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Educação Financeira

Bloqueio do X no Brasil: o que acontece com os influenciadores do Fintwit sem a rede social?

Equivalente a blogueiros de moda para o mundo das finanças, os integrantes da comunidade publicam dicas e estratégias de investimentos em tempo real para uma multidão de seguidores

Por Murilo Melo

05/09/2024 | 13:07 Atualização: 06/09/2024 | 13:17

A empresária e influenciadora Nathalia Rodrigues, conhecida como Nath Finanças. (Foto: Afroafeto/ Gabriella Maria)
A empresária e influenciadora Nathalia Rodrigues, conhecida como Nath Finanças. (Foto: Afroafeto/ Gabriella Maria)

O anúncio da suspensão das operações do X (antigo Twitter) no Brasil surpreendeu mais de 22 milhões de usuários, incluindo uma comunidade específica que depende intensamente da plataforma: o Fintwit. Composta por influenciadores, universitários, gestores de fundos prestigiados no país, traders (indivíduos que compram e vendem ações diariamente), especialistas de finanças, economistas, até perfis anônimos, a comunidade do mercado financeiro, cujo nome combina “Fin” (abreviação de financeiro) e “twit” (de Twitter) encontrou no X um espaço para compartilhar ideias, dicas, novidades, análises de mercado, estratégias de investimentos e opiniões em tempo real, destacando-se pela sua conexão com pautas que perpassam pelo universo financeiro.

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Agora, com a rede social fora do ar no país por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), contra o não cumprimento de ordem judicial do dono da plataforma Elon Musk – deliberação confirmada pelo voto de cinco ministros da Corte -, surgem dúvidas sobre o futuro da plataforma e as implicações para os que dependem dela.

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A Fintwit segue uma tendência já observada em outros mercados, especialmente nos Estados Unidos, onde a manifestação de opiniões em nichos nas redes sociais é comum. Embora não declarado explicitamente, o objetivo de seus membros do Fintwit é promover engajamento e fomentar negócios para que sejam lembrados como referências no assunto. Eles desempenham um papel semelhante ao dos influenciadores de moda e beleza, por exemplo, mas no universo financeiro.

Com a disposição dessas pessoas em discutir abertamente na rede social de Elon Musk sobre temas que antes eram restritos a reuniões privadas em escritórios exclusivos, a quantidade de informações acessíveis a diversos perfis de investidores ou meros interessados no assunto aumentou nos últimos anos — assim como a influência dos analistas mais populares na plataforma.

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A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) diz que não há regulamentação específica para profissionais que atuam nas redes sociais. Em teoria, eles podem compartilhar suas opiniões no X, desde que respeitem os princípios de não manipular os preços de ativos ou oferecer recomendações de investimento sem a devida licença. Até então, não há registros de membros do Fintwit que foram punidos pelo regulador por postagens inadequadas.

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Uma das influenciadoras do Fintwit mais famosas é Nathalia Rodrigues, mais conhecida como Nath Finanças. A proposta do trabalho dela na comunidade, segundo Rodrigues, é ajudar as pessoas a entenderem um assunto que nunca foi ensinado nas escolas ou em casa, levando informações com linguagem acessível para que elas possam se organizar financeiramente e conhecer seus direitos como consumidoras, pessoas físicas ou jurídicas.

Com a suspensão do X no Brasil, Rodrigues publicou no Instagram, plataforma em que mantém mais de 700 mil seguidores, uma comparação entre redes sociais, fazendo referência ao X, e casas alugadas. No texto, a influenciadora diz que não faz sentido investir em reformas, arrumações e construções sem ter um plano B ou sua própria casa, que seriam o seu site, seus contatos por meio de ações de marketing e a própria comunidade, com e-mails, telefones, conteúdos e dados dos seus clientes. “As marcas fazem isso: usam as redes sociais como meio de divulgação, mas não dependem delas para vender aos seus clientes. Não deixe de fazer o mesmo, caso contrário você corre o risco de ficar sem o seu negócio”, diz Rodrigues.

Ela lembra que criou o Nath Play, plataforma de streaming de educação financeira, em 2022, com o objetivo de não depender de algoritmos ou plataformas para ganhar dinheiro e crescer o próprio negócio. Explica ainda que desenvolveu seus próprios produtos e serviços, e conseguiu reduzir de 90% para 30% a participação das publicidades no seu faturamento entre 2021 e 2024. “A meta é diminuir essa dependência de publis cada vez mais, construindo uma comunidade sólida que não dependa de plataformas ou algoritmos, utilizando apenas como meio de divulgação e ampliação de novos seguidores e clientes”, afirma.

Bloqueio do X deve ser visto como oportunidade de aprendizado

O ministro do STF Alexandre de Moraes determinou que o X saísse do ar no Brasil por não ter um representante legal desde meados de agosto, quando o empresário Elon Musk fechou os escritórios da rede social no país. Desde abril, Musk também descumpre decisões judiciais ao não bloquear perfis apontados como responsáveis por fake news e membros investigados por disseminar discurso de ódio, além de não pagar multas impostas pelo descumprimento das decisões.

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O bloqueio forçou um redirecionamento das estratégias de publicidade e engajamento de conteúdo para empresas e influenciadores. Embora algumas opiniões tenham sugerido que isso impactou negativamente investidores e negócios no Brasil, essa perspectiva ainda não foi comprovada, segundo especialistas. Na realidade, a resposta pode estar em outra direção: a comunidade Fintwit tem buscado alternativas em plataformas digitais já existentes, mais estáveis e sem problemas com as instituições brasileiras, adaptando-se ao novo cenário.

