrado no Brasil um market share bastante interessante. A própria estrutura do ETF permite certas exposições baratas e simples para o investidor”, exemplifica Grübler.

Investidores pessoa física por faixa etária na bolsa de valores

Ano 0 a 18 anos 19 a 24 anos 25 a 39 anos 40 a 59 anos > 60 anos
2018 1% 3% 37% 37% 22%
2019 1% 7% 46% 31% 15%
2020 1% 10% 49% 29% 11%
2021 1% 11% 50% 29% 9%
2022* 1% 11% 50% 29% 9%
Fonte: B3/Dados referentes ao 1T22

Pensando no futuro

Todas as mudanças estimularam as novas gerações a pensarem no futuro e a lidarem melhor com o dinheiro. É o caso da nutricionista Yara Albuquerque, de 26 anos. Ela decidiu investir no mercado financeiro no início de 2021 ao saber que poderia, por meio dos investimentos, ter uma renda a mais nos próximos anos.

“Eu invisto com o foco no longo prazo. Quero ter entre três a quatro salários mínimos para conseguir viver de uma forma mais tranquila daqui a 15 a 20 anos”, explica Albuquerque.

O pontapé inicial aconteceu após a leitura de um livro sobre finanças pessoais no fim de 2020. Foi aí que surgiu a necessidade de organizar a sua vida financeira para começar a investir. “Quando eu terminei de ler o livro, pensei: ‘meu Deus, como estou atrasada.’ Vi que precisava investir o quanto antes”, afirma.

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Mas a nutricionista não seguiu o percurso tradicional de quem começa no mercado financeiro. Em vez de destinar os seus primeiros aportes em produtos de renda fixa, ela decidiu iniciar pela renda variável ao comprar cotas de Fundos de Investimentos Imobiliários (FIIs). “Comecei a estudar um pouco mais e o que mais me chamou atenção foram os Fundos Imobiliários, porque você recebe uma espécie de ‘aluguel’”, ressalta.

Agora, o objetivo dela é conseguir aumentar os seus aportes financeiros sem prejudicar o orçamento. “Eu quero aumentar os meus investimentos, mas quando eu tiver mais condições. Por enquanto, vou manter meus aportes fixos mensais”, destaca Albuquerque.

As aplicações financeiras de Rafael Bezerra, de 35 anos, têm a mesma finalidade: garantir uma renda extra na aposentadoria. Apesar da preocupação com o futuro, o medo do endividamento foi o principal incentivo para o médico destinar parte da sua renda para os investimentos desde 2018.

No início da carreira, ainda sem saber direito como administrar o seu salário da melhor forma, os relatos de colegas endividados incentivaram Bezerra a lidar melhor com as próprias finanças. “Eu não conseguia entender como pessoas que ganhavam tão bem conseguiam estar endividadas. Foi aí que percebi que havia um certo descontrole financeiro”, afirma Bezerra.

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Os primeiros aportes foram feitos em ativos de renda fixa, produtos financeiros mais conservadores. Logo depois, o médico migrou para a renda variável ao comprar ações de bancos, empresas do setor elétrico, varejo e de tecnologia. “O percentual determinado para os aportes fica entre 15 a 20% do que eu ganho. Não mais do que isso para não comprometer o meu padrão de vida”, explica.

Atualmente, 70% das suas alocações estão em ativos de renda variável, enquanto o restante segue aplicado em renda fixa. “Como eu tenho um perfil de investidor considerado jovem, tenho condições de me expor mais a ativos de risco”, acrescenta.

A cultura de investir

Além do interesse em investir com foco no futuro, a ausência de uma educação financeira dentro de casa é outro ponto em comum entre Rafael e Yara. Os dois só tiveram conhecimento sobre finanças pessoais e investimentos por meio da leitura de livros, conteúdos disponíveis na internet e até por influência de amigos. “A educação que eu recebi foi trabalhar para ter condições de comprar o que eu queria. Quando comecei a trabalhar, gastava praticamente todo o dinheiro que recebia”, comenta Bezerra.

No caso de Albuquerque, o único ensinamento que recebeu da família foi não gastar mais do que ganhava. Como os pais são comerciantes, a orientação era uma regra que os dois seguiam para manter vivo o próprio negócio. “Quando eu era adolescente, meus pais me davam uma mesada e sempre falavam: ‘olha, não gaste tudo o que você tem”’, relembra a nutricionista.

Com a mudança de hábito, os novos investidores tentam repassar para amigos e familiares os conceitos de educação financeira e de investimentos que aprenderam. Nesta missão, Albuquerque já tentou incentivar os pais a destinarem parte das economias para as aplicações financeiras. Mas quando aborda o assunto, ainda encontra resistência.

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“O meu pai paga tudo no dinheiro. Ele não gosta de ter nada no banco. Nem cartão de crédito ele tem. Minha mãe disse que também não dava certo investir. Eu acho que eles têm uma cabeça mais fechada e antiga”, comenta a nutricionista.

Já Bezerra conseguiu atrair dois amigos para o mundo dos investimentos ao indicar livros e cursos sobre mercado financeiro. “Eram pessoas que tinham um certo conhecimento sobre o assunto, mas não sabiam por onde começar”, afirma.

Com o nascimento do primeiro filho há dois meses, o médico terá a oportunidade de ensinar ao pequeno Lucas a importância de investir nos próximos anos. “Pretendo ensinar a ele, mas no seu devido tempo, quando ele estiver maior, por meio de livros e exemplos do dia a dia”, acrescenta.

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