A Páscoa ficou mais cara? Dados mostram que chocolate e bacalhau acumulam altas relevantes, mesmo com queda recente da cesta. Entenda os fatores por trás dos preços. (Imagem: Adobe Stock)
A Páscoaficou mais cara? Para a maioria dos brasileiros, a resposta é direta e baseada na experiência recente de consumo. Basta uma ida ao supermercado para perceber que os ovos de chocolate já não ocupam o mesmo lugar no orçamento. Mas quanto, exatamente, essa alta representa? E, sobretudo, o que está por trás dessa conta que insiste em subir?
Um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE) mostra que a cesta de produtos típicos da Páscoa ficou mais barata nos últimos dois anos, com quedas de 6,77% em 2025 e 5,73% em 2026.
Essa cesta reúne itens tradicionalmente consumidos no período, como chocolates, bacalhau, pescados, azeite, ovos e acompanhamentos comuns das refeições da Semana Santa.
O alívio recente, no entanto, não apaga a alta acumulada. Entre 2022 e 2026, o custo da mesma cesta ainda subiu 15,37%. No mesmo intervalo, a inflação geral medida pelo Índice de Preços ao Consumidor – 10 (IPC-10) avançou 16,53%. Ainda que os preços pareçam ceder no curto prazo, eles ainda operam em um patamar elevado depois de anos de aumento.
A leitura correta, portanto, não é de queda, mas de desaceleração. E, principalmente, de composição. Nem todos os itens se comportam da mesma forma. Produtos mais baratos e voláteis ajudaram a puxar o índice para baixo recentemente, enquanto os itens mais caros e simbólicos da data, como chocolate e bacalhau, acumulam aumentos relevantes. O que ajuda a começar a explicar por que a Páscoa, na prática, está mais cara para o consumidor.
O que pesa no chocolate
Entre 2022 e 2026, bombons e chocolates acumulam alta de 49,26%, segundo a FGV IBRE. É o item com maior variação dentro da cesta.
“O Brasil é um grande produtor mundial, mas os preços são definidos pelo comportamento do mercado global”, afirma o professor Jefferson Mariano, economista e analista socioeconômico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Esse mercado sofreu retração em função da crise entre produtores africanos, o que pressionou as cotações.”
Embora o país produza cacau, o preço da matéria-prima é determinado no exterior. E, nos últimos anos, a oferta global foi afetada.
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O continente africano concentra a maior parte da produção mundial. Problemas climáticos e estruturais reduziram a oferta e elevaram os preços internacionais. O Brasil, mesmo com produção estável, absorve esse choque e o câmbio completa o quadro. Como parte dos custos é dolarizada, a desvalorização do real encarece a produção.
Há ainda o fator da lei de oferta e procura. “No caso específico da Páscoa, há sem dúvida o componente da demanda. O aumento do consumo no período, associado à estrutura de custos, faz com que ocorram aumentos nos preços”, afirma Mariano.
Isso ocorre porque o pico de consumo reduz o espaço para descontos e incentiva o repasse de custos. Em um período curto e previsível, a indústria e o varejo operam com maior previsibilidade de venda e menor necessidade de estímulo via preço. Esse encadeamento mostra por que o preço não responde na mesma velocidade quando o cenário melhora.
Mesmo quando o custo do cacau começa a cair no mercado internacional, o alívio não chega imediatamente ao consumidor. A indústria opera com estoques adquiridos a preços mais altos, contratos firmados com antecedência e uma estrutura de custos que leva tempo para se ajustar.
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O resultado é um descompasso entre a matéria-prima e o produto final. Em 2026, por exemplo, enquanto o cacau já acumulava queda relevante no mercado global, os preços de bombons e chocolates ainda subiram 16,71% ao consumidor, segundo a FGV.
O chocolate mudou, e não é só impressão
O rearranjo de custos afeta também, por muitas vezes, a qualidade do produto final. Comer, anos depois, um chocolate que adoçou a infância raramente entrega a mesma experiência. Nem tudo fica por conta da nostalgia e da memória afetiva. O produto está de fato diferente.
