Na manhã de ontem, a divisa chegou a operar com mínima a R$ 5,0656 e acabou fechando a R$ 5,1029, numa queda de 1,1%. Foi a primeira vez desde 21 de maio de 2024 que o dólar Ptax operou abaixo de R$ 5,10 frente ao real, segundo dados da Economatica. A taxa de referência utilizada pelo Banco Central para contratos de câmbio teve uma queda mais acentuada do que a cotação à vista e fechou a terça-feira a R$ 5,0899.
Marcio Riauba, head da mesa de operações da StoneX Banco de Câmbio, destaca que o bom momento do real chama atenção, porque ocorre mesmo em um cenário que ainda carrega incerteza geopolítica. “Isso sugere que o mercado está, ao menos por ora, priorizando o alívio de risco e a melhora do ambiente global”, diz.
Mas a resiliência da moeda brasileira já vem de algum tempo. Mesmo em março, mês em que a guerra no Oriente Médio ditou o tom dos mercados com aversão a risco e fuga por ativos seguros, o câmbio não sofreu tanto. O DXY, que mede a performance do dólar contra moedas fortes, subiu 2,41%, enquanto contra o real a alta foi de 0,87% no período.
No primeiro trimestre de 2026, o real teve alta de 4,5% contra o dólar, o melhor desempenho entre 10 moedas emergentes, segundo dados levantados pela MAPFRE Investimentos. A análise da gestora é de que, no comparativo com os pares, o Brasil continua com vetores de atração de investimentos diretos. Afinal, é um mercado grande e de liquidez, com recursos naturais abundantes, inclusive em setores energéticos – e segue barato.
“A economia brasileira apresenta posição exportadora de petróleo superior à de outras economias emergentes, e a taxa de juros real superior às praticadas na média de nossos pares contribui para influxos de investimentos em renda fixa. Na renda variável, a bolsa brasileira segue subvalorizada, induzindo investimentos em empresas com potencial de valorização”, destaca a MAPFRE.
O dólar vai cair abaixo de R$ 5?
A trajetória da cotação do dólar está fazendo muita gente sonhar com valores ainda mais baixos para a moeda americana. A última vez que o dólar Ptax fechou abaixo de R$ 5,00 foi há mais de dois anos, em 27 de março de 2024, quando encerrou o dia cotado a R$ 4,99, mostram dados da Elos Ayta Consultoria. Os especialistas não descartam que isso possa voltar a acontecer no curto prazo.
Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, a continuidade da valorização do real depende das variáveis que fizeram a moeda se valorizar até aqui. O câmbio pode chegar abaixo de R$ 5 se persistirem a fraqueza global do dólar, a manutenção do diferencial de juros favorável ao Brasil, sem ruptura da trajetória de queda da Selic no futuro, e a ausência de ruídos relevantes no ambiente doméstico. “Se algum desses pilares enfraquecer, o câmbio pode estabilizar antes de romper essa marca“, explica.
Marcio Riauba, da StoneX, destaca que os R$ 5 são um patamar psicológico importante, que tende a gerar alguma resistência, sobretudo porque grande parte das boas notícias já parece estar no preço. “A possibilidade de o câmbio cair abaixo de R$ 5 no curto prazo não é descartada, se o ambiente externo seguir construtivo, sem novas surpresas negativas, e os fluxos continuarem positivos.”
O que esperar de 2026
O mercado vinha revisando para baixo as projeções para o câmbio, mas com estimativas ainda bem acima dos patamares atuais. A mediana do Boletim Focus para o dólar em 2026 está em R$ 5,40 há três semanas.
Apesar do bom momento para ativos brasileiros, a leitura dos especialistas para o médio prazo parece mais cautelosa. No geral, anos eleitorais tendem a ser mais voláteis para o câmbio, que acaba funcionando como um vetor direto para as reações do mercado quanto aos ruídos políticos, discussões fiscais e expectativas sobre a condução da política econômica.
À medida que as eleições de outubro de aproximam, a política deve começar a fazer preço, tomando parte do espaço que hoje é ocupado totalmente pelo cenário externo. Isso pode tornar a assimetria que vem ajudando o câmbio menos favorável e impactar as cotações – em direções que ainda não é possível prever.
“O componente eleitoral adiciona incerteza, principalmente na questão fiscal, e isso costuma bater direto no câmbio. Mesmo com momentos de real mais forte, a dinâmica deve ser de oscilação, com o dólar reagindo tanto ao cenário externo quanto às sinalizações internas”, explica Elson Gusmão, diretor de Câmbio da Ourominas. “É um ano para esperar mais amplitude de preços do que uma tendência linear.”