No Brasil, o câmbio saiu de R$ 5,52 em janeiro para a região de R$ 5,12, acumulando queda superior a 6%. Ainda acima do patamar pré-pandemia (na casa dos R$ 4,50), o comportamento errático da moeda reflete um mercado menos disposto a tratá-la como porto seguro automático.
É nesse ambiente que o E-Investidor conversou com Bruno Nunes, diretor de investimentos da Ghia Multi Familly Office para entender quais ativos globais (líquidos e alternativos) fazem sentido carregar em um mundo no qual o dólar já não é mais o único centro gravitacional do capital.
E-Investidor – O que vocês estão priorizando hoje na alocação internacional?
Bruno Nunes – O primeiro passo na alocação internacional tende a ser mais óbvio: ativos líquidos. Estamos falando de ações globais e renda fixa internacional, tanto em países desenvolvidos quanto em emergentes. Nesse contexto, o dólar não é o objetivo final, ele é apenas o veículo. Depois que o recurso é alocado, a exposição cambial pode mudar. Muitas empresas globais geram receitas em diversas moedas, não apenas em dólar.
Mas, para além dos ativos líquidos, acreditamos que o grande diferencial está nos investimentos alternativos. É um termo amplo, que engloba tudo aquilo que não é tradicional ou listado em bolsa. E essa classe tem um papel muito relevante porque impõe disciplina ao investidor.
São investimentos com menor liquidez e prazos mais longos, o que força o investidor a fazer aquilo que os bons conselhos sempre recomendam: investir e esperar. Costumamos dizer que investir deveria ser como observar a grama crescer ou a tinta secar, algo difícil de fazer no dia a dia. Os ativos alternativos ajudam nesse processo e, historicamente, acabam oferecendo boas oportunidades de retorno.
Dentro desse universo, gostamos especialmente de ativos reais: infraestrutura, empresas que operam aeroportos, companhias de leasing [operação de aluguel] de grandes embarcações, por exemplo. Também olhamos para private equity [fundo que investe em empresas fora da Bolsa], investindo em empresas antes de se tornarem públicas, e venture capital [startups], buscando negócios em forte crescimento que podem se tornar os próximos grandes nomes globais.
Outro segmento relevante é o private credit [crédito privado] no exterior. No Brasil, crédito privado normalmente significa debêntures. Já lá fora, o private credit envolve empréstimos diretos a empresas, um mercado muito mais desenvolvido. Apesar de discussões recentes sobre riscos e possíveis excessos, seguimos confortáveis com esse tipo de alocação quando feita com bons parceiros.
Por que ainda faz sentido manter, ou até ampliar, a exposição a ativos dolarizados?
O ponto central é entender que investir não é apostar em moeda, mas em ativos que geram fluxo de caixa. Seja por meio de dividendos, juros, receitas operacionais ou retorno de projetos de infraestrutura, o objetivo é sempre o mesmo, alocar capital onde ele possa gerar valor ao longo do tempo.
Ao investir no exterior, o investidor não está apenas diversificando o risco Brasil, que é estruturalmente elevado, mas também ampliando o leque de oportunidades. Independentemente de ciclos positivos ou negativos no Brasil, o mundo continuará oferecendo alternativas diferentes, em outros setores, geografias e modelos de negócio.
Diversificação não é espalhar dinheiro de forma aleatória. É combinar ativos que se complementam e reduzem o risco total do portfólio. Investir fora do País permite acessar histórias, setores e riscos diferentes, o que melhora essa construção.
O Brasil, apesar de ter o mercado de capitais mais desenvolvido da América Latina, ainda é limitado em termos de profundidade e variedade. Portanto, continuar investindo fora – o que implica, naturalmente, converter reais em dólar – é uma forma de acessar um universo de investimentos muito mais amplo e dinâmico.
Qual a principal dica que você deixa para o investidor que busca o dólar?
Investir no exterior permite acessar ativos de alta qualidade e teses alternativas com potencial de retorno diferenciado. Acreditamos que os investimentos alternativos ilíquidos são um dos caminhos para gerar destaque de rentabilidade em portfólios mais sofisticados.
No entanto, não é uma estratégia para todos. Exige maturidade, acompanhamento e compreensão dos custos e das restrições de liquidez. Quando bem utilizada, pode ser uma ferramenta poderosa; quando mal dimensionada, pode gerar frustrações.