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Investimentos

Com US$ 14 trilhões sob gestão, BlackRock amplia aposta em ativos alternativos e busca executivos

Gestora cria programa de participação nos lucros e endurece regras para evitar saída de talentos em meio à corrida pelos mercados privados

Por Amanda Gerut, da Fortune

04/02/2026 | 10:11 Atualização: 04/02/2026 | 10:11

BlackRock lança programa de carry para executivos e reforça aposta em ativos alternativos, em disputa direta com gigantes do private equity. (Imagem: Adobe Stock)
BlackRock lança programa de carry para executivos e reforça aposta em ativos alternativos, em disputa direta com gigantes do private equity. (Imagem: Adobe Stock)

A BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, está adotando uma prática típica do setor de private equity (capital privado) ao anunciar que passará a oferecer uma fatia dos lucros de seus fundos de mercados privados a um grupo seleto de executivos seniores.

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A medida pode levar os executivos mais bem pagos da área de mercados privados da BlackRock a receber milhões em remuneração adicional, caso os fundos apresentem desempenho excepcional ao longo da próxima década. Nenhum valor foi divulgado, e a BlackRock não informa quanto vale seu programa de participação nos lucros, conhecido como carry. Com o novo modelo de remuneração, a gestora busca reter talentos em meio a uma disputa acirrada com concorrentes pelos principais profissionais do mercado de ativos alternativos, justamente enquanto avança de forma agressiva em sua estratégia de expansão nesse segmento.

A nova política de remuneração, batizada de executive carry program, foi adotada em 13 de janeiro e é mais um sinal da aposta da BlackRock em ativos alternativos, que já somam US$ 660 bilhões dos US$ 14 trilhões sob gestão da companhia.

Vinda de uma gestora que construiu grande parte de seu negócio com ETFs e fundos indexados de baixo custo sob a marca iShares, a iniciativa reforça a rivalidade direta com Apollo, Blackstone e KKR, além de outras gestoras tradicionais, na disputa por clientes mais ricos e por classes de ativos mais rentáveis nos mercados privados. A concorrência envolve não apenas investidores e capital, mas também os profissionais mais qualificados para gerir esses ativos.

“Há um fluxo de talentos saindo do setor de investimentos em empresas abertas para o setor de empresas privadas”, afirmou R.J. Bannister, sócio e diretor de operações da consultoria Farient Advisors. “Um dos motivos é a remuneração mais elevada proporcionada pelos programas de carried interest.”

Além de ajudar na retenção, o carried interest oferece uma vantagem tributária relevante. Em geral, ele é tributado em torno de 20%, por ser tratado como participação societária na entidade de investimento, enquanto a remuneração tradicional pode ser taxada em até 37%, observou Eric Hosken, sócio da Compensation Advisory Partners, em Nova York.

“É isso que torna o instrumento tão atrativo para o funcionário”, disse Hosken. “Ele passa a ser tratado, na prática, como um proprietário do negócio.”

Aquisições bilionárias impulsionam avanço em alternativos

O lançamento do executive carry ocorre logo após uma sequência de aquisições de grande porte pela BlackRock e em meio a uma guinada estratégica mais ampla do setor em direção aos ativos alternativos. A KKR estima que a indústria de alternativos crescerá para mais de US$ 24 trilhões em ativos até 2028, ante US$ 15 trilhões em 2022. O Bank of New York fala em uma “renascença dos alternativos” e projeta que os ativos sob gestão nesse segmento para clientes de private wealth (riqueza privada) tripliquem, de US$ 4 trilhões para US$ 12 trilhões.

As compras da Global Infrastructure Partners, em 2024, e da gestora de crédito privado HPS Investment Partners, em 2025, por mais de US$ 24 bilhões em dinheiro e ações, colocaram a BlackRock entre as cinco maiores provedoras globais de ativos alternativos. Para completar o portfólio, a gestora adquiriu a fornecedora de dados de mercados privados Preqin em 2025, por US$ 3,2 bilhões.

Após as aquisições, a BlackRock informou a investidores que espera que receitas de mercados privados e tecnologia representem mais de um quinto do faturamento nos próximos anos. O CEO e chairman Larry Fink disse neste mês que a empresa trabalha com uma meta de captação de US$ 400 bilhões em mercados privados até 2030.

“2026 será nosso primeiro ano completo como uma plataforma unificada com GIP, HPS e Preqin”, afirmou Fink em comunicado de 15 de janeiro. “Em todo o mundo, os clientes querem fazer mais com a BlackRock.”

A companhia reportou receita de US$ 24,2 bilhões em seu último ano fiscal. Segundo a administração, “essa evolução do modelo de negócios deve se traduzir em crescimento orgânico mais elevado e durável, maior resiliência ao longo dos ciclos de mercado e expansão de múltiplos para os acionistas”, conforme informado no formulário de procuração de 2025.

No mesmo documento, o comitê de remuneração do conselho reconheceu que a BlackRock passou a competir diretamente com gestoras de private equity puro-sangue e incluiu Apollo Global Management, Blackstone e KKR no grupo de pares usado como referência para os pacotes de remuneração. Antes, o grupo incluía nove gestoras tradicionais, como Goldman Sachs, State Street e T. Rowe Price.

