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Comportamento

Mercado financeiro x cassinos: uma guerra bilionária pelas apostas esportivas

Disputa entre mercados de previsão e casas de apostas vira batalha judicial nos EUA e reacende debate sobre regulação do jogo esportivo

Por Ian Frisch, da Fortune

13/02/2026 | 18:29 Atualização: 13/02/2026 | 18:59

Mercados de previsão como Kalshi e Polymarket enfrentam cassinos e sportsbooks nos EUA em disputa legal sobre apostas esportivas. (Imagem: Adobe Stock)
Mercados de previsão como Kalshi e Polymarket enfrentam cassinos e sportsbooks nos EUA em disputa legal sobre apostas esportivas. (Imagem: Adobe Stock)

Em apenas oito anos, as apostas esportivas passaram de uma atividade ilegal nos Estados Unidos a um negócio bilionário, que movimenta cerca de US$ 220 bilhões em apostas por ano. Apenas no último fim de semana, algo em torno de US$ 1,8 bilhão foi apostado no Super Bowl.

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O crescimento acelerado desse volume de dinheiro intensificou a competição entre plataformas como FanDuel, DraftKings e BetMGM, que aceitam apostas sobre praticamente tudo — de qual país vai liderar o quadro de medalhas nas Olimpíadas de Inverno a quem vencerá o torneio de golfe Masters.

Mas as casas tradicionais de apostas enfrentam agora novos e formidáveis concorrentes pelo volume apostado: os chamados mercados de previsões, como Kalshi e Polymarket, que, segundo uma estimativa, desviam cerca de US$ 8 bilhões por ano das apostas que iriam para as sportsbooks.

A disputa por território virou uma briga jurídica sobre o que, afinal, pode ser considerado aposta esportiva.

Kalshi e Polymarket argumentam que as apostas feitas em seus aplicativos são diferentes das realizadas em um cassino e, portanto, não deveriam estar sujeitas aos mesmos impostos e regulações do jogo. Após a proibição federal ao jogo ter sido praticamente derrubada por uma decisão da Suprema Corte em 2018, coube a cada Estado decidir se legalizaria ou não as apostas esportivas.

Até agora, 39 estados e Washington, D.C. legalizaram as apostas em esportes. As apostas esportivas tradicionais — mesmo via aplicativos como DraftKings — só estão disponíveis nesses mercados. Já os sites de mercados de previsão permitem apostas até em Estados onde o jogo esportivo não foi legalizado. Esse é um dos motivos que levaram aplicativos de apostas a lançar seus próprios produtos de mercados de previsão.

Comissões estaduais de jogos, procuradores-gerais e consumidores reagiram à alegação de que os mercados de previsão operam sob regras diferentes com uma onda de processos. Pelo menos 20 ações federais, em mais de sete Estados, foram abertas contra essas plataformas por apostas esportivas — incluindo uma ação coletiva protocolada nesta semana contra a Polymarket por um de seus usuários em Nova York.

Na segunda-feira (2), a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, pediu que os consumidores evitassem usar mercados de previsão para apostar no Super Bowl, afirmando em nota que “muitos operam como jogo não regulamentado”. (Em outubro, a Kalshi processou o regulador de jogos de Nova York após ser acusada de operar como uma casa de apostas esportivas sem licença.)

Enquanto as disputas judiciais avançam, a indústria do jogo tem feito lobby pesado para fechar o cerco aos mercados de previsão. A American Gaming Association (AGA), entidade de lobby do setor, junto com a Indian Gaming Association, enviou no mês passado uma carta ao Congresso pedindo que os legisladores enfrentem os mercados de previsão, que seriam “indistinguíveis das apostas esportivas legais”.

A AGA também publicou uma calculadora que, segundo a entidade, mostra quanto os estados deixaram de arrecadar em impostos porque apostas foram feitas em mercados de previsão — mais de US$ 400 milhões até agora, segundo seus cálculos.

As empresas de mercados de previsão também disputam influência política. Em dezembro, um grupo que inclui a Kalshi, além do aplicativo de investimentos Robinhood e da plataforma cripto Coinbase — que recentemente adicionaram mercados de previsão a seus apps — criou uma entidade de lobby chamada Coalition for Prediction Markets. A Kalshi nomeou Donald Trump Jr. como conselheiro estratégico no início do ano passado e anunciou, na quinta-feira (5) da semana passada, novos mecanismos de controle contra práticas como uso de informação privilegiada e manipulação de mercado.

Os dois lados também trocaram farpas públicas. Depois que o CEO da Polymarket, Shayne Coplan, chamou as casas de apostas reguladas de “golpe”, o cofundador e CEO da DraftKings, Jason Robins, disse ao The New York Times: “Sempre preferimos que as pessoas sigam o caminho mais elevado e não falem mal de nós, mas faço isso há muito tempo, e isso faz parte do jogo”.

Uma diferença de regulador

Os mercados de previsão mais populares oferecem plataformas em que usuários podem criar e apostar em contratos baseados em eventos — essencialmente, contratos futuros. Diferentemente de um cassino, eles não ficam do outro lado da aposta do usuário e, portanto, não lucram quando seus clientes perdem.