Esse movimento, segundo o advogado especializado em direito digital e comércio internacional, Fabrício Polido, reflete uma característica dos mercados digitais, que frequentemente precisam migrar e se adaptar em função da experiência centrada no usuário. “O bloqueio do X não deve ser visto apenas como um problema, mas como uma oportunidade de aprendizado”, diz. “A ingerência política e ideológica, como a exercida por Elon Musk no controle do X, serve de lição para investidores e novos negócios no setor de publicidade digital. Não é mais seguro permanecer em uma plataforma que, além de suscitar insegurança digital, também provoca divergências ideológicas, criando um cenário de batalha político-digital”, completa o advogado.

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Polido também analisa que resistir seletivamente às decisões do Judiciário ou descumprir leis locais, sob o argumento de uma liberdade de expressão absoluta, desestabiliza os mercados digitais. “Em qualquer Estado democrático de direito, o respeito às leis é fundamental para a estabilidade e a confiança nos mercados. Qualquer comportamento que vá contra esse princípio pode ter consequências negativas”, afirma.

Para onde a comunidade do Fintwit está migrando?

Diante dessa nova realidade, a comunidade Fintwit começou a buscar novas formas de se conectar, compartilhar informações e influenciar o mercado financeiro em tempo real, sem depender de uma única plataforma. A substituta preferida do X no país é a rede social Bluesky, que recebeu na última semana 2,4 milhões de novos usuários na plataforma, dos quais 90% são brasileiros. Ao todo, são 8 milhões de perfis do mundo todo. Lançado em 2021, o Bluesky era acessível apenas para pessoas que recebiam convites de membros da plataforma até 6 de fevereiro deste ano, quando passou a permitir que qualquer pessoa criasse uma conta.

Do outro lado, há o Threads, rede social de textos curtos da Meta. O aplicativo faz parte do ecossistema do Instagram, permitindo que os usuários publiquem atualizações simultaneamente em ambas as redes. Atualmente, o principal destaque do Threads é seu foco na privacidade, oferecendo controles mais rigorosos sobre quem pode visualizar e interagir com o conteúdo.

Outros usuários da comunidade Fintwit optaram por publicar também na rede social Mastodon, uma plataforma de microblog com uma abordagem descentralizada. Sua timeline lembra a do X, com recursos como menções e hashtags. Contudo, o Mastodon se destaca por ser formado por diversas comunidades independentes, chamadas “instances”, cada uma com suas próprias regras de moderação. Isso permite que os usuários escolham a comunidade que mais se alinha com seus interesses, como a do universo das finanças.

Influenciadores buscam alternativas a redes como o X

Para a professora da FIA Business School, Patrícia Cotti, a adaptação da linguagem para outras plataformas é um dos principais desafios dos influenciadores. “Cada plataforma tem um formato de conteúdo que funciona e engaja, e essa curadoria é um dos principais ativos desses influenciadores. A base de seguidores está relacionada a um formato de comunicação específico, que funciona diretamente nesse canal”, explica a especialista.

Apesar das dificuldades, Cotti acredita que a credibilidade dos influenciadores financeiros não será necessariamente afetada. Segundo ela, a falta de credibilidade se dá em relação à plataforma, dificilmente em torno da pessoa, que é vista como especialista e conquistou seu espaço de fala e autoridade junto a um público. “É um momento de divulgar seus novos meios de comunicação e estudar os formatos de linguagem. A transparência e a comunicação clara são fundamentais, assim como a garantia de que a linha editorial seguirá firme, independente do meio”, aconselha Cotti.

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Segundo a professora, a interrupção do X pode, sim, levar a uma mudança no perfil de audiência, com novas necessidades e perfis de comunicação distintos, mas ela acredita que o público antigo, carente de informação, deve continuar a buscar aquilo que lhe é familiar. Além disso, a recomendação é entender os melhores formatos de acordo com o novo canal para que a rentabilização ocorra porque cada rede tem um funil de conversão distinto, considerando engajamento, número de seguidores, e alcance.

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Já o economista Renato Alves, que costumava falar sobre mercado financeiro no X, diz que a comunidade vive um momento de incerteza. “A comunidade Fintwit é resiliente, mas teremos que nos adaptar a uma nova realidade”, afirma. Para ele, é só uma questão de tempo para que os antigos usuários sigam em busca dos seus antigos ou novos influenciadores. “Embora muitos usuários possam migrar, impulsionados pela demanda por informações financeiras, nem todos estarão dispostos a se adaptar aos diferentes formatos de conteúdo oferecidos em outras redes. Eu mesmo estou atento a essas tendências e explorando alternativas que realmente atendam às necessidades dos meus seguidores. Isso quer dizer que posso partir para novos formatos”, diz.

Isso, aliás, é o que os membros do Fintwit e seus seguidores já começaram a fazer. O perfil de Nath Finanças, no Bluesky, já alcança mais de 60 mil seguidores. Nathalia Arcuri, fundadora do Me Poupe, já conquistou mais de 660 mil interessados em suas ideias no Thread. Na mesma rede social, Thiago Nigro, do Primo Rico, acumula mais de 1 milhão e meio de usuários. Em todas elas, as recomendações dos influenciadores continuam a todo vapor. “Se você juntar R$ 300 mil investidos, vão cair R$ 3 mil todo mês na sua conta sem você fazer nada. É mais que o dobro da maioria dos aposentados do Brasil. Isso é liberdade financeira”, escreveu Nigro em sua última postagem. Em resposta, o seguidor Leandro Arcas, estimulou o debate. “A questão não é nem tanto como juntar os R$ 300 mil, mas qual aplicação rende 12% ao ano já descontado o Imposto de Renda?”, questionou.

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