A diferença de remuneração, no entanto, é expressiva. Segundo dados da Heidrick & Struggles, executivos mais bem pagos das maiores gestoras de private equity podem receber alocações máximas de carry com valor esperado entre US$ 150 milhões e US$ 225 milhões ao longo da vida dos fundos, considerando retornos bem-sucedidos. Em comparação, a remuneração anual de CEOs de bancos de investimento gira entre US$ 30 milhões e US$ 40 milhões.

Steven Kaplan, professor de finanças e empreendedorismo da University of Chicago Booth School of Business, observou que grandes gestoras têm perdido talentos para o private equity.

“A migração de profissionais de asset management para private equity pode ser brutal”, disse Kaplan. “O pior cenário é não pagar bem seus melhores profissionais. Aí eles vão embora.”

Uma pesquisa com 80 líderes de equipes em gestoras de ativos alternativos e tradicionais, conduzida pela Magellan Advisory Partners para o relatório de perspectivas de 2026, mostrou que 29% esperam perder talentos-chave devido à maior caça de profissionais por concorrentes, reestruturações internas e redução nos bônus. Ao mesmo tempo, 54% afirmaram que pretendem contratar mais executivos neste ano.

Criando uma barreira em torno dos talentos

Na BlackRock, o novo programa de carry vem acompanhado de uma cláusula que cria uma barreira relevante à saída de executivos. Quem deixar a empresa para atuar em um concorrente, criar um fundo rival ou se envolver em qualquer atividade considerada competitiva perde integralmente sua participação no programa. A BlackRock define atividade competitiva como qualquer ação que concorra com suas operações ou as de suas subsidiárias, a critério exclusivo da gestora.

Segundo as regras divulgadas, tanto a parcela adquirida quanto a ainda não adquirida do carry pode ser confiscada caso o executivo seja considerado um “bad leaver”. Bannister, da Farient, afirmou que esse tipo de cláusula é desenhado para ser especialmente punitivo.

“A ideia é criar algemas e dar poder de retenção à empresa”, disse. “Se a pessoa sai, deixa muito valor na mesa.”

Embora executivos não gostem desse tipo de cláusula, muitos a aceitam diante do potencial de ganho. Segundo Aalap Shah, diretor da consultoria Pearl Meyer, o objetivo principal é manter o time unido e, ao mesmo tempo, desestimular concorrentes a roubar talentos, já que o custo de compensar a perda do carry se torna elevado.

Apesar de cláusulas de perda de carry não serem incomuns no setor, a perda inclusive de valores já adquiridos é menos frequente. Em contrapartida, o modelo compra tempo. Um diferencial do programa da BlackRock é o cronograma de aquisição mais concentrado no final, com nenhum direito adquirido até o terceiro ano de um ciclo de cinco anos. Steffen Pauls, ex-diretor da KKR, classificou o modelo como incomum, mas favorável aos investidores.

“O modelo garante que o time permaneça até o início das distribuições”, afirmou Pauls, fundador da Moonfare.

Um porta-voz da BlackRock afirmou que a empresa não comentaria além do que consta nos documentos públicos.

De acordo com registros regulatórios, os executivos participantes receberão uma porcentagem dos lucros futuros obtidos com os fundos de mercados privados da gestora, sujeitos a retenções e restrições. Os pagamentos virão de uma cesta de fundos emblemáticos, com captação superior a US$ 1 bilhão cada, abrangendo infraestrutura, crédito privado, private equity e real estate.

O programa segue a adoção de um modelo semelhante em fevereiro do ano passado para Larry Fink. O CEO tem direito a uma participação não divulgada nos incentivos de carry de um conjunto de dez fundos de mercados privados captados em 2024.

Em geral, o carry só começa a ser pago após os investidores receberem de volta o capital investido mais um retorno mínimo, normalmente entre 7% e 8% ao ano. A partir daí, cerca de 20% dos lucros ficam com a gestora. No caso da BlackRock, parte desse valor será compartilhada com executivos seniores, de acordo com sua contribuição individual para os fundos.

Por fim, o texto observa que, embora o carry seja relevante para a BlackRock, ele tende a representar uma parcela menor da remuneração total de seus executivos do que nas gestoras de private equity puro-sangue.

Correndo para acompanhar o Goldman Sachs

O modelo adotado pela BlackRock espelha uma mudança semelhante no Goldman Sachs Group, que aprovou no ano passado um programa de carry para o CEO David Solomon e outros executivos seniores. O Goldman também vinculou o programa a fundos alternativos lançados recentemente e reduziu a remuneração em caixa dos participantes.

Assim como a BlackRock, o Goldman exige investimento próprio nos fundos e prevê perda integral do carry em caso de saída para concorrentes.

Para Kaplan, as mudanças refletem uma transformação estrutural da indústria de gestão de recursos. Quando se somam private equity, venture capital, infraestrutura, crédito privado e real estate, essas classes representam uma parcela relevante do mercado total de investimentos.

“Se um investidor quer deter o portfólio de mercado, as gestoras precisam oferecer alternativos”, disse Kaplan. “Há dinheiro a ganhar, há demanda, e há uma quantidade expressiva de ativos nesse espaço.”

Nota do editor, 30 de janeiro de 2026: esta reportagem foi atualizada para informar que o valor combinado das aquisições da Global Infrastructure Partners e da HPS Investment Partners superou US$ 24 bilhões.

Esta história foi originalmente apresentada em Fortune.com e foi traduzido com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

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