Essas plataformas são reguladas pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), órgão federal que supervisiona o mercado de derivativos, e não por comissões estaduais de jogos, responsáveis por cassinos físicos como a MGM e por casas de apostas online como a DraftKings.

Os mercados de previsão argumentam que a regulação federal se sobrepõe às leis estaduais. “Há um século de regulação federal pela CFTC, que é muito sólida e confiável”, afirmou Sean Maloney, ex-deputado democrata e líder da Coalition for Prediction Markets.

Recentemente, a própria CFTC passou a apoiar os mercados de previsão. Seu presidente, Michael S. Selig, disse no mês passado que a agência “tem a expertise e a responsabilidade de defender sua jurisdição exclusiva” sobre esse tipo de contrato baseado em eventos.

Selig também retirou uma proposta de regra da era Biden que proibiria os mercados de previsão de oferecer contratos ligados a eventos políticos e esportivos.

Casos em andamento

As contestações aos mercados de previsão esportiva já renderam algumas vitórias iniciais. Em novembro do ano passado, um juiz federal em Nevada proibiu a Kalshi de oferecer contratos esportivos no Estado, afirmando que a interpretação da empresa sobre apostas esportivas “desorganiza décadas de federalismo na regulação do jogo”. (O processo está temporariamente suspenso enquanto o recurso da Kalshi é analisado pela Corte de Apelações do 9º Circuito.) O regulador de jogos do Estado também obteve, no mês passado, uma ordem temporária contra a Polymarket.

Também no mês passado, a procuradora-geral de Massachusetts, Andrea Joy Campbell, conseguiu uma liminar em seu processo contra a Kalshi, alegando que, se a empresa quiser oferecer apostas esportivas no Estado, “deve jogar segundo nossas regras — sem exceções”. (O caso também está temporariamente paralisado.)

Ohio, cuja comissão de controle de cassinos enviou uma notificação de cessar e desistir à Kalshi em outubro, citou a decisão de Massachusetts em sua ação ainda em curso contra a empresa.

Interesses desiguais

Perder as apostas esportivas poderia ser devastador para os mercados de previsão. Dados da própria Kalshi mostram que US$ 12,5 bilhões de seu volume total negociado vêm de contratos ligados a esportes, contra US$ 4,7 bilhões somando todas as outras categorias. Cerca de 90% das taxas de transação arrecadadas pela empresa têm origem em eventos esportivos.

Em novembro, a Kalshi alertou que interromper seus mercados de previsão esportiva apenas em Massachusetts exigiria a liquidação de US$ 650 milhões em contratos derivativos em aberto.

A indústria tradicional do jogo, por sua vez, pode ter menos a perder. Chad Beynon, analista sênior do Macquarie Group, disse ao Times que a ameaça dos mercados de previsão às casas de apostas é superestimada. “O produto é inferior”, afirmou, observando que os apostadores não podem fazer parlays (apostas combinadas) nem apostas ao vivo — recursos que se tornaram os mais populares nas apostas esportivas tradicionais e que respondem por cerca de 30% de todas as apostas feitas.

Além disso, a grande maioria das apostas esportivas em mercados de previsão vem de Estados onde as apostas esportivas não são legalizadas, como Texas e Califórnia. Embora parte do volume esteja migrando das casas de apostas para os mercados de previsão, segundo Beynon, isso não é suficiente para causar danos relevantes aos resultados de gigantes como DraftKings e FanDuel.

Pegando carona

Os maiores vencedores podem ser os aplicativos que atuam nos dois lados. No início, casas de apostas online como DraftKings, FanDuel e Fanatics se alinharam a cassinos para navegar melhor pelas regulações estaduais. Nos últimos meses, porém, essas operadoras deixaram a AGA e passaram a criar seus próprios mercados de previsão.

Em nota, a Fanatics — primeira a lançar um mercado próprio, o Fanatics Markets, no início de dezembro — afirmou: “Embora respeitemos o trabalho que a AGA faz pelo mercado regulado de jogos, temos uma divergência de opinião sobre o que isso significa quando se trata de mercados de previsão”.

A DraftKings não ficou muito atrás e lançou o DraftKings Predictions em 38 Estados. “Não queremos ficar para trás”, disse Robins, cofundador da empresa. “Não ficamos satisfeitos se não estivermos fazendo um trabalho melhor que nossos concorrentes e ganhando mais participação de mercado.” Sobre a saída da AGA, ele disse haver uma “falta de alinhamento” em relação aos mercados de previsão.

As casas de apostas online também podem facilmente voltar ao seu modelo principal de negócios caso a indústria do jogo, os legisladores e os procuradores-gerais dos Estados vençam a batalha contra os mercados de previsão.

O verdadeiro teste virá se os democratas retomarem a Casa Branca e passarem a mirar os mercados de previsão, disse Beynon: “Essas empresas de apostas querem ser rápidas, querem ser ativas e querem obter retorno sobre o que estão investindo agora, sabendo que isso pode desaparecer em 2028”.

Esta história foi originalmente apresentada em Fortune.com e foi traduzido com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

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