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Comportamento

Com alta da Selic, investidores recorrem a CDBs, LCIs, LCAs e Tesouro

Levantamento da Yubb mostrou forte migração para renda fixa depois de 12 meses de alta da taxa de juros

Por Jenne Andrade

27/04/2022 | 10:00 Atualização: 28/04/2022 | 11:56

Renda fixa ganha protagonismo em ambiente de juros altos. Foto: Envato Elements
Renda fixa ganha protagonismo em ambiente de juros altos. Foto: Envato Elements

O dia 17 de março deste ano marcou os 12 meses do início do ciclo de alta da Selic. No período, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central subiu a taxa de juros básica da economia de 2% para os atuais 11,75%.

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A movimentação mexeu com o apetite dos investidores: em março de 2021, as aplicações mais buscadas eram ações, fundos de ações e fundos multimercados. Mas no mês passado a preferência mudou radicalmente e os CDBs (Certificados de Depósito Bancário), Tesouro Direto e LCIs/LCAs (Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio) passaram a ser os investimentos que mais geraram interesse – todos de renda fixa.

Os dados foram levantados pela Yubb, buscador de investimentos. Em termos gerais, a subida dos juros prejudica a Bolsa de Valores porque encarece os financiamentos fornecidos a empresas, ao passo que eleva os rendimentos das aplicações conservadoras ligadas à Selic.

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O custo de oportunidade de investir na renda variável também diminui. Ou seja, vale menos a pena correr risco para ter retornos em um cenário em que a renda fixa está pagando quase 1% ao mês. É importante lembrar que é esperado que a taxa chegue até o fim de 2022 a 13% , segundo dados do Boletim Focus publicado em 28 de março de 2022, o último divulgado.

“A última vez que tivemos juros nesse patamar (13%) foi em 2017. Então temos observado os investidores surfando essa oportunidade”, afirma Marcos Moreira, sócio da Nexgen Capital. “Um cenário econômico mais desafiador, com mais incertezas, com muita discussão em relação ao arcabouço fiscal, eleições se aproximando e etc, tudo isso contribui para uma fuga de risco.”

De acordo com a Anbima, os fundos de ações e multimercados apresentaram resgates de R$ 36,3 bilhões e R$ 47,6 bilhões em 2022 (até 22 de abril). Na outra ponta, os fundos de renda fixa já acumulam captação líquida de R$ 148 bilhões. O montante já representa 65% da captação obtida ao longo de 2021 pelos fundos conservadores (R$ 224,6 bilhões).

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Bernardo Pascowitch, fundador do Yubb, adiciona o cenário internacional ao movimento de retorno à renda fixa. A guerra entre Rússia e Ucrânia pressionou as commodities e fez os preços dos insumos dispararem no mundo todo. Com isso, os bancos centrais se movem para elevar juros e conter a inflação.

“Esse conflito trouxe uma grande valorização do petróleo, que é a principal commodity do mundo e a maior responsável no aumento dos custos nas cadeias globais de suprimentos e distribuição. Isso significa que, com uma elevação ainda maior dos juros globais, há uma deterioração dos investimentos de renda variável e maior atratividade de títulos de renda fixa pública e privada", afirma Pascowitch.

O desafio dos investidores, segundo Pascowitch, é entender se os rendimentos na renda fixa estão superando a inflação. Entre abril de 2021 e março de 2022, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu os 11,33%.

“Se estiver abaixo, significa que o dinheiro está perdendo o seu poder de compra, ou seja, o que ele consegue comprar hoje, não vai conseguir no futuro. Por isso, aproveitar a alta da renda fixa é bom no curto prazo, apenas. Porque a renda fixa deve ser usada para proteger o patrimônio, mas quem fará o patrimônio crescer é a renda variável”, afirma o fundador da Yubb.

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Moreira, da Nexgen Capital, ressalta que os títulos indexados à inflação podem ser aliados do investidor para obter ganhos reais. Os papéis Tesouro IPCA+, por exemplo, vem pagando rendimentos reais acima de 5%. “O comportamento da inflação nos próximos meses vai ditar o ritmo da alta de juros. Ainda vemos um grau de incerteza bem elevado em relação à política monetária, porque à medida que a inflação continua surpreendendo, a Selic pode subir um pouco mais do que o mercado está projetando”, diz Moreira.

Por outro lado, se o investidor não pode deixar o dinheiro até o prazo acordado, esse título oferece risco, já que está exposto à marcação a mercado. Logo, toda vez que a expectativa para os juros sobe, quem tem um Tesouro IPCA+ ou prefixado na carteira vê os papéis desvalorizarem. Se a necessidade é ter liquidez para resgatar o dinheiro a qualquer momento, títulos menos expostos à volatilidade são melhores opções.

“Com taxas de juros mais altas, passaremos ver as vantagens de títulos de renda fixa. Fazendo a comparação com investimento mais voláteis, de renda variável, vimos nos últimos meses papéis de ações sofrendo um pouquinho com a Selic mais elevada, porque aumenta o desconto nos ativos. Por outro lado, fazendo a aplicação em renda fixa, o investidor terá esse dinheiro pré-acordado no momento da compra e não terá volatilidade no seu retorno”, diz Rodrigo Beresca, analista de soluções financeiras da Ativa Investimentos.

Ganhos reais na renda fixa

Apesar de a Selic ter saído da mínima histórica (2%) para as máximas em cinco anos (11,75%), nem todos os investimentos de renda fixa conseguiram capturar essa alta. A poupança, por exemplo, deve seguir com retornos reais negativos.

Hoje, a caderneta oferece um retorno bruto de 0,5% ao mês (6,17% ao ano). Considerando a inflação projetada para 2022, de 6,86% (Boletim Focus), o rendimento real da aplicação ficará em -0,64% no final de 2022.

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Já o Tesouro Selic, o título público mais conservador, oferece atualmente um retorno líquido (descontando o imposto de renda) de 9,32% ao ano e um retorno real de 2,30%. É importante lembrar que a poupança apresenta pior rentabilidade, mesmo sendo isenta de imposto de renda (IR).

Essa diferença entre a performance da caderneta e os demais investimentos conservadores ocorre por conta da regra de cálculo da ‘queridinha dos brasileiros’, que limita bastante os ganhos.

Em resumo, há duas formas de calcular os retornos na poupança:

  • Quando a taxa de juros for menor ou igual a 8,5% ao ano, a rentabilidade oferecida é de 70% da Selic + uma taxa referencial (TR), que atualmente está zerada
  • Quando a taxa de juros for superior a 8,5% ao ano, que é o caso atualmente, o retorno é de 0,5% ao mês (6,17% ao ano) + TR (zerada).

Isso significa que desde dezembro do ano passado, quando a Selic ultrapassou os 8,5% ao ano, a poupança não acompanha a alta de juros e tem rendimento fixo mensal de 0,5%.

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