“Basta olhar as embalagens para perceber alterações importantes nos ingredientes”, diz Renato Benedito Vieira, docente de gastronomia e alimentação do Senac. “O principal deles, o teor de cacau, tem aparecido em menor quantidade, e quanto mais baixo esse teor menor será a qualidade do chocolate.”
Segundo ele, muitas formulações passaram a incluir mais açúcar e gorduras vegetais. O resultado é um produto mais doce, mais oleoso e com sabor menos intenso.
Há, portanto, um movimento duplo em que o chocolate reduz sua qualidade ao mesmo tempo que fica mais caro. A mudança de composição funciona como estratégia de redução de custos, mas altera a experiência do consumidor.
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Vieira ressalta ainda que atributos como origem do cacau e sustentabilidade vêm sendo incorporados ao produto, o que também eleva o preço. Nesse cenário, o ovo de Páscoa se distancia do consumo cotidiano e se aproxima de um item de maior valor agregado.
A proposta exige que o percentual da commodity seja informado de forma visível na embalagem e define parâmetros mínimos para diferentes tipos de chocolate.
Se parte do encarecimento convive com mudanças na composição, tornar essa informação explícita permite ao consumidor entender melhor o que está pagando. Além dos casos em que as distribuidoras não mais poderão chamar de chocolate aquilo que não cumprir o percentual mínimo de determinados ingredientes.
Bacalhau, tradição e custo
O bacalhau ocupa esse lugar por tradição. A presença do peixe na mesa está ligada ao costume religioso da Semana Santa, quando parte das famílias substitui a carne vermelha por pescados. O problema é que essa tradição tem um custo cada vez mais alto.
“A quase totalidade do bacalhau consumido no Brasil é importada”, afirma Jefferson Mariano.
Isso significa que o preço começa a ser definido fora do país. Câmbio, tarifas de importação e custos logísticos entram diretamente na conta. Mas há um elemento adicional que pesa justamente no momento de maior consumo.
“Nos últimos anos, o elevado consumo do produto no período explica a rigidez no comportamento dos preços”, diz o economista.
Na prática, muito parecido com o fenômeno que atua sobre os ovos de chocolate, quando a demanda se concentra em poucas semanas, o mercado ganha menos margem para oferecer descontos. O preço sobe com mais facilidade e recua com mais lentidão.
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Entre 2022 e 2026, por exemplo, o bacalhau acumulou alta de 31,21%, segundo a FGV.
A cesta da Páscoa em números
Variação percentual dos preços por ano e acumulado no período, com base no IPC-10.
Item
2023
2024
2025
2026
4 anos
Chocolates
11,02%
3,28%
11,54%
16,71%
49,26%
Bacalhau
11,16%
-1,91%
9,50%
9,90%
31,21%
Azeite
7,99%
45,47%
11,69%
-23,20%
34,74%
Cesta total
13,16%
16,73%
-6,77%
-5,73%
15,37%
Inflação geral (IPC-10)
4,64%
3,50%
4,29%
3,18%
16,53%
Fonte: FGV IBRE
Para traduzir esses números em termos práticos, uma cesta de Páscoa que custava R$ 100 em 2022 passaria a custar cerca de R$ 115 em 2026.
O problema é que os itens mais relevantes para a data subiram bem mais do que isso. Um chocolate que custava R$ 100 pode hoje estar próximo de R$ 149. Já o bacalhau, que partia do mesmo patamar hipotético de R$ 100, teria passado para cerca de R$ 131.
Quando fica mais barato?
Há momentos de alívio, mas eles são pontuais e concentrados fora do pico de consumo. “Passado o período da Páscoa, tende a ocorrer uma leve queda nos preços”, afirma Mariano. “Se observarmos os pescados, há sempre uma variação maior justamente no mês da celebração.”
Isso significa que os preços costumam subir no período imediatamente anterior e durante a Páscoa, quando a demanda se intensifica, e recuam depois, com o fim do pico de consumo. Em 2025, por exemplo, março e abril concentraram altas bem acima da média para esses produtos, refletindo exatamente esse movimento sazonal.
Além disso, a Páscoa não é uma data flexível. Para muitas famílias, o feriado ocupa um espaço simbólico, religioso e cultural importante demais para que sequer exista a possibilidade de adiar o consumo em busca de preços melhores.