Rodrigo Santoro, head de renda variável da Bradesco Asset. Foto: Divulgação/Bradesco Asset
A Bradesco Asset avalia que o Brasil entra em 2026 com um conjunto de condições difíceis de ignorar: ações negociadas com valuation atraente, baixa alocação dos investidores em renda variável e expectativa de flexibilização da Selic. Na visão da gestora, essa combinação de fatores pode se traduzir em um cenário “muito positivo” para a Bolsa brasileira neste ano.
Globalmente, embora o pano de fundo siga construtivo para ações, a casa estima que os retornos para os mercados globais em 2026 sejam mais modestos, enquanto cresce a volatilidade por conta de ajustes de expectativas e fatores geopolíticos globais.
Nesse cenário, Rodrigo Santoro, head de renda variável da Bradesco Asset, considera que a forma de execução do investimento em renda variável passa a ser o grande diferencial.
“Processos de seleção de ações disciplinados, com foco em empresas com vantagens competitivas claras e leitura fina das assimetrias tendem a separar quem apenas acompanha o mercado de quem captura o chamado re-rating (reprecificação) – movimento que reavalia os preços dos ativos, passando a pagar múltiplos e valuations maiores devido a mudanças de expectativas”, diz.
Segundo ele, os valuations atuais oferecem um ponto de partida atrativo no Brasil. Em métricas tradicionais, como preço sobre lucro, o mercado nacional está abaixo da média dos últimos dez anos. Já pela ótica do earnings yield (rendimento de lucros), o retorno implícito está acima da taxa real de longo prazo: um sinal de prêmio de risco elevado, com espaço para compressão se a percepção fiscal e inflacionária melhorar.
O atual posicionamento dos investidores locais em renda variável é outro fator técnico acompanhado de perto pela Bradesco Asset, que identifica espaço para uma ampliação dessa alocação. Em 2025, os fundos multimercados tiveram o maior resgate líquido da indústria, de R$ 58,8 bilhões, seguidos de perto pelos fundos de ações, com saída de R$ 54,4 bilhões, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).
“Basta uma normalização gradual da alocação para que o fluxo potencial produza movimentos relevantes de reprecificação”, destaca Santoro.
Outro ponto importante: a Selic, atualmente em 15% ao ano, pode passar de obstáculo para catalisador. Historicamente, a gestora pontua que ciclos de corte de juros no Brasil tendem a ser mais profundos do que o cenário inicialmente precificado, enquanto as ações costumam apresentar desempenho acima da média nos dois anos seguintes ao início desse movimento.
Em um cenário de queda da Selic, com valuations deprimidos, a Bolsa brasileira pode se beneficiar duas vezes: tanto pela melhora das perspectivas de lucro das empresas, com menores despesas financeiras e maior atividade, quanto pela compressão dos prêmios exigidos.
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Santoro observa ainda que o menorexcepcionalismo americano – crença de que o mercado e a economia dos Estados Unidos são únicos e superiores aos demais –, além de um dólar mais fraco, reabrem a tese de rotação de investimentos para países emergentes, historicamente positiva para ativos latino-americanos por condições financeiras mais benéficas e termos de troca melhores.
Embora veja um cenário construtivo para 2026, a Bradesco Asset ressalta que os riscos não desaparecem, nem a volatilidade. Incertezas relacionadas à geopolítica global, ao ciclo eleitoral, à ancoragem das expectativas de inflação e à trajetória fiscal podem atrasar ou reduzir a intensidade dos cortes de juros no Brasil e, consequentemente, impactar os mercados.